Ensinar e aprender na cultura cokwe

Foto de José Redinha in Etnias e Culturas de Angola (1975)
Na minha curiosidade de pesquisadora, propus-me saber quais as técnicas e metodologias utilizadas na Mukanda para o ensino da dança.
Como em todos os trabalhos que envolvem acções de campo, acumulei uma série de informações paralelas, não menos preciosas e tão imprescindíveis como os dados concretos que procurava.
Assim, e porque este blog não se destina à apresentação de textos de fundo (por não ser o forum certo e porque poderiam tornar-se fastidiosos de tão extensos), hoje trago um breve apontamento sobre os diversos termos que aprendi para serem utilizados em contextos de ensino / aprendizagem. A essa diversidade contextual, correspondem termos específicos e distintos.
Por exemplo, aprendi que para a acção de ensinar podem ser utilizadas duas palavras diferentes, kulongesa e kuthangisa. Já para designar os professores, são utilizadas os seguintes substantivos: cikolokolo (ou cilombola), thangixi e longexi.
Para as situações particulares do ensino da dança – e a acção de dançar pode, por seu lado, ser distinguida pelos verbos kuhangana, kukina e kulyata – é utilizado o verbo kuthangisa, já que o professor de dança é o thangixi (este é, igualmente, o intérprete do ngoma ya xina, o principal tambor da orquestra de percussão).
Kuthangisa é, portanto, um termo exclusivo da Mukanda que se restringe à acção do thangixi.
A dança pode igualmente ser ensinada pelos yilombola (sing. cilombola), pelos Akixi (mascarados) ou por qualquer homem que visite a Mukanda, desde que seja ngalami (adulto / iniciado). Todavia, é o thangixi que preside às sessões principais e é ele que dá as miyanda (sing. mwanda) com o seu ngoma ya xina.
Ele é o professor de artes (dança e música) enquanto que os yilombola (ou yikolokolo), para além de cuidarem dos tundanji durante a sua reclusão, ensinam-lhes tudo o que precisam saber para merecerem o estatuto de ngalami. As miyanda são instruções codificadas (de acesso restrito) que determinam os passos e os movimentos que os tundanji (neófitos da Mukanda) e também os Akixi devem seguir durante as suas performances.
Neste contexto, a palavra kuthangisa encerra não apenas o significado de ensinar (a dança), mas de ensaiar, repetir, seguindo as ordens do tambor principal.
Fora do contexto da Mukanda, o thangixi é designado por mukwa ngoma ya xina (literalmente: o dono - o expert - do tambor maior) ou mukwa kwimba ngoma ya xina (literalmente: o tocador especialista do tambor maior).
Resumindo:
O thangixi, enquanto percussionista principal, dirige as danças (kanatangisa) através das miyanda, ou códigos falados, e de toques específicos (igualmente codificados) no ngoma ya xina. Desta forma, um diálogo é estabelecido entre ele e os alunos (que aprendem estes códigos previamente com os seus yikolokolo). Um sistema de comunicação idêntico é utilizado durante a actuação das máscaras de dança.
As palavras:
- Thangixi – Mestre de dança; tocador do ngoma principal (mukwa kuimba ngoma) e que dá ordens (miyanda) através do tambor; professor de música e de dança; ensaiador. É um termo utilizado apenas no contexto da Mukanda.
- Kuthangisa – Ensaiar em grupo. Ensinar; mandar com o batuque. Emitir mensagens codificadas através do tambor.
- Kulongesa - Ensinar
- Longexi – Professor ou mestre.
Mas...
O verbo Kuthangisa pode ainda significar “ler”, enquanto que o verbo Kuthanga significa criar (criação divina) ou gerar (filhos)…





12 Comentários:
Sempre a aprender.
Pena mesmo é que não seja uma lição diária.
Posso pedir à Diana que me mande umas fotos para fazer um album para o Fotos Dizem Tudo
Interessante!!
É mesmo sempre a aprender. E a propósito de ensinar... acho que o fazes bem.
Um post curto e cheio de informação. Como convém a um blog.
Obrigada, minha professora.
Bj.
Gostava de saber o valor fonético do "h" no meio da palavra. Será para marcar um som aspirado?
Obgd.
eu sou mesmo uma eurocêntrica do pior, ignorante e atávica: li todas as palavras novas com atenção e todas me parecem impossíveis de memorizar... não consigo repetir nenhuma :(
Ass: pecadora confessa
Desde há muito, penso que é importante dares a conhecer este tipo de ensino. Podendo parecer aos olhos ocidentais como uma forma de educação não-formal, é, no entanto, uma autêntica escola (educação formal), com as suas regras e conteúdos.
Obrigada por me ensinares mais um pouco.
Beijo
Obrigado pela "licao"...
Ha um tipo, de um Partido das Lundas, que eh o Kuhangana e percebo agora pq esta em "makas" internas...eh da danca das cadeiras...kuhangana.
Bjo
Mario
Caros amigos,
Obrigada pelos vossos comentários.
Professora Margarida, é uma honra tê-la por aqui. Sim, o "H" é sempre aspirado.
Neste post e também neste há alguma informação que pode ajudar na pronúncia das palavras em Ucokwe (língua cokwe)
Neste site, e precisamente nesta página há uma reprodução de todos os sons, com exemplos de palavras, nesta língua. Se quiserem dar uma olhada...
Pode ser que ajude (Inominável, LOLL)
Carranca, O'Sanji e Kátia, como amigos, estão sempre em casa.
Paterhu, essa da "dança das cadeiras",pois é!... ;-)
Em ucokwe seria wino wa citwamo
Um abraço para todos.
:-))
Cara Phwo,
Saído de uma "maka de sanzala" totalmente criada e auto-alimentada por alguém que, sei disso agora, distorce as informações apenas porque não suporta nem ser contrariada, nem não ser o centro de todas as atenções, venho aqui dizer-lhe que aprecio bastante a sua dignidade em não valorizar ditos e desditos alimentados por ódios urdidos por quem vive em grande mágoa com todos e com o mundo.
Depois de seguir todo o "romance" no qual, sem querer, me vi envolvido e do qual só me enteirei totalmente hoje, quero dizer-lhe que a Phwo (cujo trabalho sigo há bastante tempo e admiro) é, de facto, uma Senhora, em nada correspondendo ao que a pessoa em causa quer fazer passar.
A sua atitude na gestão deste episódio foi, desde o início, de uma superioridade louvável.
Depois de ser arrogantemente desafiada (como vi nos comentários hoje publicados no blogue da pessoa em questão) por alguém que desconhece, outra atitude não poderia ter senão a de mostrar o seu desagrado. Em dois "escritos" a Phwo resolveu o assunto e não mais voltou a ele, enquanto que aquela que a desafiou e insultou por mais de uma vez, está agora num processo desesperado de "reconstituição do crime", prova de insegurança e tentativa de se auto-convencer de uma razão que não lhe pode ser dada. Contra ela, falam os próprios textos, em linguagem agressiva e incorrecta, maldosos e plenos de calúnias (há dias que venho lendo atentamente os textos do seu blogue e em nenhum há indícios de "arrogância", "racismo", "falta de cultura", etc.) contra a sua pessoa. Mas isso é natural acontecer, quando se trata de alguém cujo trabalho é visível e reconhecido.
Quero que saiba que em mim, nada mudou em relação à admiração que tenho por si. Confesso até que, o seu procedimento foi bastante nobre o que aumentou a minha consideração por si.
Continue em frente, pois o seu trabalho é sério e ultrapassa o âmbito de um blogue.
Continue a falar-nos do que sabe e a mostrar-nos a sua simplicidade sem pretensões.
E quer queiram quer não, os aplausos, se tiverem que ser, serão; espontâneos.
Desculpe-me o desabafo, mas tinha que informá-la da minha indignação.
Um abraço.
Caro Silvera,
De facto, para mim, esse é assunto encerrado, pois nunca foi, pela forma como teve início, um desafio interessante, como podería ter sido.
Muito obrigada pela sua visita e pela gentileza das suas palavras.
fui mesmo ver o link que indicavas e as minhas competências linguísticas, digamo-lo eufemisticamente, não melhoraram lá muito ;)
fiquei curiosa com o que escreveu o Silvera e a tua resposta quase emotiva e fui espreitar... aquilo como o que vi por aqui pareceu-me, desde o início, um sentimento mau, entre inveja e total desconsideração... a atitude certa nestes casos, como diz a minha mãe, é o desprezo... eu diria que alguém anda à procura de protagonismo e, à falta de melhor, conglomera disparates no seu e em blogues alheios... para muitas pessoas, o ataque é a melhor defesa (mas aposto que sabes disso)...
e olha, uma das coisas que te apontaram naquele espaço virtual, foi o criticares o sistema em que te integras... é o que mais gosto! mal de quem não vê os apodrecimentos à volta e apanha do chão a fruta cuspida...
e também já levei por tabela... sem saber porquê... não sabia que fazia parte de um guetto... espero um dia vir a saber porquê... enfim...
Ó Inominável!... ;-)
Vai insistindo; pode ser que venhas, quiçá, a dominar a fonética cokwe.
Quanto ao resto... não passa disso mesmo; resto.
Sobre a crítica, quem me conhece e conhece o meu trabalho, sabe bem que este espírito não é de agora.
Sempre tive esta postura. Não sigo modas, não me vergo perante a injustiça, não alinho em rebanhos.
Enquanto coreógrafa, uma das minhas opções criativas é, justamente, a crítica social, como o assumi, em "Imagem & Movimento"; "Palmas, por favor!"; "Agora não dá... 'Tou a bumbar"; "Neste País"; "Os quadros do verso vetusto", entre outros trabalhos coreográficos, em que a sociedade angolana é dissecada e os "males" apontados a dedo e ridicularizados à exaustão. E nisso, não sou nada branda.
(Estou agora a trabalhar na minha próxima criação e não serei diferente)
Defendo a ideia de que a dança de autor não se esgota na sua vertente recreativa, podendo ser utilizada como arma de intervenção.
E foi essa a opção que adoptei.
Um abraço.
PS: Não foste só tu que levaste por tabela. Para além "daqueles comentários", recebi, da mesma pessoa (que também não os publicou), outros bastante indecentes contra amigos meus, dos quais aqui falo e dos quais tenho publicado textos. Enfim... (mesmo).
Vamos, como diz (e muito acertadamente) a tua mãe, com a qual concordo em absoluto, ignorar.
Enviar um comentário
Hiperligações para esta mensagem:
Criar uma hiperligação
<< Página inicial