A propósito do projecto «Oratura... dos Ogros... e do Fantástico», que eu adoraria ver, aqui deixo um conto popular da região de Luanda:
"Era uma vez uma mulher que tinha duas filhas. Um dia, chegou Kaholongonyo com cabeça de gente, que quis levar a sua filha mais nova para criá-la. Ouvindo isto, a filha mais velha pegou na irmã e fugiu com ela. Quando parou, atirou a irmã a uma lagoa, não deixando quaisquer vestígios para que alguém pudesse levar a sua irmã mais nova consigo.
Esta, debaixo de água, transformou-se numa Kianda. Na madrugada seguinte, foi falar com a sua própria mãe, dizendo: «Preciso da tua filha para criá-la». A sua mãe acedeu. A Kianda levou então a sua irmã mais velha consigo, mergulhou com ela na água e vestiu-a muito bem, com cordões de ouro ao pescoço e pulseiras nos pulsos. Quando acabou de a vestir, foi com ela a casa da mãe, a quem ofereceu uma pipa de vinho e um fardo de fazenda. Tendo recebido estas coisas, a mulher foi para casa do seu marido e ficou por lá.
O homem pegou numa cabaça e atirou-a ao chão. Da cabaça saíram muitos escravos e também casas para os escravos.
Após tudo isto ter acontecido, a mulher ficou grávida e deu à luz. No entanto, a criança faleceu.
O homem disse então: «O nosso filho morreu. A tua mãe não há-de vir ao funeral.» No entanto, a mãe veio, num momento em que o homem estava a dançar. Tendo visto que a sogra tinha vindo a sua casa, disse ele à sua esposa: «O que foi que eu te disse? Eu não disse "o nosso filho morreu; a tua mãe não há-de vir ao funeral"?»
Quando acabou de falar, pegou numa cabaça e atirou-a ao chão. Todas as casas foram para dentro da cabaça. Onde havia uma sanzala, ficou só capim. No fim, o homem foi-se embora. A mulher foi atrás dele, seguindo-o para onde quer que ele fosse, cantando assim:
«Meu querido marido! Meu querido marido!»
O homem parou junto a uma porta, atrás da qual havia duas grandes pedras. Ele passou pela porta e pegou numa das pedras. A mulher então não o seguiu mais. Voltou para trás e foi para casa da sua mãe.
Quando chegou a casa da mãe, morreu; a mãe também morreu; e toda a gente morreu.
Só ficou viva uma mulher. Esta estava em sua casa quando chegou um ogro que a levou consigo. E a mulher viveu com ele. A mulher engravidou e deu à luz uma criança que tinha uma cabeça só.
Mais tarde, a mulher engravidou uma segunda vez; o ogro disse-lhe então o seguinte: «Se deres outra vez à luz uma criança com uma cabeça só, chamo os meus parentes para te comerem.» A mulher deu então à luz uma criança com duas cabeças.
A mulher pegou no seu filho que tinha uma só cabeça e fugiu com ele. Encontrou umas casas e escondeu-se numa delas. Quando ia a passar por lá, o ogro sentiu o cheiro de gente. O ogro entrou numa das casas, encontrou a mulher a dormir e comeu-a, assim como ao seu filho.
4 Comentários:
Lindos! O Nuno sempre foi um artista.
Muitos parabéns!
Algo Diaguileviano. Muito belo!
Felicitações
A propósito do projecto «Oratura... dos Ogros... e do Fantástico», que eu adoraria ver, aqui deixo um conto popular da região de Luanda:
"Era uma vez uma mulher que tinha duas filhas. Um dia, chegou Kaholongonyo com cabeça de gente, que quis levar a sua filha mais nova para criá-la. Ouvindo isto, a filha mais velha pegou na irmã e fugiu com ela. Quando parou, atirou a irmã a uma lagoa, não deixando quaisquer vestígios para que alguém pudesse levar a sua irmã mais nova consigo.
Esta, debaixo de água, transformou-se numa Kianda. Na madrugada seguinte, foi falar com a sua própria mãe, dizendo: «Preciso da tua filha para criá-la». A sua mãe acedeu. A Kianda levou então a sua irmã mais velha consigo, mergulhou com ela na água e vestiu-a muito bem, com cordões de ouro ao pescoço e pulseiras nos pulsos. Quando acabou de a vestir, foi com ela a casa da mãe, a quem ofereceu uma pipa de vinho e um fardo de fazenda. Tendo recebido estas coisas, a mulher foi para casa do seu marido e ficou por lá.
O homem pegou numa cabaça e atirou-a ao chão. Da cabaça saíram muitos escravos e também casas para os escravos.
Após tudo isto ter acontecido, a mulher ficou grávida e deu à luz. No entanto, a criança faleceu.
O homem disse então: «O nosso filho morreu. A tua mãe não há-de vir ao funeral.» No entanto, a mãe veio, num momento em que o homem estava a dançar. Tendo visto que a sogra tinha vindo a sua casa, disse ele à sua esposa: «O que foi que eu te disse? Eu não disse "o nosso filho morreu; a tua mãe não há-de vir ao funeral"?»
Quando acabou de falar, pegou numa cabaça e atirou-a ao chão. Todas as casas foram para dentro da cabaça. Onde havia uma sanzala, ficou só capim. No fim, o homem foi-se embora. A mulher foi atrás dele, seguindo-o para onde quer que ele fosse, cantando assim:
«Meu querido marido! Meu querido marido!»
O homem parou junto a uma porta, atrás da qual havia duas grandes pedras. Ele passou pela porta e pegou numa das pedras. A mulher então não o seguiu mais. Voltou para trás e foi para casa da sua mãe.
Quando chegou a casa da mãe, morreu; a mãe também morreu; e toda a gente morreu.
Só ficou viva uma mulher. Esta estava em sua casa quando chegou um ogro que a levou consigo. E a mulher viveu com ele. A mulher engravidou e deu à luz uma criança que tinha uma cabeça só.
Mais tarde, a mulher engravidou uma segunda vez; o ogro disse-lhe então o seguinte: «Se deres outra vez à luz uma criança com uma cabeça só, chamo os meus parentes para te comerem.» A mulher deu então à luz uma criança com duas cabeças.
A mulher pegou no seu filho que tinha uma só cabeça e fugiu com ele. Encontrou umas casas e escondeu-se numa delas. Quando ia a passar por lá, o ogro sentiu o cheiro de gente. O ogro entrou numa das casas, encontrou a mulher a dormir e comeu-a, assim como ao seu filho.
A casa passou então a ser casa de ogros(*)."
(*) - Em kimbundu makixi, sing. dikixi.
Kátia e José Pedro: Agradeço em nome do Nuno.
Denudado: Obrigada pela tua sempre valiosa contribuição
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