Quarta-feira, Abril 18, 2007

Maradona

Ele é assim, entre o ensino tradicional e a modernidade. Nasceu em Cabinda, viajou por África e viveu em Paris. Encontrei-o, na "Celamar", quando vi o anúncio do curso. Foi-me apresentado pela Marcela Costa, a dona desta galeria que gosto de frequentar, na Ilha de Luanda.

Mais tarde, ela explicou-lhe quem eu era, o que fazia.
Eu jogava muito futebol, por isso me deram este nome. Quando tiveres um projecto, chama-me. Vamos trabalhar juntos. Diz-me tudo isso com uma voz calma, em tom baixo, e um rosto meio triste com a desanimação de um artista cansado de lutar sem ser reconhecido. Move-se lentamente, o Maradona.

Logo no início da aula, 20 minutos seguidos de aquecimento - sem parar, sob o seu olhar atento e de repreensão à mínima falha - . Um ritmo monótono até (quase) à exaustão. Se as mãos doerem, não param. Ninguém atrasa. Se estragarem o ritmo, continuam até apanhar. Se estiverem cansadas, aguentam. É outro. Firme e determinado, sem se deixar comover com os esgares que deixamos escapar. Nem mesmo o cansaço nos pode fazer perder a pulsação.
Quando ele toca, tudo pára. Estão-me a olhar como se quisessem engolir o ritmo do meu batuque, ele diz. E é (quase) verdade!



Os ngoma(s) grandes, em posição oblíqua com a "cara" para a frente e amarrados (a preceito) à cintura, a passarem-nos entre os pés; pernas afastadas "como na tropa". Ele ensina, com orgulho e severidade, um grupo de jovens raparigas de um lar, que a Marcela acolheu no seu espaço; "- Coisa única em Angola, mulheres no batuque". Depois de perceber que eu também era "nacional", aceitou que em outras partes de Angola há mulheres que tocam tambor. Mas é verdade que em Luanda, isso não é hábito. Pois não.

Agora, ele tem mais dois alunos: eu e o meu sobrinho de 11 anos.
Hoje, pela primeira vez (em quase um mês de aulas diárias), fez-me um elogio (em tom indiferente) enquanto olhava, preocupado (eu percebi), para a palma da minha mão, onde uma veia "derramada", roxa e saliente, não deu para disfarçar a dor. Há uma coisa que tu tens de bom, tens ouvido. Para ti, é fácil apanhar um ritmo logo à primeira. Ainda que não consigas imediatamente uma boa execução, acrescentou rapidamente, como que “arrependido” por ter falado demais.

Quando me despedi, pediu-me para amanhã trazer uma pomada, para me fazer uma massagem na mão, prometendo-me que irei ficar boa (ainda faltam dois meses) e garantindo-me que no início é sempre assim.
Afinal, o nosso Mestre tem (bom) coração. Mas sabe que não pode “mostrar muito os dentes” (como às vezes dizemos aqui para indicar ‘sorrir’ ou ‘rir’), não vão os alunos exceder-se.
Gosto dele!

5 Comentários:

Anonymous Kátia cristina disse...

Gosto quando nos contas as coisas com o coração. É espontâneo. Conheço bem esse teu lado. Acho que te deve dar vontade de falar de alguém ou de alguma coisa e escreves. E de uma forma boa a que nos vais habituando.
(Vê lá agora se vem aquela coisa dizer que estás a profanar. LOLL. Tou a brincar).
Obrigada

19-04-2007 12:24  
Anonymous bruno disse...

A profanar e a "vulturar", vulgo, rapinar, roubar, encarnar, e qualquer outro ar que lhe deu!
Eheheheheh.
Kátia pára com isso, senão a nossa professorinha ainda nos mata.
Beijo grande Phwo. Não nos ligues.
Gostamos muito de ti.
;-)

19-04-2007 23:16  
Blogger Phwo disse...

Bem, meninos. Não se estarão a "exceder"?? :-]
Gosto muito de vos ver por aqui, mas comportadinhos, yá?
;-))
Beijinho.
... E esse, embora cómico, é assunto encerrado. Pode ser?

19-04-2007 23:26  
Blogger Cangonja disse...

Querida Phwo
De batuques sei pouco. Em casa, tenho uma miniatura de "djambé" onde, de vez em quando, tento "batucar", acompanhando uma qualquer keta... Fracas experiências. Achas que o Maradona me ensinaria, um dia?
Beijos

20-04-2007 10:53  
Anonymous m.silvera disse...

Cara Phwo,
Se me permite a "provocação", os jovens têm razão.
Mas a Phwo tem mais, não se deve falar mais disso.
Gosto de ver como a Phwo procura as ferramentas certas para o desenvolvimento e aprofundamento do seu trabalho artístico e de investigação.
Força!

20-04-2007 12:15  

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