A menina dança? ou Les debutantes

"Las meninas" (D. Velasquez, 1656)
Viva o populismo que isso é que atrai votos e mantém os poleiros por muitos e muitos anos! O povo gosta (eles acham), o povo tem. O povo não sabe o que é "bom", dá-se-lhe a merda do costume e assim lá se vão mantendo distraídos sem agitar as águas (eles também acham). Na crista da onda... sempre os mesmos. Aqueles do tal sucesso que lhes aconteceu. (Coitados... eles até nem queriam...)
Mas é o que "xtá a bater", ou seja, o que está na moda.
... E as meninas bwé genuínas, felizes nas tradicionais festas de debutantes à europeia; braço dado com os papás que rebentam de gordura e transpiração no fato vindo de Paris ou Itália; na manga do casaco a etiqueta não se descose, para todos verem o poder do kumbú empresarial angolano.
E as meninas genuinamente bwé lá vão desfilando, com os seus penteados de extensões lisas e loiras (ornamentadas com folhinhas doiradas, pérolas falsas e brilhantes de plástico), caindo, longas, sobre os vestidos compridos de rendas e seda, sem esquecer as écharpes de voile a condizer.
Os fios de pescoço, as pulseiras, os brincos e os anéis nas mãos das mães são muitos e de ouro puro!
Um apresentador lê o texto encomendado: «Menina Bóguinhas, acompanhada de seu pai o empresário Bogão. Tem 17 anos de idade e pretende, no futuro, ser uma boa esposa e uma actriz famosa».
Não diferente do anterior e parecendo - à semelhança do que acontece com as "cartas de pedido" - ter como base um formulário comprado, lá vem outra "principiante": «Menina Cóquinhas, acompanhada se seu pai, o bancário Coquinzão. Tem 16 anos de idade e pretende, no futuro, ser uma estilista de renome internacional».
A estas seguem-se a terceira, a quarta, a quinta e todos os outros dias da semana, sem descanso ao Domingo, pois os adjectivos que se adiantam para futuros anunciados são inesgotáveis: célebres, de sucesso, brilhante, conhecida, rica, poderosa, prestigiosa, influente, (bem) afamada...
Depois, a festa. Pais e padrinhos arrastam pela sala as meninas vestidas de branco, rosa ou azul bebé: uma valsa vienense com voltinhas desajeitadas em quatro tempos (porra, que o ternário com acento no primeiro tempo é difícil!...) entre pisadelas e risos escancarados com "olhinhos de carneiro mal morto" para as revistas cor-de-rosa.
Ainda assim...: o meu pai tem mais dinheiro que o teu e vai pagar quatro páginas da revista. Só para eu aparecer, linda e esplendorosa.
E assim se exibem as mocinhas de família que, mais do que pretenderem ser profissionais competentes, anunciam o futuro de sucesso imediato que as fortunas dos papás lhes asseguram à partida.
Desliguei a televisão. Estou entre os milhares de angolanos que seguiram voluntariamente o espectacular "invento" social difundido para todo o país. Lindo!...





5 Comentários:
A expressão 'a mnina dança' tem uma graça indefinida, desfocada...
retoma e conota.
Lembra coisas e indicia.
É sofisticada na evocação maliciosa mas graciosa.
Está descontextualizada da Angola grosseira desses manos engravatados (a lembrar polícias portugas endomingados... o maldito paradigma!) que aí mandam e exploram e, soit disant, governam - fuja daí, amiga!
Ah...
já agora, ainda que tardio ao seu artigo, um reparo - alguem notou que esse 'debut' (apetece dizer 'debout'...!) são coisa do anterior colono?
(Ao menos 'esse' tinha tradição própria, embora não escapasse ao ridículo)
Meu caro Piratinha, só me apetece dizer: dahhhhhhh.
(Não leve a mal, pois estou a brincar consigo):-))
Pois claro que a piada está em se tratar de um "reskício" da anterior época.
Aqui também há tradições próprias, bastante sérias e importantes de serem seguidas. O problema é que para alguns elas não passam de decoração para conversas de circunstancia e demagogias políticas.
Viva a contradição entre "o que eu digo" e "o que eu faço"!
Um abraço!
adorei o tom...
passam isso como programa nacional??? essa foi a única parte que de facto me espantou... leiloaram as virgindades? olha, nada me espantaria... e tinham mensagens SMS a passar em rodapé para as ofertas??? sei lá, nunca se sabe...
Inominável: Ehehheh, achei piada a essa das SMSs. Não, não tinha, mas também não era mal pensado colocarem em rodapé o valor do dote (era maizoumenos a mesma coisa, mas não era bem). Digo eu!... LOLLL.
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