Quinta-feira, Janeiro 25, 2007
Sexta-feira, Janeiro 19, 2007
“Vulto said...”
"Já que comecei… só mais 2 ou 3 coisinhas, para te entreteres enquanto viajas: não te esqueças que estavas numa comitiva ministerial, logo de poder, e a relação entre as comunidades étnicas e culturais e o poder, sobretudo no interior de Angola, particularmente naquela região que foi tão profundamente afectada pela guerra que lá teve o desfecho que teve, é travestida de rituais que não acontecem necessáriamente em situações normais… tenta imaginar como seriam as coisas se aparecesses lá sózinha, por tua conta e risco e sem quaisquer referências, guarda-costas ou “guias de marcha”. Tenta também considerar se a tua “diferença” em relação ao grupo não jogou qualquer papel na forma como ele se relacionou contigo… E, fundamentalmente, tenta compreender que uma coisa é o domínio técnico das formas de expressão cultural de um particular grupo etno-linguístico, que fazes bem em tentar incorporar na tua dança, outra coisa é tentares apropriar-te da identidade do teu objecto de estudo… porque é isso que, consciente ou inconscientemente andas a tentar fazer. Será isso éticamente aceitável? Culturalmente legítimo? Intelectualmente honesto? E, neste particular, um áparte: porquê que as “regras de transcrição fonética” no teu site Tucokwe não são vocalizadas por alguém que pertença genuinamente àquele grupo étnico? E, já agora, “não gravaste nem filmaste porque não querias profanar aquele momento de intimidade tão único”…mas não te coibiste de o reproduzir aqui em detalhe, num espaço aberto ao mundo… será que as “mamãs” que tanta questão faziam que os homens “não vissem” não se importarão agora que qualquer homem no mundo as possa ver através dos teus olhos e comentar sobre o que viu?! Mas tu não tens culpa, és apenas o produto de um sistema político de apropriação cultural, também conhecido como “vulturismo cultural”, muito mal gerido ao longo destes 30 anos do pós-independência por elementos de um grupo social muito bem definido em Angola… e esse fenómeno há muito vem sendo estudado e debatido com muita seriedade, sobretudo fora do mundo lusófono. Mas, cedo ou tarde, esses debates e suas consequências chegarão a Angola… E aí talvez se tenham que rever os critérios de atribuição de alguns prêmios culturais nacionais… Mas, se bem te conheço a partir do que vou lendo neste teu blogue, com um ágil passo de dança e sob o aplauso da tua corte de admiradores, vais varrer tudo isto para debaixo do teu tapete vermelho como “ignorância” ou “inveja” e continuarás certamente a identificar-te arrogantemente como Phwo (não será, simplesmente, Pwo?) e a tentar virar “kacockwe”… qualquer dia…"
[comentário encontrado num dos meus últimos posts e recuperado para a primeira página por constituir “documento” de análise ;-) ]
A blogosfera tem destas coisas. À democracia manifesta na possibilidade de todos poderem ter um, dois ou mais blogs e de todos poderem expressar livremente as suas opiniões, juntam-se outros “direitos” parasitários como o de se ser inconveniente, racista, debochado, agressivo, etc.... e covarde, claro. Esta, a covardia, é uma das atitudes preferidas por aqueles indivíduos que, na falta de capacidade para assumir a sua insegurança, não só se escondem atrás do anonimato (ou “pseudónimos”) – ao qual recorrem para os seus “raids terroristas” – como, através dele, selam a sua insignificância.
É o que se passa com este “vulto”, comicamente triste no seu rol de disparates, recalcamentos, raivas e, o que é mais grave ainda, ignorância cega.
Esta resposta será, na opinião de muitos, um atribuir-lhe alguma importância (até porque vultos não existem ou são a “sombra” de alguém). Eu prefiro transformá-la num simples motivo para uma discussão sobre conceitos e valores. Vamos a “ela” (à discussão, claro!)?
Antes porém, uma ressalva: o meu objecto de estudo são as máscaras e não o grupo social. A olhos leigos, pode não parecer relevante, mas do ponto de vista de estruturação metodológica de um trabalho académico faz toda a diferença. Assim como faria diferença se este comentário tivesse sido escrito por alguém que dominasse bem e com abertura, os conceitos etic e emic.
Abstendo-nos de considerar a mesquinhez dos ataques pessoais e dos vaticínios ridículos e próprios de quem não conhece a pessoa sobre a qual se permite atrevidamente falar, poderíamos talvez principiar por reflectir sobre esta ideia bizarra, mas interessante, de “apropriação de identidade cultural”. Muitas discussões existem à volta do conceito de identidade e as opiniões são variadíssimas. Há, no entanto, algo que me parece fundamental referir: a identidade não é inata, mas sim algo que se vai construindo num processo dinâmico de incorporações e apropriações que pode durar a vida inteira. Pressupostos culturais, sociais e identitários de um grupo podem ser transmitidos desde cedo, mas a possibilidade de a estes se juntarem elementos de modernidade (ou o contrário) ou de outras culturas é uma realidade.
Sobre a legitimidade cultural e ética... não foi ético e muito menos legítimo os primeiros exploradores expropriarem violentamente objectos e peças de culto (entre outras) das mãos dos povos que decidiram colonizar, sob a alegação de se tratar de objectos de “feitiço” incompatíveis com os princípios da igreja católica, a “ideal”.
Não foi ético, encerrar essas peças em museus na Europa, com a agravante de não existir qualquer referência ao contexto, à verdadeira função da peça e ao seu autor. “Fétiche”, “feitiço” e outras palavras foram durante muito tempo (e infelizmente ainda o são) as preferidas para rotular os objectos saídos dos grupos de “nativos atrasados”.
A expropriação é crime.
Mas é ético o estabelecimento de protocolos em situação de estudo, assim como o é a negociação (para os menos informados não se trata de “negócio”, mas de um termo usado em antropologia) entre as partes, com o compromisso do respeito mútuo.
Um terceiro ponto de discussão poderia partir da visão distorcida sobre a dinâmica das sociedades ditas tradicionais. Realmente, esses grupos sociais não constituem sociedades museu ou estanques, como o ocidente, ainda hoje, pretende. Os processos de transformação, mais ou menos lentos, são inevitáveis. O contacto de umas comunidades com outras ou com distintas realidades acontece. Há cada vez menos grupos fechados. No meio de uma aldeia pode haver uma revista a cores, um frasco de gel de banho, um aparelho de rádio, um televisor; como também apareceram as missangas, as moedas, as faixas de pano vermelho ou os espelhos, trazidos pelos colonizadores. E esses elementos foram e são apropriados e incorporados. É lícito; é uma atitude progressista. O contrário, é igualmente legítimo. Quantos artistas ocidentais se “apaixonam” pelas esculturas ou pelos ritmos africanos e orientais e os adoptam? Quantas mulheres brancas vi eu de panos e penteados africanos na Holanda, por exemplo?
O importante é as pessoas não serem complexadas, nem retrógradas nos seus olhares. O que é meu pode perfeitamente ser tomado por ti, desde que o sintas teu, também.
Mas há ainda o sentir, a vivência, a proximidade com outras culturas. Há ainda a aceitação e a validação da nossa presença ou da nossa pessoa por parte dos indivíduos de um determinado grupo. Quando os resultados das provas que somos obrigados a prestar são positivos, então “a minha cultura é a tua cultura”.
Mas isto só pode ser entendido ou por quem estuda, ou por quem não sofre de complexos e constrangimentos, ou então por quem vive (ou viveu) situações similares e conhece bem este tipo de processos.
Eu não falaria em apropriação, mas sim em integração e partilha. Mas isso sou eu, que estou realmente “dentro”.
Terça-feira, Janeiro 16, 2007
Mesquitela Lima

(10.01.1929 / 14.01.2007)
(foto tirada daqui)
À hora marcada, outras pessoas te rodeavam, mas não para te ouvir falar sobre os akixi, sobre os hamba.
Eu não te acompanhei. Não podia. Estava no lugar da primeira combina.
Prestámos-te homenagem, pensamos em ti durante 1 minuto, em silêncio.
No fim, disseram que eu era bem tua aluna, "exuberante" e "faladora", mas sei que nunca me igualarei a ti.
Obrigada pelo pouco tempo em que contigo convivi. Obrigada pelo privilégio das longas conversas em tua casa (guardo a entrevista com a tua voz).
Até sempre, nosso Makulwana!
Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
Terça-feira, Janeiro 09, 2007
As "mamãs" do Wino wa Cikota

Surgindo, por fim, a oportunidade que ele aguardava, Marquito, o motorista do “nosso” autocarro, dispôs-se a levar-me a passear. Mas uma contra ordem mandou-nos para o aeroporto buscar as senhoras do grupo de dança Wino wa Cikota que aguardavam, desde as 8 da manhã (!!!), pela partida da delegação do Ministério da Cultura para iniciarem a habitual performance de despedida.
Assim que entraram no autocarro o “chefe” do grupo que, sem eu saber, me conhecia de há muito, apresentou-me. Em saudação e por ser mulher (elas explicaram) cantaram para mim. Acompanhei com palmas e exibi o meu "- Nasakwila cinji". Os seus rostos mudaram; agora pertencíamos à mesma classe: mulheres bailarinas. Reparei nas escarificações que marcavam os rostos das mais idosas e fui dizendo, em voz baixa, o nome de cada um dos símbolos. Agradadas por eu saber sobre as marcas, insistiram para que eu lhes perguntasse segredos de mulheres. Não posso deixar de dizer da timidez “que fiquei com ela”.
Mas o maior desafio foi a dança.
Horas depois, enquanto a delegação se despedia com todas as formalidades e mesuras hierárquicas, como manda o protocolo, eu dançava a ciyanda com elas, descalça, na pista do aeroporto, com um pano que me haviam atado à cintura.
Os políticos aproximaram-se sem eu perceber e quando me voltei… quis sair da roda, mas a mais velha do grupo não me deixou, ordenando-me em tom autoritário que ficasse.
Sem saber gerir a situação fui fazendo a minha coreografia, de forma a retirar-me, discretamente.
Entrei para o avião atrasada. Chovia gotas mornas. Ao contrário do que esperava, não fui “ralhada” pelo Ministro da Cultura. Gostou e manifestou-o naquele momento para todos ouvirem.
Eu tentava calçar as sandálias e apertar o cinto de segurança, ao mesmo tempo. O avião corria já pela pista.
Olhando para baixo, ainda pude distinguir alguns pontos fazendo um círculo. Eram elas, as mamãs do grupo Wino wa Cikota que, em ucokwe quer dizer, dança da tradição – a primeira dança: ciyanda.
Sábado, Janeiro 06, 2007
"Impressões de Luanda 2"
Tomo algumas destas notas ainda em Luanda, numa sexta-feira pastosa que invade a cidade e de um cheiro que quase nunca é bom, mas podemos imaginar como poderia ser florido e fresco, sobretudo à noite…
Noite, como muitas vezes falta a luz àquela hora. Arrancam os geradores num barulho que sufoca o ar. Quantos geradores estão trabalhar esta noite e a queimar não sei quantas toneladas de combustível? O que pensam os países viciados numa economia de guerra, alimentada pelo petróleo?
Impera o desperdício: da água que enche tanques e vaza, dos milhares de carros lavados todas as manhas, dos ares que nunca se desligam, das luzes que nunca se apagam.
Consta que ¾ população vive com 15/20 litros de água por dia, numa correria entre bidons amarelos e o processo 500. Para quantos pneus chegam 15 litros?
Claro que o mundo não é só injusto em Luanda, mas tudo se torna mais insuportável quando o confronto é a mais descarada opulência, mal formada, e a exibição atrevida da vacuidade num clima de orgia permanente. Mesmo que antes seja necessário atravessar o inferno pestilento da Samba até chegar ao “embarcadouro”.
Hoje finalmente faltou água em casa, os tanques esvaziaram sem que se soubesse que há dias faltava na cidade. Como se sabe em Luanda não fica bem ver a TPA e por enquanto as TVs brasileiras e a “SIC 10 horas” ainda não dão notícias sobre a falta de água em Luanda. É uma azáfama e uma fonte de receita para a casa da esquina que tem um poço.
Luanda surge como um imenso bairro de lata… intercalada por pequenos oásis e por um subúrbio novo, rico, fechado e árido que foge para sul. Choveu e as inundações sobressaem. Estradas que são lagos de chuva, lixo e esgotos.
Fervilha uma actividade construtiva e de serviços, de negócios e de oportunidades. Chineses, brasileiros, portugueses, indianos e claro angolanos antigos e recentes. Uma ponte, uma escola, duas fábricas e três estruturas metálicas. Ganha quem tem mais força? quem chega primeiro? quem conhece melhor os meandros da “gasosa”? Ganham, para já, todos... incluindo-se naturalmente os luandenses que podem, pelo menos, deslumbrar-se com os primeiros sobressaltos de uma sociedade de consumo e respirar um ambiente menos claustrofóbico.
A nova moda e ícone de sucesso é a segurança privada, a esturricar sentados em cadeiras de plástico e a fazer candonga com o estacionamento. Parece que a eficácia em termos de segurança é duvidosa. “Por vezes estão feitos com os bandidos ou são os primeiros a ser amarrados e a levar umas chapadas”.
Em Luanda como se sabe há muitos “Jeeps” grandes, mas encontrei um que exibia um grande ícone revolucionário e vi rituais que engasgam o mais passivo dos seres. O nosso revolucionário, o do Jeep, atravessa em pontas o charco que envolve a viatura após a barrela matinal e num saltinho pesado atinge o assento, as pernas ficam bamboleantes à espera....que o “moço” que lava o carro lhe limpe as solas!
Felizmente Luanda não é só isto. Há o Minho do meu avô africano, lá onde se reinventa o Kwanza, ritmos que caiem sobre rios de liberdade…, a Barra do Dande e gente que ama e estuda o deserto.
Sexta-feira, Janeiro 05, 2007
Fragilidades (?)
+de+Angola73-Mutilados.jpg)
Terça-feira, Janeiro 02, 2007
Novo ano, nova (mw)ana?

Hoje é mesmo um daqueles dias em que a desorganização (assim mesmo, sem parêntesis) se manifestou em toda a sua magnificência.
Fui à praia - o dia estava lindo com o céu azul e o mar verde coberto por milhares de latas, garrafas, plásticos, preservativos e outros enfeites flutuantes de Feliz Natal e Próspero Ano Novo! - e quinze minutos depois estava de regresso.
Só havia cadeiras sempre à sombra, mas eu também não queria apanhar sol o tempo todo. Oh!, dilema idiota, não? Pois é, mas de repente fui invadida por um mal-estar perturbador.
O que estava eu a fazer na praia em dia de semana? O que estava eu a fazer na praia com trabalho para preparar? O que estava eu a fazer ali na praia no meio de tanta gente? O que estava eu a fazer naquela praia onde se paga 4,5 usd por uma garrafa pequena de água mineral e mais 5 usd por uma cadeira?
Achei que... merda.
Em casa, organizei as ideias: ok, o que estou eu a fazer nesta Angola que não reconheço?
À procura de me reencontrar ou de encontrar um caminho só para mim?
'tá bem...











