Segunda-feira, Julho 09, 2007

(m)ana joakina

Foto: Phwo
Que lindo!!! Nem se percebe porque diabo ela andará sempre a dizer mal da "banda", pensarão vocês...
É a tal coisa do "quem vê caras, não vê corações", digo eu...
Mas o que interessa aqui dizer é que um edifício do séc. XVII, que conseguiu resistir ao tempo, não foi capaz de resistir à violência da ignorância e da nossa prepotência.
Assim, há uns anos atrás foi demolido já com a intenção de se fazer uma réplica. E é isto que vêm na foto acima; a tal réplica que alegrou quase toda a gente já que o outro já estava podre!!!
Houve reclamações, xinguilamentos teatrais, manifestações de quem se sentiu chocado com a decisão. Mas aqui, quando "alguém" pensa, já é obra concluída. Não houve classe intelectual nem historiador que conseguisse fazer ouvir a sua voz de justiça em defesa do património luandense.

Pergunta 1: Para que serve esta cópia "barata" em betão, do vetusto edifício em pedra cujas fachadas (ao menos essas) poderiam ter sido aproveitadas? Se era para provocar, mais valia lá terem colocado um "vidrinhos fumados" (já agora!!!)
Pergunta 2: Como classificar esta porcaria em termos de património?
Pergunta 3: Já repararam no mau gosto e no ridículo daquele letreiro a dizer "Palácio Dona Ana Joaquina"? Para além de não ter conhecimento da prática de colocar letreiros de identificação nas frontarias dos edifícios históricos, este edifício nunca foi assim chamado, sendo conhecido como o Palácio de D. Ana Joaquina, por ser perteça desta senhora.

Este "palácio" já havia sido colégio. A minha mãe, que o frequentou, lembra-se de ver no chão do pátio as grades para os subterrâneos onde D. Ana Joaquina dos Santos e Silva, guardava os escravos, sua principal fonte de receita.
Depois da independência teve início o seu proceso de degradação até se transformar em covil de bandidos, prostitutas e todas as categorias de delinquência que se possam imaginar.
No início do séc. XXI foi assassinado.

Era este o triste aspecto, antes do crime, do "palácio", em tempos lugar de encontros e tertúlias, frequentado por governadores e por toda a burguesia africana e branca da época, gente do relacionamento desta senhora mestiça, riquíssima e grande traficante clandestina de escravos do séc. XIX.
(Diz-se que os seus navios aportavam em Portugal, Uruguai e Brasil.)

Foto: Aqui
Não estava tão mal assim. Mesmo que estivesse, deveria ter sido salvo!!!

10 Comentários:

Blogger -pirata-vermelho- disse...

Muito bem, mnina-phwo!
Belo comentário-mordidela nas canelas de quem a merece.

Oxalá mantenha bons dentes e a protejam a si, os que lhe são querentes...

09-07-2007 17:31  
Anonymous José A. Fortes disse...

Gostei de ler sobre o facto dos escravos também serem traficados e vendidos por africanos negros, neste caso, D. Ana Joaquina fazia comércio tendo como mercadoria os seus irmãos angolanos.
E parece que não era a única. Ginga Bandi fazia o mesmo, entre outras figuras da realeza angolana.

09-07-2007 20:27  
Anonymous Anónimo disse...

Mais um belissimo post, de uma coragem impar. Um abraço do tamanho do mundo.
Despacho do Director Geral:
Considerando o texto em causa, determino que o mesmo seja publicado no "angonoticias",vem como o comentàrio do sr. fortes. Mais determino que a "Phwo" seja aconselhada a ler na internet os comentário feitos no angon..., para se rir, pela escrita escorreita!!!!!! e para meditar
no racismo que por lá anda.
Cumpra-se.
Franco atirador

09-07-2007 23:46  
Blogger Phwo disse...

Pirata: Sobre os dentes... se a D. Ana Joaquina mos visse, comprava-me logo. LOL.

José Fortes: Por acaso não foi minha intenção destacar esse aspecto. Mas que a História tem omissões graves, é um facto.

Franco atirador: Acha que eu perco tempo com os comentários desse site?? Visitei-o as vezes suficientes para perceber a "encomenda" que é. Perigoso, mas sem credibilidade.
Agora, "francamente", acho o máximo esse seu lado de Director Geral "despachado"!!!
Não quer vir dar uma formaçãozita a Angola??? Eheheheheh. Estou certa de que não seria um "tiro" no escuro.
Um abraço.

10-07-2007 0:21  
Blogger inominável disse...

oi! um post a matar... ou a ressuscitar, se lermos do ponto de vista do edifício morto...

10-07-2007 12:10  
Anonymous Anónimo disse...

franco atirador diz: também eu às vezes me (des)organizo-me em palavras, por isso, agradeço que não publique as minhas referências pessoais do meu ultimo comentário sou demasiado conhecido por cá e na banda, foi o secretario do director geral que me avisou,e como o director Geral anda a dar umas porradas nos gajos... Já agora como está o edificio do Clube Ferroviario de Angola e o cinema Kipaka, que tal uma fotografiazinha? obrigado

10-07-2007 15:51  
Anonymous Corsário disse...

Parcialmente concordo consigo. É um facto que a manutenção de fachadas e interiores seculares é sempre preferível a qualquer remodelação estrutural.
No entanto, encaro como o recondicionamento estético dentro de uma projecção arquitectural e filosófica futurista do posicionamento de Angola em contraponto com o conservadorismo, e recalcamento de alguns conceitos que fizeram a história. ( Se fosse a ver pelo prisma da história da escravatura, por exemplo sendo católico, não entraria numa Igreja).
Estou inteiramente de acordo com a remodelação, está na realidade muito bonito e resumo à controversa questão da dinâmica que impôe os tempos modernos e o olhar frontal de Angola para o futuro com a estática do passado e presente.

10-07-2007 17:52  
Blogger Phwo disse...

Caro Franco atirador: Kipaka????? "Já era"! Também foi abatido e substituído por um monstrozinho onde funciona que é a sede da Angola Telecom. Quanto ao campo do Ferroviário, acho que ainda resiste. Não passo muito por lá, mas se passar...

10-07-2007 23:22  
Anonymous Anónimo disse...

Meu Deus.... que criminosos....
Por favor, quando for ao Bungo, em
frente à estação do C.Ferro, está ou estava a sede do C.Ferroviario, existia um ringue de patinagem. Do
fundo do coração lhe agradeço noticias; se ainda serve para desporto. A minha mulher até chorou
quando lhe contei, pois vimos lá belos filmes, moravamos perto.

10-07-2007 23:58  
Blogger Phwo disse...

Caro anónimo: Também eu fui muitas vezes lá, já depois da independência, nos anos 80 quando os cinemas ainda funcionavam todos e com bons filmes. Mas os anos 90 trouxeram outras "espertezas", entre as quais esta tentativa torpe de apagar a história colonial. Mas não é com acções assassinas que se apagam outras terrivelmente atrozes,
sem dúvida. Há sempre uma memória que resta e a cura não passa por fazer desaparecer os sinais.
No Brasil, todas as casas dos grandes barões do café estão conservadas. São para contar a histórias; também a história do grande sofrimento dos escravos.
Como disse, essa zona não faz parte dos meus trajectos habituais. Mas se lá passar, trarei notícias.

11-07-2007 12:32  

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