Domingo, Março 30, 2008

Ruiu


Foto daqui
Foi de sexta para sábado.
Enquanto nuns locais de Luanda se trabalha dia e noite (chinas e mwangolês) na construção de "belíssimas" torres de vidro, com escritórios e apartamentos de luxo, os restantes prédios vão-se degradando à espera do colapso que, ainda assim (e felizmente), tarda a chegar. Mas tudo tem um tempo de vida e os agora "velhos" prédios que o "colono" deixou já começam a perder a arrogância teimosa de se manterem de pé (apesar dos maus tratos sem qualquer espécie de manutenção ou obras de reparação desde a data da dipanda).
(Porra! Já estava a ver que o raio dos prédios íam durar mais 500 anos!!!).

Embora alguns "piadistas" já digam que o abateram para construir um condomínio, o que aconteceu de sexta para sábado foi dramático. O prédio onde funcionava a DNIC (Direcção Nacional de Investigação criminal) desabou. Há a lamentar oito mortos, um grupo de mulheres reclusas (mais um bebé) que ainda não foram retiradas dos escombros, alguns feridos e milhares de arquivos e processos de registos criminais perdidos e destruídos.

As autoridades estão atentas e tudo foi e está a ser feito para resgatar as pessoas em vida e prestar assistência médica aos sinistrados.

No entanto, o prédio começou a ruir perto da 1 da manhã, pelo que não se cpompreende como foi possível não terem libertado todos os presos e evacuado o edifício por completo.

Fugiram os polícias e ficaram os "ladrões". Pois! Há que respeitar as hierarquias, mesmo nos momentos em que é preciso pensar que todos somos pessoas, seres humanos com direito à vida.
Os edifícios circundantes também sofreram e, com isso, os seus moradores.

Ainda esta semana desabou o pátio do colégio privado "Botão de Gente" tendo como motivo as escavações "brutais" que estão a ser feitas para um edifício não menos "brutal" na rua Rei Katyavala.

Por motivos similares, mas desta vez no fim da ex- Luís de Camões onde se está a construir um "hotelzito" de dezenas de andares, o edifício onde funcionava a empresa Petromar, começou a rachar e o chão a abater.

É a lei da vida: uns morrem e outros nascem... Não há lugar para todos e "prontoS"!

Sexta-feira, Março 28, 2008

Flor de despir

Bem-me-quer – Às vezes desejo que não me respondas...
Mal-me-quer – Ficar assim é estar suspensa num limbo de felicidade eterna.
Bem-me-quer – Tenho medo.
Mal-me-quer – Deixas-me construir um lugar de fantasias onde, em risco
constante, nos vivo cor de liberdade azul e verde.
Bem-me-quer – Contigo tenho saudades do que nunca senti.
Mal-me-quer – Separo a minha imaginação de mim para te ouvir dizer o que quero.
Bem-me-quer – Morro.
Mal-me-quer – Renasço-me.
Bem-me-quer – Sem sequer te tocar.
Mal-me-quer – Nestes opostos me vivo virtual, intensa e dolorosamente;
Bem-me-quer – ... desalinho-me (-te).

Quinta-feira, Março 27, 2008

As línguas africanas de Angola face à globalização

Por: Filipe Zau*

Um relatório de um perito da UNICEF, da área da psicologia social, que, há alguns anos atrás, trabalhou em Angola, relata-nos uma história verídica, que comporta um problema relevante e que constitui uma preocupação séria do ensino primário – o discurso pedagógico – que constitui, hoje, uma das principais razões para a introdução das chamadas “línguas nacionais”, quer como línguas de comunicação, quer como matérias de ensino, nos novos currículos de aprendizagem. Relatava, então, em 1989, José Afonso Baptista, o seguinte: “uma personalidade ilustre de Luanda, ao visitar um lar de transição na Província de Benguela, onde a língua nacional característica da região é o umbundu, adoptou uma menina de 2 anos que se lhe atirou aos braços. Dava assim o exemplo do caminho a seguir em relação a tantas crianças a quem a guerra ceifou os pais. Canjala deve o seu nome à terra onde nasceu e onde, por causa da guerra, ficou órfã. O umbundu é a sua língua materna. Na sua nova família, Canjala foi sempre tratada com todo o carinho mas, durante algum tempo, a mãe adoptiva não entendia a filha nem a filha entendia a mãe. A família que a adoptou não fala umbundu e Canjala não fala português. Foram longos meses de incompreensão. Chegou a altura de enfrentar a escola e Canjala foi matriculada na classe de iniciação, onde iria aperfeiçoar a língua portuguesa em conjunto com outras crianças. Logo se verificou que as suas capacidades de aprendizagem não eram iguais às dos outros alunos. Inconscientemente, Canjala temia o confronto com os companheiros. Tornou-se agressiva e a escola começou a tornar-se num tormento. Foi necessário repetir a classe de iniciação. Em 1989, Canjala frequentava a 1ª classe, mas as dificuldades continuavam e, mais uma vez, foi condenada a repetir o ano”.

Segundo a interpretação do perito da UNICEF, no seu relatório, o porquê desta situação deve-se ao seguinte: “no seu novo meio familiar encontrou, de facto, o carinho indispensável e as comodidades, que, certamente, não teria na sua família de origem. Porém, faltou-lhe uma coisa importante: a sua língua materna, suporte indispensável ao desenvolvimento mental. O corpo continuou a crescer, mas o intelecto parou, infelizmente, numa idade em que os atrasos são mais difíceis de recuperar. O desenvolvimento das capacidades mentais das crianças se opera, sobretudo, antes delas entrarem na escola e a capacidade de aprendizagem das línguas, suporte indispensável para aquele desenvolvimento, é máxima por volta dos 3 ou 4 anos de idade”.

A grande maioria das crianças angolanas está privada de desenvolver ao máximo as suas potencialidades, com prejuízo evidente das crianças das classes sociais mais desfavorecidas. Nesta fase, segundo este consultor da UNICEF, qualquer criança pode aprender, num ano, dez vezes mais do que um adulto. Aos 4 anos a estrutura geral da língua materna está adquirida. As crianças que mudam de área geográfica, se mudam antes dos 4 anos, adquirem as marcas linguísticas (fonéticas, sintácticas, prosódicas) do novo meio. Mas, se mudarem depois dos 4 anos, manterão as características da região de origem. Logo, uma criança que com 1 ou 2 anos de idade perca os pais, mude de meio geográfico e linguístico e seja integrada num meio linguístico diferente, sofrerá, obviamente, atrasos no seu desenvolvimento. E isto, por razões de carácter político-militar, aconteceu a um grande número de crianças angolanas no passado. A única maneira de as salvar é integrá-las no meio linguístico de origem.

Em 1991, havia cerca de 50 mil crianças órfãs e abandonadas, das quais apenas 30 mil eram controladas em lares transitórios e definitivos pela então Secretaria de Estado dos Assuntos Sociais. A situação dos órfãos e deslocados de guerra acabou por se agravar ainda mais, na sequência da guerra fratricida que ressurgiu após as primeiras eleições presidenciais e governamentais, realizadas em Setembro de 1992. Com o regresso à guerra, a situação social da criança angolana deteriorou-se ainda mais e, em 1995, após o Protocolo de Lusaka, estimava-se, que já houvesse 1,5 milhões de crianças em estado de privação física ou condicionadas psíquica e emocionalmente e, dentre estas, 840 mil em condições particularmente difíceis. Entre finais de 1998 e o início de 2002, podemos certamente inferir, que muito mais crianças ficaram, do ponto de vista da aprendizagem, na mesma situação de Canjala.

Quando, segundo a UNESCO, de um total de 6.700 idiomas, “mais de metade se encontra em risco de extinção e a cada 15 dias desaparece uma forma de ouvir, falar, pensar e representar o Universo” por uma parte significativa da humanidade, leva-nos, necessariamente, a pensar na preservação, promoção e difusão do nosso próprio património linguístico. No âmbito de uma relação indissociável entre educação/cultura e sem minorar o progresso científico que se opera em todo o mundo, a globalização é, sobretudo, entendida como económica e tecnológica. Não cultural. Face ao processo de desenvolvimento da actividade económica e sócio-cultural dos países em desenvolvimento, não poderá a globalização ser entendida como algo “fatalista” e “imobilizante” das dinâmicas culturais próprias dos Estados soberanos, sob pena destes perderem paulatinamente as suas referências identitárias e a sua própria autonomização.

Não pode haver educação sem suportes culturais que lhes sejam intrínsecos, nem promoção e difusão cultural, mesmo em países multiculturais e plurilingues, sem apoio de sistemas educacionais, já que a(s) cultura (s), a actividade laboral e o exercício pleno da cidadania constituem os fins de uma qualquer educação virada para um paradigma de desenvolvimento sustentado e endógeno. Como afirmou Paulo Freire na sua obra Pedagogia da Autonomia; saberes necessários à prática educativa, “todos nós somos seres condicionados, mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável”.

Face ao actual contexto imposto pela mundialização a economia, Paulo Freire considera imperioso, que o professor forme adequadamente, do ponto de vista técnico, os seus alunos, como condição sine qua non para a sua adaptação e sobrevivência. Porém, apesar da globalização impor uma tendência generalizada para a uniformização, no plano educativo torna-se de todo impossível criar um modelo uniformizado ou de “educação universal”. As sociedades encontram-se estruturadas em função de códigos sociais e interagem, em função dos seus membros, a partir de costumes, princípios, regras, formas de ser, que podem estar ou não fixadas em leis escritas. “A educação é, assim, o resultado da consciência viva duma norma, que rege uma comunidade humana, quer se trate da família, duma classe ou duma profissão, quer se trate dum agregado mais vasto, como um grupo étnico ou um Estado”. Como outras práticas sociais, a educação actua sobre a vida e o crescimento das diferentes sociedades em dois sentidos: no desenvolvimento das suas forças produtivas; e no desenvolvimento dos seus valores culturais. O modo como os homens se organizam para produzir os bens de que necessitam; a ordem social que constroem para conviver; a forma como estruturam a sua própria sociedade…; resulta do reportório de ideias e do conjunto de normas, que fazem com que uma determinada sociedade se possa reger de acordo com a sua própria dinâmica. Consequentemente, os professores/formadores acabam por funcionar de acordo com o tipo de educação que é pensado, criado e posto a funcionar. Não para uma espécie de “educação universal” que, segundo Emile Durkheim, “não pode nem deve existir”. Mas, sim, para cada sociedade real e histórica que, em determinado momento do seu desenvolvimento, cria e impõe o tipo de educação de que necessita.

* Doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

In, Jornal de Angola de 1 de Março de 2008

Domingo, Março 23, 2008

Na "trazzeira" do kandongueiro XXVIII


:-))

Terça-feira, Março 18, 2008

Crólicas XVIII e XIX

Domingo, Março 16, 2008

Vade retro


Hoje dei comigo distraída na ideia de me render às "bizarrias" com que me cruzo por aqui, achando que podería ser a solução para o fim das minhas permanentes inquietações e para a melhoria da minha saúde mental.

Mas... foi só dar um passeio à Ilha para 'a(re)cordar' e voltar a estar viva.
Afinal a "morte" não nos resolve.

Crólicas XV, XVI e XVII

Domingo, Março 09, 2008

A trança

Quando era pequena, a minha mãe nunca me prendia o cabelo que se espalhava em desalinho, amarelado, um pouco por todo o rosto. Sempre o usei comprido.
Cresci rebelde como o meu cabelo.

“Faço-te uma trança”, pediu-me ele em tom determinado. Não, eu respondi.

Prender-me o cabelo seria amarrar-me como quando fazia ballet em que cabelo e corpo eram acorrentados a normas e a modelos que inibiam a minha natureza.

… mas às vezes sou tentada a fazer-lhe a vontade e invento-me a pensar se abrir uma excepção teria a cor da felicidade

Quinta-feira, Março 06, 2008

Testamento

… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.
Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.
E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.
Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:
a tua alma pura e frágil!...

Terça-feira, Março 04, 2008

O capitalismo angolano entre o presente e o futuro.

Por: JOÃO MELO

O velho Marx dizia (cito de cor): - "Historicamente, o capitalismo nasceu com as mãos sujas de sangue". A frase pode parecer exagerada, mas basta lembrar os desenvolvimentos das revoluções burguesas na Europa para confirmá-lo. Para aqueles que acham que "ler muito atrapalha as ideias", recomendo um western qualquer, para apreciarem como nasceu o grandioso capitalismo americano.Como é que o capitalismo angolano está a nascer? Qual o seu futuro imediato? Nos outros países, há livros sobre o surgimento do capitalismo e como se formaram as grandes famílias burguesas que até hoje controlam o respectivo poder. Por todas as razões, ainda é cedo para surgir um livro desses acerca da burguesia angolana nascente. Seja como for, gostaria de deixar aqui alguns contributos para algum estudioso que esteja interessado em escrevê-lo.Com efeito, acho que já é possível, pelo menos, identificar os passos principais que a burguesia angolana emergente seguiu para se transformar, gradualmente, naquilo que é hoje: um grupo altamente restrito e endinheirado, com um apetite incontrolável e uma forte tendência para o exibicionismo e a arrogância, que está mais preocupado com os seus negócios do que com os problemas da sociedade, possuidor de um discurso nacionalista, mas que confunde cultura nacional com o "Caldo do Poeira" e, além disso, não hesita em aliar-se a interesses estrangeiros, para melhor prosperar.Como aconteceu em outros países pós-coloniais, a formação dessa classe (ou é melhor dizer grupo?) teve (tem) de ser feita à sombra e com o apoio do Estado. Os raros capitalistas que sobreviveram à aventura socialista de 1975 eram de origem europeia ou seus descendentes; de resto, mais ninguém herdou nada de ninguém, pelo que, quando a aventura socialista foi dada por encerrada, só havia uma forma de enriquecer: via Estado.Assim, o primeiro passo foi lançar mão da estratégia das comissões. O segundo foi adquirir o património estatal a preços irrisórios. O terceiro foi a especulação cambial, enquanto durou a taxa de câmbio "administrativa". O quarto foi usar informação privilegiada. O quinto foi utilizar as posições ocupadas no aparelho administrativo para fazer negócios consigo mesmo, assim como exigir participações em projectos apresentados por terceiros, pedir propinas para viabilizar esses projectos ou, pura e simplesmente, desviá-los e fazê-los em nome próprio ou de "testas-de-ferro".Talvez com a excepção da especulação cambial, as outras "ferramentas de capitalização", digamos assim, continuam a ser utilizadas. Graças a elas, formou-se um grupo restrito, mas poderoso, que estende os seus tentáculos a praticamente todas as áreas de actividade.O capitalismo angolano não poderia nascer de outra maneira. Do ponto de vista histórico, não há capitalismo higiénico. Daí, por conseguinte, as histórias de vigarices, trapaças, tráfico de influências e outras, que circulam nas conversas de bar, nas tertúlias, nos encontros familiares, nas farras ou nos óbitos (é aí onde os angolanos fazem a política real e não nas instâncias de tipo ocidental que, como todos os outros países periféricos, fomos forçados a adoptar).Entretanto, a fase de acumulação primitiva de capital por parte do grupo que controla o poder efectivo em Angola está virtualmente concluída. Dois sinais apontam nesse sentido: a criação do Banco Angolano de Desenvolvimento – que é, assumidamente, uma tentativa política e financeira de criar uma classe empreendedora nacional alargada e com critérios mais ou menos democráticos e racionais, uma vez que o núcleo dominante da burguesia emergente está praticamente formado – e a entrega da gestão dos seus negócios, por parte desse núcleo, aos seus filhos e sobrinhos, muitos deles cursados no exterior, em especialidades escolhidas "estrategicamente".O que esperar, assim, do futuro imediato do capitalismo angolano? A avaliar pela "pose" dessa nova geração – entre os 30 e 40 anos de idade – que começa a gerir os negócios dos seus antecessores, não estou muito optimista. Jovens cuja primeira ambição é ser milionários, que andam todos os dias de fato preto, gravata encarnada e óculos escuros, gostam de "estilar" de Hummer e acham que a juventude angolana é só aquela que sabe o que é "tchilar" e frequenta o Miami Beach fazem-me ficar preocupado com os meus filhos mais novos e os meus (futuros) netos.

In, JORNAL DE ANGOLA - 25.02.2008
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