Abaixo o progresso com (telhas de) vidro!

Foto de telemóvel com o qual tentei apanhar um urinol público (letras a branco na parede verde) onde flutuava, entre outras duas, a bandeira nacional de Angola. O placard é uma publicidade a cigarros (!!!); Malrboro.
Luanda, hoje (2007).
Podia ser uma ficção, mas infelizmente não o é.
Saio à rua. À porta de minha casa, um mercado de fruta e peixe; junto ao muro lateral, uma oficina de motorizadas improvisada diariamente e escondida por um camião, há que tempos, moribundo. A polícia não liga. É normal…
Saio à rua. À porta de minha casa, um mercado de fruta e peixe; junto ao muro lateral, uma oficina de motorizadas improvisada diariamente e escondida por um camião, há que tempos, moribundo. A polícia não liga. É normal…
Decido, enquanto parada no trânsito infernal, reparar na apressada (e desenfreada) construção civil. Prédios e mais prédios, enormes, nascem como cogumelos (desculpem o lugar-comum) por toda a parte, desrespeitando quer as normas obrigatórias de segurança, quer a traça e o conjunto arquitectónico dos bairros onde são edificados.
Chego ao local do primeiro grande crime: a Mutamba. O belo edifício da Fazenda é agora um micro-ondas gigante, com as amplas varandas fechadas por enormes paredes de vidro fumado, num desrespeito total à autoria do arquitecto Vieira da Costa (alteração da forma).
Depois... a baixa; a velha baixa luandense onde o atentado contra o património físico (classificado e protegido pela lei) foi, pomposamente, inaugurado pelo derrube da farmácia D'Antas Valladas (onde se ergue, arrogante, a nova sede da Sonangol, com dezenas de andares). São já mais de cinco as torres com vidros que tanto orgulham os defensores do progresso e da modernização do país. [A que preço? (Gargalhada!)]
Depois... a baixa; a velha baixa luandense onde o atentado contra o património físico (classificado e protegido pela lei) foi, pomposamente, inaugurado pelo derrube da farmácia D'Antas Valladas (onde se ergue, arrogante, a nova sede da Sonangol, com dezenas de andares). São já mais de cinco as torres com vidros que tanto orgulham os defensores do progresso e da modernização do país. [A que preço? (Gargalhada!)]
Enquanto se fortalece o discurso cultural sobre a autenticidade e a tradição, com o qual se entretêm jornalistas, políticos e cidadãos comuns, dá-se (entre outras práticas importadas e mal digeridas) aos prédios nomes menos “nacionais”: Tour Elysée, Edifício Vernon, Edifício Modus Vivendis, América Plaza, entre outros, cujas designações uma nova gargalhada substituiu agora mesmo.
E “o povo”? O povo, esse, deve orgulhar-se da "nova cara da cidade de Luanda", enquanto ainda vai tendo o direito de pensar em bairros com casas dignas, escolas para os meninos, hospitais, jardins, lojas e todos os postos de trabalho que poderiam ser criados em bairros diferentes dos condomínios de luxo com piscinas, ginásios, saunas e seguranças para guardarem a vergonha que os muito-ricos não têm.
Bairros que substituam as crateras de água putrefacta e lama onde kandongueiros, camiões, cães, viaturas ligeiras, jipes e pessoas - todos em iguais condições de precariedade - se cruzam diariamente (num "subúrbio" que transborda já para o "asfalto"), apressando-se, em vão, para chegar a tempo aos empregos e às escolas.
Que fique bem claro que sou contra o progresso, se este for construir, a alta velocidade, edifícios de vidro, com climatização artificial, verdadeiros fornos, gastadores de energia num país onde as fontes renováveis e alternativas são mais que muitas.
Sou contra o progresso, se este for equivalente a futilidades (e tudo o que isso implica e tem implicado) do tipo: “o meu Hammer é mais potente que o teu [onde é que já vão os Mercedes, benz(a-os) Deus!...]” ou, “eu vou este fim de semana fazer compras a Paris, queres vir?”, ou ainda, “daqui a três meses casa-se a minha filha kasule, vou encomendar tudo no Brasil”.
Bairros que substituam as crateras de água putrefacta e lama onde kandongueiros, camiões, cães, viaturas ligeiras, jipes e pessoas - todos em iguais condições de precariedade - se cruzam diariamente (num "subúrbio" que transborda já para o "asfalto"), apressando-se, em vão, para chegar a tempo aos empregos e às escolas.
Que fique bem claro que sou contra o progresso, se este for construir, a alta velocidade, edifícios de vidro, com climatização artificial, verdadeiros fornos, gastadores de energia num país onde as fontes renováveis e alternativas são mais que muitas.
Sou contra o progresso, se este for equivalente a futilidades (e tudo o que isso implica e tem implicado) do tipo: “o meu Hammer é mais potente que o teu [onde é que já vão os Mercedes, benz(a-os) Deus!...]” ou, “eu vou este fim de semana fazer compras a Paris, queres vir?”, ou ainda, “daqui a três meses casa-se a minha filha kasule, vou encomendar tudo no Brasil”.
Nesta foto, mais recente, pode ler-se melhor (acho que falta o acento no "U" de público), mas as bandeiras, já esfarrapadas, transformaram-se, entretanto, em trapos.






9 Comentários:
Mesmo que virasse a cara... entrava-lhe tudo pelos olhos dentro, vindo de todos os lados.
Pisgue-se enquanto tem tempo.
Isso, aí, como isto, aqui, só mudará depois de uma profunda e imprevisível 'reviravolta'; entretanto, piora!
Belo texto! Sem dúvida uma expressão sentida de quem está atenta ao dia-a-dia da capital angolana.
O que posso dizer? Coragem? Acho que só se for para continuar a escrever textos assim. De contrário, as pessoas com esta lucidez sabem bem defender-se.
Um abraço
Victor Lemos
Muito piores são as "merdas" que não se vêem...
Têm esses prédios enormes estacionamento para meter todos os Hummers dos que lá moram ou trabalham?
For reforçada a rede de esgotos para receber toda a "produção" que de lá vai sair?
E haverá água para os abastecer ou continuarão a depender dos camiões-tanques?
Essa do "Pisgue-se enquanto tem tempo." é que me deu gaça! Como quem muda de par de sapatos! «Ó Maria!, traz aí as botas de montanha qu'isto só muda com um terramoto!»
Mas o caso é muito pior: a marginal da baía de Luanda vai ser completamente engolida e descaracterizada pela nova mega-marginal programada para ir da Petrangol até ao embarcadouro do Mussulo.
Só me admira como é que ainda ninguém se lembrou de mudar de lugar a fortaleza de Luanda. Talvez ali fosse um óptimo lugar para um mastodonte de 250 andares e para antenas repetidoras de telecomunicações. Pelo menos as antenas já lá estão!!!
eles (os tais dos Hammers e das compras em Paris) pensam que a situação de aproveitamento e incopetencia vai durar para sempre, e mesmo que nao seja na epoca da minha geração (que tambem já não acredito), chegara o momento em que a queda sera inevitavel.
tudo tem um fim, perguntem ao R. Mugabe como se sente hoje? o dele já pisca-lhe, acredito eu!
De facto nao podemos olhar, olhar diariamente e nao ver.
Nao podemos deixar de ver.
Eh como a mentira tantas vezes repetida e que se torna verdade.
Nao!
Ha que denunciar, de todas as formas.
Mario Tendinha
excelente post, e pelo que percorri de fugida, excelente blog.
vou ler tudo! tudo!
assim de repente, o prédio da Fazenda faz-me lembrar os engraxadores que havia por debaixo das arcadas.
um abraço!
O pior pesadelo, advém de haver um nível cultural zero, para as energias alternativas e para a informação sobre alterações climáticas.
Os angolanos, não vivem em Marte e, dentro de pouco tempo terão que arrepiar caminho, quer queiram ou não. No entretanto, é preciso estar contra.
Impressiona-me também a substituição de um determinado tipo de arquitectura, por outra coisa ( séc. XXI, dirão), que não é nada. Mas, dou de barato o facto de ser em Luanda. É igual por todo o lado, com raras excepções.
Em Lisboa, a baixa pombalina e a Av. da República, já só existem nas memórias.E em muitas outras cidades europeias e americanas é assim.
Qualquer downtown que se preze é um amontoado de caixotes com vidros.
É, óbviamente a manifestação da enorme incultura de muitos povos. O de Angola é só mais um, engolido na voracidade de um globalismo supercapitalista.
Um dia, muito próximo, começaremos todos a pagar a factura.
Um abraço
GED
Claro! Olhar acostumado a reparar em tudo o que a alguns mortais passa despercebido... apesar de tão flagrante!
Beijo
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