Era uma vez a porca de Murça ou, onde a publicidade torce o rabo

(Clicar na imagem para aumentar)
De facto, os placards publicitários em Luanda poderiam ser fortes concorrentes aos da marca "Benetton", no que toca a "escandalizar" os mais susceptíveis. Mas, com a azáfama e a violência da cidade, nem sempre há tempo para leituras de mensagens subliminares ou interpretações de subtextos.
Nem sempre vou a tempo ou tenho à mão os meios para fotografar (desculpem-me a péssima qualidade desta imagem captada ao longe por um telemóvel) estas pérolas que vão sendo plantadas na cidade, pelo que me tem escapado parte significativa destes hilariantes outdoors.
Mas, não é só em Angola, retorquirão aqueles que apreciam o contra-ataque e as comparações como arma de defesa. Pois não, concordo eu. Mas estou agora a referir-me especificamente ao que vejo aqui e ponto final.
Depois deste , mais este e ainda este, agora este reclame a um vinho português onde se exibe um duplo rótulo: "Porca de Murça", na garrafa, e apenas "Porca" na fronte da modelo sorridente que nem nota o que o infeliz criativo lhe escreveu bem no meio da testa.
É caso para concordar que se trata mesmo de um "vinho [vindo] atrevido" já que, depois de ser corrido como colono "volta mais de novo" exibicionista e pela mão de quem dele se libertou.
(OK, qual é a maka? Somos malta sem complexos!... Pois! Ninguém anda distraído.)





10 Comentários:
Muitom rebuscado, MwanaPwo. Ninguem faria essa leitura.
Além disso, o colono é americano, chinês, russo, sueco etc.
O português que era brando colono foi corrido por isso mesmo, por ser brando; e por falar com o preto como se fosse um amigo.
Mais, o explorador português, o tal 'kôlô', comparado com o antecedente (as tais referências de que não gosta, não é...) de alguns colonos de hoje que a tratam, a si! como se sabe (muitas vezes nem são estrangeiros, nem sequer brancos, uma diferença evidente e que por vezes dá tanto jeito...)o 'kôlô', dizia eu, era um anjinho.
E ainda hoje é!
Apesar das arrogâncias e das negociatas e explorações dos 'senhores do dinheiro' (os de 'lá' e os de 'cá'!), o 'zé portuga' da rua, o kôlô, aceita cá os 'angolanos novos', os que vêm de 'lá' fugidos a 'isso' e que já não são 'os mesmos', aceita-os sem reticências e continua a fazer com ele amizades e bricadeiras sem pensar muitose são de lá, de uma terra onde não sei se seriam tratados com amizade por 'pá'.
Registe - a sua indepedência política e liberdade de escolha é hoje tão sua como o foi no tempo do kôlô; agora mais degradada, claro; e mais degradante também, embora com mais riqueza mais mal distribuída. Ou talvez por isso...
(Aquele meu comentário deve ser visto no estrito âmbito deste seu texto e, sobretudo, no dos textos a ele ligados)
Phwo, está muito bem apanhado. Seria mais interessante observar um tipo mulato ou preto por trás de uma branca, mas isso poderia adulterar a casta da Porca de Murça :)
O racismo continua, e deve-se continuar a combatê-lo, por mais subtil que seja. Continue... (eu ajudo)
Caro Pirata:
Sabe como sou irónica. Pensei que já tivesse reparado (loll) ou até que já estivesse habituado :-(
De facto, acho graça e divirto-me a "sub-ler" esta especie de [não, não é de magazine] "contradições" e "desencontros" históricos e políticos. Não intencionais, eu sei. Apenas... impensados (?), inocentes, por isso.
Nesta publicidade achei particularmente infeliz o "rótulo" na testa da pobre rapariga... só isso; o resto... saiu-me ;-)
Beijos e não se indisponha.
Ah! Tenho que dizer-lhe que não há colonialismos mais ou menos brandos. Sei que não é preciso lembrar aqui as atrocidades e segregações permanentes - ao longo de diversas épocas e períodos históricos - que os portugueses praticaram e a que sujeitaram os povos que habitavam já estes territórios, durante todo o processo de ocupação. Outros aspectos podem ser discutidos. Também houve actos de bondade e dedicação, mas de pessoas individuais (muitas até; acredito, embora isso não interessa agora aqui) e não do Estado Português. Se o fazia, não era inocentemente.
Nota: A propósito, viu o último «Prós e Contras» moderado pela Fátima Campos Ferreira, na RTP?
Elypse: Como expliquei ao Pirata, foi o nome do vinho sobre o rosto da modelo que me chamou à atenção de tão insólito que me pareceu, quer o rótulo assim disposto, quer a "distração" do gráfico ou do criativo.
Sobre o racismo, também penso como tu; há que combatê-lo. Todavia, o teu comentário... não é fácil.
:-|
Vou (sub)ler melhor...
Vi. Fraco e 'lerdo' - veja antes o documentário do Joaquim Furtado acerca do mesmo assunto (que continua a ser contado a partir do 2 sendo que a sucessão dos números naturais começa em 1) às 3ªs feiras/22h00 na RTP2 (são 9 episódios e iniciou-se no dia 16 com testemunhos de participantes nos aconteciemntos do norte de Angola e uma mini-entrevista ao Holden 'Cia' Roberto)
Phwo, o meu pai foi um dos chefes da Pide. Tenho um romance autobiográfico por editar - ainda é cedo para a verdade ;) -, que a certa altura reza assim: "Por vezes fazia deslocações num jipe acompanhando de pides. Costumavam ir até umas sanzalas próximas onde obtinham todo o tipo de alimentos gratuitamente. Mal os negros os avistavam prontificavam-se, de forma azafamada, a apresentar o que tinham de melhor: cabritos, galinhas, frutas, hortaliças… Ofereciam tudo como se estivessem na presença de deuses, tal era o receio das represálias. Todos aqueles negros mantinham um sorriso entre os lábios, sabe deus com que dificuldade, enquanto eram saqueados civilizadamente.
No regresso a casa, quando avistavam uma negra à beira da estrada paravam o jipe e um ou outro elemento prestava-se ao amor que a negra tinha para lhe dar. Por mais do que uma vez, o pai de “Alex” pediu aos colegas que levassem a mulher até uma distância considerável, pois estava ali o filho.
Estes actos não eram apenas perpetrados pelos pides – com frequência militares e pides juntavam-se na paródia. Tudo isto, todos estes cenários colocaram a seguinte certeza na cabeça de Alex: “A mulata, essa obra-prima inventada pelos portugueses, foi fruto de uma violação. (Temos imenso com que nos orgulhar)
As agressões e humilhações a que os negros estavam sujeitos eram imensuráveis. Alex lembra-se, como se hoje fosse, de um espancamento em pleno prédio residencial. Tinha acompanhado a mãe numa visita a uma amiga. Ao subir as escadas do prédio começaram a ouvir-se gritos de profundo desespero. A certa altura sentiu na mãe o impasse, como se não soubesse que direcção tomar. No pátio de um apartamento dois militares fustigavam com cintos um negro nu, todo coberto de sangue, tal a violência dos golpes. A mãe de Alex gritou para que parassem, alegando tratar-se de um acto de covardia e desumanidade. Os militares mandaram-na calar e que seguisse o seu caminho, pois aquilo não tinha nada a ver com ela. O negro implorou: “Ajude patroa, me ajude por favor patroa!”; para pouco depois desfalecer pelo chão tingido de vermelho. Alex vê os olhos perderam a capacidade de ver devido às mãos da mãe no seu rosto. O seu coração batia descompassadamente. Batia o ritmo da incompreensão e do terror."
Que se passa Phwo? Censura, receio? De quê? A verdade é para ser dita, mostrada, explicitada.
Pirata: Infelizmente em Angola não vejo a RTP2 (apenas a RTPi), embora já outras pessoas se tenham referido a esse trabalho de Joaquim Furtado. Quanto ao tal programa... isso mesmo (e pior).
Elypse: Já há tempos expliquei a um leitor igualmente impaciente que o meu tempo não me permite estar de "serviço" no blog, ao qual me dedico com mais ou menos regularidade.
Para além disso, saber esperar é, de facto, uma grande virtude (para além de evitar as precipitações nem sempre elegantes e desabonatórias para quem as provoca).
Tem toda a razão quando diz que as verdades são para ser ditas. Aliás, se já teve tempo para dar uma vista de olhos pelo meu blog, deve ter reparado nisso mesmo.
Por outro lado, acho que nunca é cedo para a revelar.
Cada época, cada contexto, cada olhar origina diferentes opiniões, diferentes leituras, posições diversas, ou seja, verdades distintas. E nisso reside uma das fragilidades da História.
Todavia, certos temas devem ser abordados em foruns próprios para que haja a possibilidade de debate; e este não é o lugar ideal para manter uma discussão sobre o tema que propõe.
Este espaço, nas costas da "página principal", destina-se fundamentalmente a comentários e não à exposição de temas.
Apenas um comentário ao seu comentário, portanto: Na minha família mais do que uma pessoa conheceu a PIDE de perto, bem como grande parte dos amigos dos meus pais que nunca me deixaram viver em ambientes de "apartheid" no nosso próprio país - Angola.
Alguns morreram já; Outros contam e mostram as profundas marcas psicológicas e físicas.
O racismo, qualquer que seja a sua forma de manifestação, deve ser combatido.
Os olhares paternalistas sobre os factos, não possuem consistência para serem considerados nas análises que privilegiam o equilíbrio e tentam a isenção.
Quanto à "Porca de Murça" e ao "vinho [jovem rapaz]" atrevido, lá continuam "expostos", alheios às reacções, extensões e "delírios" (assumo a minha parte) provocados pela sua presença numa cidade permanentemente "embriagada" pela mais profunda das anarquias.
Quanto à ciência: a paciência ainda vai virar uma ciência :)
Quanto aos fóruns próprios - não existem. Se existissem haveria outro género de resultados que não este, é um facto.
Abomino (abominei) a "doutrina" que o meu pai seguiu - tive vários conflitos sobre o "ideal" que ele abraçou. Não se trata de paternalismo, mas apenas de uma realidade que constatei.
É pena que a tua cidade, Luanda?, continue embriagada, ainda por cima com a ajuda de um vinho com qualidade duvidosa ;)
Abraço
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