Lembrar mais para nunca mais
Por: Filipe Zau *
Durante o ano de 1992, as indústrias extractivas em Angola haviam contribuído para 40% do PIB. O petróleo representava 89% do valor total das indústrias extractivas e o diamante branco 10,6%.
Com o recomeço da guerra, as indústrias extractivas passaram a registar uma baixa de 14,6%, agravando-se assim, ainda mais, a qualidade de vida das populações, tanto nos centros urbanos como nas áreas rurais. Só a exportação de diamantes, que, em 1992, chegou a atingir 250 milhões de dólares, baixou, em 1993, para 16,7 vezes menos.
A insegurança e a instabilidade político-militar fizeram com que a agricultura, a silvicultura e a pesca passassem a contribuir apenas 6,9% ao ano, o que correspondia a metade do que se havia realizado em tempo de paz. O comércio baixou ao modesto nível de 15,6%.
A taxa de inflação que, em 1991, era de 175%, passou, em 1992, para 496%.
Em 1993, o défice orçamental situava-se em 29% do PIB e o défice da balança de pagamentos fixava-se nos 400 milhões de dólares.
A taxa de câmbio que, em Outubro de 1994, era de 1 dólar para Kz 500.000, passou, em Fevereiro de 1995, a corresponder a Kz 1.600.000; ou seja, o triplo num espaço de 4 meses. Hoje, 1 dólar já vale menos que kz 75. A destruição de infra-estruturas económicas (principalmente, das petrolíferas na província do Zaire) e de linhas de transmissão e distribuição de energia; a paralisação de várias unidades de produção; as dificuldades de aquisição de sobressalentes e diferentes matérias-primas; o abandono de locais de produção… reduziu, em muito, o nível de produção e produtividade na economia angolana, que passou a fazer face a um duplo desafio: - Por um lado, a passagem de uma economia de orientação socialista, para uma economia de mercado de tipo neo-liberal; - Por outro, a transição de uma economia condicionada pela guerra, para uma economia orientada para a reconstrução nacional e para o desenvolvimento humano.
Em 1993, o programa de estabilização económica adoptado foi interrompido e substituído por um programa de emergência.
Contudo, devido à nova situação conflitual, o objectivo de restaurar o equilíbrio macro-económico que havia mobilizado a maior parte dos meios orçamentais e empréstimos do exterior, acabou por não surtir os efeitos desejados.
Consequentemente, a contribuição do orçamento de Estado para o financiamento do sector da Educação que, em 1990/91, se situava entre 9 e 10%, passou para 4%, em 1994/95 e ainda não se aproximou dos valores de 1991, que, já anteriormente, correspondiam a pouco mais que o pagamento de salários para professores. Hoje, ainda está longe dos 17% considerados normais para países em desenvolvimento, que, evidentemente, não tenham vivido situações prolongadas de guerra.
Estimava-se que, após o Protocolo de Lusaka, já houvesse cerca de 2 milhões de pessoas deslocadas, ou seja, a sexta parte da população total do País, superando, em muito, as 342.635 que já existiam até 1992, bem como as 34.743 crianças de rua e na rua controladas só pela ex-Secretaria de Estado dos Assuntos Sociais.
A exacerbação de vários decénios de conflitos armados provocou um maior empobrecimento das populações, em particular no meio rural e peri-urbano: - Mais de 65% da população rural passou a viver abaixo do nível da pobreza;- Somente um quinto da mesma beneficiava de água potável. A nutrição e a saúde pública reflectiam uma situação preocupante, que era agravada pela destruição, entre outras, de 40 a 60% das infra-estruturas educacionais, principalmente nas províncias do Bíé, Huambo, Malanje e Uíje.
Em cada 1.000 crianças que nasciam, 126 morriam antes de atingirem 1 ano e 292 antes dos 5 anos. Uma em cada 1.000 mulheres morria por razões ligadas a complicações no parto. Na área do emprego e ocupação, a população activa correspondia a 40% da população total: 73% provinha da agricultura, 10% da indústria e 17% do comércio e serviços.
O sector formal acolhia somente 628.000 activos, dos quais três quartos eram provenientes do sector público.
O sector privado possuía uma população activa de 132.000 pessoas, mas um terço da mesma encontrava-se em Luanda. As estratégias de sobrevivência, impostas pela situação sócio-económica, fizeram crescer um mercado paralelo maioritariamente composto por mulheres (60%), tanto ao nível do comércio grossista, como ao nível das operações de troca de moeda (kinguilas).
A taxa de desemprego, em particular em Luanda, era estimada em torno de um quarto da população activa. Associada à população desempregada encontravam-se ainda: as vítimas de guerra, os refugiados de regresso ao país (calculados na ordem das 100.000 pessoas), os deslocados, os soldados desmobilizados (em torno de 90.000), as crianças deficientes, os órfãos e as crianças de rua… Toda uma população em sérias dificuldades, calculada, em 1995, em mais de 3 milhões de pessoas.
Por esta altura continuava-se a verificar-se que apenas um terço das crianças angolanas, na primeira infância, eram vacinadas. A inexistência ou precariedade das estruturas sanitárias, a subalimentação ou a má nutrição, continuavam a contribuir para que houvesse um elevado índice de mortalidade infantil e juvenil.
O raquitismo, a avitaminose e a meningite (causadora da surdez e dos problemas da fala), atingiam uma boa parte destas crianças, sobretudo, na zona rural e no perímetro urbano. No total, estimava-se que houvesse 1,5 milhões de crianças em estado de privação física ou condicionadas psíquica e emocionalmente e, dentre estas, 840.000 em condições particularmente difíceis.
Cerca de 500.000 crianças haviam sido atingidas mortalmente pela violência das acções armadas. Diariamente, registava-se, em média, a morte de 500 crianças. Em finais de 1998, Angola regressou uma vez mais à guerra e o país ficou praticamente exangue com um maior agravamento da situação político-militar e económico-social.
É certo que foi a guerra que uniu os angolanos e os levou à independência através da luta contra o império colonial. Todavia, foi também a guerra entre os próprios angolanos, que impediu a realização de todo e qualquer programa estruturante de desenvolvimento económico e social no nosso País. Nas guerras civis, não há vencedores nem perdedores. Todos perdem. E o maior dos perdedores – nunca é demais dizer –, é sempre o mesmo: o povo.
*Doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Internacionais
In, Jornal de Angola de 6 de Maio de 2008
Durante o ano de 1992, as indústrias extractivas em Angola haviam contribuído para 40% do PIB. O petróleo representava 89% do valor total das indústrias extractivas e o diamante branco 10,6%.
Com o recomeço da guerra, as indústrias extractivas passaram a registar uma baixa de 14,6%, agravando-se assim, ainda mais, a qualidade de vida das populações, tanto nos centros urbanos como nas áreas rurais. Só a exportação de diamantes, que, em 1992, chegou a atingir 250 milhões de dólares, baixou, em 1993, para 16,7 vezes menos.
A insegurança e a instabilidade político-militar fizeram com que a agricultura, a silvicultura e a pesca passassem a contribuir apenas 6,9% ao ano, o que correspondia a metade do que se havia realizado em tempo de paz. O comércio baixou ao modesto nível de 15,6%.
A taxa de inflação que, em 1991, era de 175%, passou, em 1992, para 496%.
Em 1993, o défice orçamental situava-se em 29% do PIB e o défice da balança de pagamentos fixava-se nos 400 milhões de dólares.
A taxa de câmbio que, em Outubro de 1994, era de 1 dólar para Kz 500.000, passou, em Fevereiro de 1995, a corresponder a Kz 1.600.000; ou seja, o triplo num espaço de 4 meses. Hoje, 1 dólar já vale menos que kz 75. A destruição de infra-estruturas económicas (principalmente, das petrolíferas na província do Zaire) e de linhas de transmissão e distribuição de energia; a paralisação de várias unidades de produção; as dificuldades de aquisição de sobressalentes e diferentes matérias-primas; o abandono de locais de produção… reduziu, em muito, o nível de produção e produtividade na economia angolana, que passou a fazer face a um duplo desafio: - Por um lado, a passagem de uma economia de orientação socialista, para uma economia de mercado de tipo neo-liberal; - Por outro, a transição de uma economia condicionada pela guerra, para uma economia orientada para a reconstrução nacional e para o desenvolvimento humano.
Em 1993, o programa de estabilização económica adoptado foi interrompido e substituído por um programa de emergência.
Contudo, devido à nova situação conflitual, o objectivo de restaurar o equilíbrio macro-económico que havia mobilizado a maior parte dos meios orçamentais e empréstimos do exterior, acabou por não surtir os efeitos desejados.
Consequentemente, a contribuição do orçamento de Estado para o financiamento do sector da Educação que, em 1990/91, se situava entre 9 e 10%, passou para 4%, em 1994/95 e ainda não se aproximou dos valores de 1991, que, já anteriormente, correspondiam a pouco mais que o pagamento de salários para professores. Hoje, ainda está longe dos 17% considerados normais para países em desenvolvimento, que, evidentemente, não tenham vivido situações prolongadas de guerra.
Estimava-se que, após o Protocolo de Lusaka, já houvesse cerca de 2 milhões de pessoas deslocadas, ou seja, a sexta parte da população total do País, superando, em muito, as 342.635 que já existiam até 1992, bem como as 34.743 crianças de rua e na rua controladas só pela ex-Secretaria de Estado dos Assuntos Sociais.
A exacerbação de vários decénios de conflitos armados provocou um maior empobrecimento das populações, em particular no meio rural e peri-urbano: - Mais de 65% da população rural passou a viver abaixo do nível da pobreza;- Somente um quinto da mesma beneficiava de água potável. A nutrição e a saúde pública reflectiam uma situação preocupante, que era agravada pela destruição, entre outras, de 40 a 60% das infra-estruturas educacionais, principalmente nas províncias do Bíé, Huambo, Malanje e Uíje.
Em cada 1.000 crianças que nasciam, 126 morriam antes de atingirem 1 ano e 292 antes dos 5 anos. Uma em cada 1.000 mulheres morria por razões ligadas a complicações no parto. Na área do emprego e ocupação, a população activa correspondia a 40% da população total: 73% provinha da agricultura, 10% da indústria e 17% do comércio e serviços.
O sector formal acolhia somente 628.000 activos, dos quais três quartos eram provenientes do sector público.
O sector privado possuía uma população activa de 132.000 pessoas, mas um terço da mesma encontrava-se em Luanda. As estratégias de sobrevivência, impostas pela situação sócio-económica, fizeram crescer um mercado paralelo maioritariamente composto por mulheres (60%), tanto ao nível do comércio grossista, como ao nível das operações de troca de moeda (kinguilas).
A taxa de desemprego, em particular em Luanda, era estimada em torno de um quarto da população activa. Associada à população desempregada encontravam-se ainda: as vítimas de guerra, os refugiados de regresso ao país (calculados na ordem das 100.000 pessoas), os deslocados, os soldados desmobilizados (em torno de 90.000), as crianças deficientes, os órfãos e as crianças de rua… Toda uma população em sérias dificuldades, calculada, em 1995, em mais de 3 milhões de pessoas.
Por esta altura continuava-se a verificar-se que apenas um terço das crianças angolanas, na primeira infância, eram vacinadas. A inexistência ou precariedade das estruturas sanitárias, a subalimentação ou a má nutrição, continuavam a contribuir para que houvesse um elevado índice de mortalidade infantil e juvenil.
O raquitismo, a avitaminose e a meningite (causadora da surdez e dos problemas da fala), atingiam uma boa parte destas crianças, sobretudo, na zona rural e no perímetro urbano. No total, estimava-se que houvesse 1,5 milhões de crianças em estado de privação física ou condicionadas psíquica e emocionalmente e, dentre estas, 840.000 em condições particularmente difíceis.
Cerca de 500.000 crianças haviam sido atingidas mortalmente pela violência das acções armadas. Diariamente, registava-se, em média, a morte de 500 crianças. Em finais de 1998, Angola regressou uma vez mais à guerra e o país ficou praticamente exangue com um maior agravamento da situação político-militar e económico-social.
É certo que foi a guerra que uniu os angolanos e os levou à independência através da luta contra o império colonial. Todavia, foi também a guerra entre os próprios angolanos, que impediu a realização de todo e qualquer programa estruturante de desenvolvimento económico e social no nosso País. Nas guerras civis, não há vencedores nem perdedores. Todos perdem. E o maior dos perdedores – nunca é demais dizer –, é sempre o mesmo: o povo.
*Doutorado em Ciências da Educação e Mestre em Relações Internacionais
In, Jornal de Angola de 6 de Maio de 2008




4 Comments:
Vê-se que o sr é mestre em relações internacionais, vulgodiplomacia,vulgo paleio de fachada - "a transição de uma economia condicionada pela guerra, para uma economia orientada para a reconstrução nacional e para o desenvolvimento humano." começa quando?
É que,
além da falácia, o sr esquece que a guerra 'entre angolanos' já acabou há anos...
Obrigada minha querida pelo artigo muito bem escrito do Filipe Zau
Beijinhos
(Estou sempre aqui)
Mulemba
Olá. Muito interessante o seu blog, bastante informação de Angola. Estou a quase um ano trabalhando em Luanda. O povo Angola é muito amigo e alegre.
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