Até que enfim!, mas...
Um novo BI para o exercício pleno da Angolanidade
Por: Filipe Zau*
O facto do quesito “raça” deixar de constar futuramente dos novos bilhetes de identidade trouxe-me novamente à memória o livro “Na casa de meu pai” de Kwame Anthony Appiah, ilustre filósofo do Ghana, que chama a atenção para o equívoco que se tem de África como um todo, como “a single continuum”; ou seja, como um continente racialmente negro. Para este filósofo africano, esta é uma ideia reducionista, que foi desenvolvida no século XIX para justificar o hediondo tráfico negreiro, sobretudo, pelo francês Arthur de Gobineau, através do seu “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”.
Posteriormente, esta mesma ideia reducionista acabou por ser interiorizada pelos pan-africanistas, que, a propósito da “raça”, passaram a utilizar um discurso invertido, em resposta à prédica e à prática ostensivamente racial levada a cabo pela cultura ocidental naquele período. Contudo, o pan-africanismo não nasceu em África mas, sim, nos Estados Unidos, a partir de uma personalidade da igreja protestante, formada na Universidade de Cambridge, Estado de Massachusetts, e que, mais tarde, optou, em África, pela nacionalidade liberiana: Alexander Crummell.
Segundo Appiah “a ‘África’ de Crummell é a pátria da raça negra, e o seu direito de agir dentro dela, falar por ela e arquitectar o seu futuro decorria (…) do facto dele também ser negro” [APPIAH (1997): 22]. A fundamentação científica sobre a inexistência de “raças” reside no facto da espécie humana ter uma única origem e de as chamadas raças da humanidade serem estatisticamente apenas grupos distinguíveis, conclusão a que chegaram os biólogos em 1945, logo após a II Guerra Mundial. Assim sendo, os aspectos biológicos, contrariamente aos factores de ordem cultural, histórica, e política, deixaram de constituir vertentes de identidade. Daí que Appiah considere que “(…) a raça, uma experiência histórica comum ou uma metafísica compartilhada pressupõe falsidades sérias demais para que as ignoremos” e marca, deste modo, a sua posição enquanto cientista social: “ (…) Muitas vezes, quem diz isto – quem nega a realidade biológica das raças ou a verdade literal de nossas ficções nacionais – é tratado pelos nacionalistas e pelos ‘adeptos da raça’, com se estivesse propondo o genocídio ou a destruição das nações, como se, ao dizer que literalmente não existe uma raça negra, tivesse obliterado todos aqueles, que afirmam ser negros (…).
Sou aplicado o bastante para me sentir atraído pela enunciação da verdade, mesmo que o mundo venha abaixo; e sou animal político o bastante para reconhecer, que há lugares em que a verdade prejudica mais do que ajuda” [Idem: 242-243]. Mário de Andrade, segundo Victor Kakibanga, o decano da sociologia angolana, no prefácio de um livro de poesia editado em 1974 e intitulado “O Canto Armado do Povo Angolano” de Costa Andrade, ao apresentar o conceito de angolanidade, foi muito claro ao fazer a distinção entre as reais vertentes de identidade – constituídas por factores de ordem cultural, histórica e política – das que não o são, com é o caso dos factores de ordem biológica e afirmou o seguinte: “A angolanidade requer enraizamento cultural e totalizante das comunidades humanas, abarca e ultrapassa dialecticamente os particularismos das regiões e das etnias, em direcção à nação.
Esta opõe-se a todas as variantes de oportunismo (com as evidentes implicações políticas), que procuram estabelecer uma correspondência automática entre a dose de melanina e a dita autenticidade angolana. Ela é, pelo contrário, linguagem da historicidade de um povo”. Nesta ordem de ideias, as vertentes de identidade em Angola estarão, hoje, relacionadas com: as raízes de uma mesma pertença cultural de origem bantu; o resultado de um contacto histórico de meio milénio com os portugueses; factores ideológicos provocados pela reivindicação nativista e proto-nacionalista que, entre outros, estão na génese do moderno nacionalismo angolano; e com a guerra como factor dissociativo e associativo.
Não com a “raça”. Daí que, do ponto de vista científico, o quesito “raça” não faça qualquer sentido nos nossos (ou em quaisquer outros) bilhetes de identidade. Outras particularidades físicas serão, evidentemente, visíveis através da foto que incorpora o próprio bilhete de identidade. Independentemente do tipo de miscigenação, os seres humanos nunca produzem híbridos, mas, sim, pessoas da mesma espécie, todas elas inseridas em uma mesma classificação e em uma única “raça” da humanidade, designada por “homo sapiens”.
Quer no passado, quer nos dias de hoje, os estereótipos resultantes de concepções ideológicas assentes no princípio da racialização dos distintos discursos sobre a “raça” estão hoje longe de contribuir para a paz efectiva e para a estabilidade social, uma vez que sustentam o exercício de acções de comportamento social desviado.
O investigador angolano Arlindo Barbeitos chama, por seu turno, a atenção para a animalização que se torna ostentatória no produto da miscigenação, como que a verberar a infracção grave que o misto constitui: “mulato” (de mula), cabrito (de cabra). “A especificação, violentamente concebida e outorgada, se compõe, assim, de uma totalidade despojada dos predicados que o africano se atribuía a si e daqueles que o dominador aplicava ao homem feito à sua imagem. Ela equivale, de uma parte, à objectivação da relação mencionada e, de outra, à sua transfiguração, impingida enquanto identidade, e indicando simbolicamente dependência real ou virtual”.
Num outro texto de sua autoria, que tem por título “A ‘Raça’, Racismo, algumas incidências sobre Angola”, consta, em epígrafe, a seguinte afirmação de um filósofo alemão de origem hebraica: “O racismo é a crítica social dos imbecis” [BARBEITOS]. Também, neste contexto, o investigador brasileiro José Ramos Tinhorão refere o seguinte: “Mulato, como se sabe, era o nome que originalmente se dava ao macho da mula, o animal híbrido e estéril no mesmo género, proveniente do cruzamento de jumento com égua ou de cavalo com jumenta. A extensão dessa designação aos descendentes de brancos e negros deve ter tido porém origem não apenas no facto de tais mestiços humanos resultarem também de um cruzamento de ‘raças’, mas de os cavalos e muares serem comummente baios, ou de cor castanha de tonalidade próxima do pardo da pele humana, como aliás ressaltaria no século XVIII o satírico Nicolau Tolentino de Almeida.
Ao referir-se a um padre mestre de retórica mulato, seu desafecto, era essa comparação maldosa que usava para o diminuir: ‘Um homem de couros baios’.” [TINHORÃO (1997): pp.260-261.
Ora, o racismo é precisamente entendido como sendo “a valorização generalizada e definitiva de diferenças reais ou imaginárias em proveito do acusador e em detrimento da vítima a fim de justificar uma agressão ou um privilégio” [MEMMI (1993): 72].Em tempo de reconciliação e unidade nacional teremos de educar as actuais e futuras gerações no espírito de uma educação para a identidade cultural, para a diversidade cultural e para o ecumenismo; ou seja, uma educação intercultural que não perca de vista o exercício pleno da cidadania, ao entender Angola como uma sociedade multicultural, com as especificidades próprias marcadas pelo seu próprio percurso histórico.
Um trabalho educativo que, numa perspectiva macro-sociológica, deverá começar já nas escolas primárias, porque, como dizia o físico alemão Albert Einstein, conhecido por desenvolver a teoria da relatividade, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais
In, Jornal de Angola de Domingo, 7 de Junho, de 2009
Há tempos, AQUI.
Por: Filipe Zau*
O facto do quesito “raça” deixar de constar futuramente dos novos bilhetes de identidade trouxe-me novamente à memória o livro “Na casa de meu pai” de Kwame Anthony Appiah, ilustre filósofo do Ghana, que chama a atenção para o equívoco que se tem de África como um todo, como “a single continuum”; ou seja, como um continente racialmente negro. Para este filósofo africano, esta é uma ideia reducionista, que foi desenvolvida no século XIX para justificar o hediondo tráfico negreiro, sobretudo, pelo francês Arthur de Gobineau, através do seu “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”.
Posteriormente, esta mesma ideia reducionista acabou por ser interiorizada pelos pan-africanistas, que, a propósito da “raça”, passaram a utilizar um discurso invertido, em resposta à prédica e à prática ostensivamente racial levada a cabo pela cultura ocidental naquele período. Contudo, o pan-africanismo não nasceu em África mas, sim, nos Estados Unidos, a partir de uma personalidade da igreja protestante, formada na Universidade de Cambridge, Estado de Massachusetts, e que, mais tarde, optou, em África, pela nacionalidade liberiana: Alexander Crummell.
Segundo Appiah “a ‘África’ de Crummell é a pátria da raça negra, e o seu direito de agir dentro dela, falar por ela e arquitectar o seu futuro decorria (…) do facto dele também ser negro” [APPIAH (1997): 22]. A fundamentação científica sobre a inexistência de “raças” reside no facto da espécie humana ter uma única origem e de as chamadas raças da humanidade serem estatisticamente apenas grupos distinguíveis, conclusão a que chegaram os biólogos em 1945, logo após a II Guerra Mundial. Assim sendo, os aspectos biológicos, contrariamente aos factores de ordem cultural, histórica, e política, deixaram de constituir vertentes de identidade. Daí que Appiah considere que “(…) a raça, uma experiência histórica comum ou uma metafísica compartilhada pressupõe falsidades sérias demais para que as ignoremos” e marca, deste modo, a sua posição enquanto cientista social: “ (…) Muitas vezes, quem diz isto – quem nega a realidade biológica das raças ou a verdade literal de nossas ficções nacionais – é tratado pelos nacionalistas e pelos ‘adeptos da raça’, com se estivesse propondo o genocídio ou a destruição das nações, como se, ao dizer que literalmente não existe uma raça negra, tivesse obliterado todos aqueles, que afirmam ser negros (…).
Sou aplicado o bastante para me sentir atraído pela enunciação da verdade, mesmo que o mundo venha abaixo; e sou animal político o bastante para reconhecer, que há lugares em que a verdade prejudica mais do que ajuda” [Idem: 242-243]. Mário de Andrade, segundo Victor Kakibanga, o decano da sociologia angolana, no prefácio de um livro de poesia editado em 1974 e intitulado “O Canto Armado do Povo Angolano” de Costa Andrade, ao apresentar o conceito de angolanidade, foi muito claro ao fazer a distinção entre as reais vertentes de identidade – constituídas por factores de ordem cultural, histórica e política – das que não o são, com é o caso dos factores de ordem biológica e afirmou o seguinte: “A angolanidade requer enraizamento cultural e totalizante das comunidades humanas, abarca e ultrapassa dialecticamente os particularismos das regiões e das etnias, em direcção à nação.
Esta opõe-se a todas as variantes de oportunismo (com as evidentes implicações políticas), que procuram estabelecer uma correspondência automática entre a dose de melanina e a dita autenticidade angolana. Ela é, pelo contrário, linguagem da historicidade de um povo”. Nesta ordem de ideias, as vertentes de identidade em Angola estarão, hoje, relacionadas com: as raízes de uma mesma pertença cultural de origem bantu; o resultado de um contacto histórico de meio milénio com os portugueses; factores ideológicos provocados pela reivindicação nativista e proto-nacionalista que, entre outros, estão na génese do moderno nacionalismo angolano; e com a guerra como factor dissociativo e associativo.
Não com a “raça”. Daí que, do ponto de vista científico, o quesito “raça” não faça qualquer sentido nos nossos (ou em quaisquer outros) bilhetes de identidade. Outras particularidades físicas serão, evidentemente, visíveis através da foto que incorpora o próprio bilhete de identidade. Independentemente do tipo de miscigenação, os seres humanos nunca produzem híbridos, mas, sim, pessoas da mesma espécie, todas elas inseridas em uma mesma classificação e em uma única “raça” da humanidade, designada por “homo sapiens”.
Quer no passado, quer nos dias de hoje, os estereótipos resultantes de concepções ideológicas assentes no princípio da racialização dos distintos discursos sobre a “raça” estão hoje longe de contribuir para a paz efectiva e para a estabilidade social, uma vez que sustentam o exercício de acções de comportamento social desviado.
O investigador angolano Arlindo Barbeitos chama, por seu turno, a atenção para a animalização que se torna ostentatória no produto da miscigenação, como que a verberar a infracção grave que o misto constitui: “mulato” (de mula), cabrito (de cabra). “A especificação, violentamente concebida e outorgada, se compõe, assim, de uma totalidade despojada dos predicados que o africano se atribuía a si e daqueles que o dominador aplicava ao homem feito à sua imagem. Ela equivale, de uma parte, à objectivação da relação mencionada e, de outra, à sua transfiguração, impingida enquanto identidade, e indicando simbolicamente dependência real ou virtual”.
Num outro texto de sua autoria, que tem por título “A ‘Raça’, Racismo, algumas incidências sobre Angola”, consta, em epígrafe, a seguinte afirmação de um filósofo alemão de origem hebraica: “O racismo é a crítica social dos imbecis” [BARBEITOS]. Também, neste contexto, o investigador brasileiro José Ramos Tinhorão refere o seguinte: “Mulato, como se sabe, era o nome que originalmente se dava ao macho da mula, o animal híbrido e estéril no mesmo género, proveniente do cruzamento de jumento com égua ou de cavalo com jumenta. A extensão dessa designação aos descendentes de brancos e negros deve ter tido porém origem não apenas no facto de tais mestiços humanos resultarem também de um cruzamento de ‘raças’, mas de os cavalos e muares serem comummente baios, ou de cor castanha de tonalidade próxima do pardo da pele humana, como aliás ressaltaria no século XVIII o satírico Nicolau Tolentino de Almeida.
Ao referir-se a um padre mestre de retórica mulato, seu desafecto, era essa comparação maldosa que usava para o diminuir: ‘Um homem de couros baios’.” [TINHORÃO (1997): pp.260-261.
Ora, o racismo é precisamente entendido como sendo “a valorização generalizada e definitiva de diferenças reais ou imaginárias em proveito do acusador e em detrimento da vítima a fim de justificar uma agressão ou um privilégio” [MEMMI (1993): 72].Em tempo de reconciliação e unidade nacional teremos de educar as actuais e futuras gerações no espírito de uma educação para a identidade cultural, para a diversidade cultural e para o ecumenismo; ou seja, uma educação intercultural que não perca de vista o exercício pleno da cidadania, ao entender Angola como uma sociedade multicultural, com as especificidades próprias marcadas pelo seu próprio percurso histórico.
Um trabalho educativo que, numa perspectiva macro-sociológica, deverá começar já nas escolas primárias, porque, como dizia o físico alemão Albert Einstein, conhecido por desenvolver a teoria da relatividade, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais
In, Jornal de Angola de Domingo, 7 de Junho, de 2009
Há tempos, AQUI.





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