Quinta-feira, Abril 05, 2007

Paula Tavares e a máscara Phwo


Debaixo da árvore da febre
perdi a máscara Pwo
as pulseiras pesadas
da família

Perdi a máscara Pwo
segui as marcas de sangue
até à árvore da febre

Vesti o pano antigo de noivar
os colares de missangas
e fiz de novo as tranças.

Preparada para o tempo
caminhei sobre as marcas de sangue
deitei-me
debaixo da árvore da febre

Perdi a máscara Pwo
as pulseiras de protecção
os óleos do início
os frascos dos remédios

Perdi as palavras
as dos poemas
e do silêncio

Caminhei sem canto
sem as bolas de cera virgem
o mel do princípio
a cabaça de leite azedo

Caminhei sobre o rasto das marcas de sangue
para junto da árvore da febre

Caminhei pela areia
seguindo o rasto de sangue
sem precaução.

Deitei-me debaixo da árvore da febre
sem precaução
vi a minha pele velha
rasgar-se ao sol
debaixo da árvore da febre
Vi o meu pano do nascimento desfazer-se
debaixo da árvore da febre

Como uma velha leoa
fiquei só
debaixo da árvore da febre
sem os óleos de protecção
as palavras
o silêncio
os cantos de atravessar desertos e medos

Fiquei só
debaixo da árvore da febre

Segui o rasto
as pegadas
as marcas das minhas feridas
e fiquei só
debaixo da árvore da febre

A mulher trouxe a pemba
traçou a minha testa e
as mãos
O velho soldado
entrançou-me as pernas de histórias e confusão

Debaixo da árvore da febre
eu não disse nada

Debaixo da árvore da febre
ardo devagarinho
sem as palavras
o silêncio
os óleos de protecção
os cantos de atravessar desertos
o fogo sagrado dos antepassados.

Viram a minha máscara Pwo?

Ana Paula Tavares, in Manual para Amantes Desesperados
Nota: A Paula Tavares é a única poetisa (no feminino, portanto) contemporânea (do pós-independência) angolana.
E é única, porque conhece as palavras que escolhe cuidadosamente, recriando-as nos seus multiplos sentidos e formas; é única, porque o seu texto é profundo e pleno; única, porque suplanta o óbvio com a nobreza das imagens; porque é poetisa e não se limita a "poetar".
Ela é mesmo a única. Para mim (se mo permitem). Porque nos seus textos resta sempre uma mensagem por revelar.
Amanhã, dia 6 de Abril, pelas 18.30 nas instalações do Museu de História Natural, a Paula vai apresentar este seu último livro aqui, em Luanda.
Estão convidados!

9 Comentários:

Blogger O'Sanji disse...

Querida Phwo
Com o Manual para Amantes Desesperados lido, relido e des-construído por mais que uma vez... só me resta dizer que também para mim a Paula Tavares, que tive o privilégio de poder conhecer aquando da defesa da tua tese, é um nome grande das letras angolanas. Diria mais, das letras lusófonas. E, apesar do lugar de destaque que ocupa na literatura angolana, não deixa de ser uma pessoa simples, simpática e calorosa nos seus afectos.
Dá-lhe um abraço por mim, que tenho pena de não poder estar presente.
Beijos

05-04-2007 0:20  
Blogger gaviao disse...

Infelizmente conheci-a agora.
Longe, nem sempre estamos atentos a tudo o que se passa.
Depois de ler por várias vezes o seu Manual, rendo-me.
Procurarei pôr-me em dia.
Um abraço
GED

05-04-2007 11:34  
Blogger O'Sanji disse...

Esqueci-me de dizer que Os olhos do homem que chorava no rio, da autoria da Paula Tavares e do Manuel Jorge Marmelo, não sendo formalmente poseia, é-o no conteúdo que não canso de ler. Como diz Paulinho Assunção, "É um livro-música-de-câmara. E traz com ela a poesia abraçada com a prosa".
Beijos

05-04-2007 15:08  
Anonymous Anónimo disse...

Coitada da Paula Tavares… está mesmo definitivamente entregue á bicharada!
Ela que não se ponha a pau com o ditado “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, não... Se uma poeta do calibre dela está agora dependente de aprendizas de feiticeira que num passo de dança macabra a transformam em “poetisa” do mesmo nível das suas avôs, em vez de de críticos literários de reputação incontestável, então talvez se deva concluir que ela é mesmo “a única” e que a literatura angolana está mesmo em vias de extinção! Mas, felizmente, não está… apesar dela e da sua doentia entourage de mulherzinhas cuja melhor classificação é “sycophantic ignorants”!
Tem graça que ouvi há dias na TSF uma entrevista do Ruy Duarte de Carvalho, uma das poucas pessoas verdadeiramente cultas da autoconvencida ‘intelligentzia’ angolana cada vez menos culta e sem quaisquer possibilidades de alguma vez ser considerada inteligente no mundo global, com ou sem as “suas máscaras da Phwo”, em que ele dizia que, por respeito aos membros desses grupos e às suas culturas jamais, como antropólogo ou poeta, revelaria práticas ou segredos por ele presenciados durante o seu relacionamento com os grupos étnicos com que tem tido contacto ao longo dos anos… presumívelmente, isso incluiria qualquer coisa que tivesse visto por baixo de quaisquer panos… Mas ele é não só uma pessoa adulta, íntegra e responsável, mas também e acima de tudo POETA e ANTROPÓLOGO!
Só espero que a Paula um dia consiga explicar quando e onde, ou em que “ritos de passagem”, adquiriu a “sua” máscara da Pwo, ou quem foi que lha “concedeu”…
Quanto a ti miúda… cada vez te revelas melhor como uma completa atrasada mental! Será que a “tua” máscara da Phwo te impede de te enxergares na tua verdadeira patética dimensão?

05-04-2007 19:50  
Anonymous Lúcia matos disse...

Também sou de opinião que a Paula Tavares é a única poetisa angolana com características de verdadeira escritora. Depois da nossa Alda Lara, claro! A sua poesia é sólida e profunda. As imagens são, de facto, belas e marcantes. Para além de poesia, ela tem publicadas crónicas e obras produto do seu trabalho enquanto investigadora.
Curiosamente, tal como a Phwo, a Ana Paula Tavares tem uma preferência especial pela cultura do Nordeste e Leste de Angola - Tchokwe, Lunda, Dembos...
Bem hajam!

05-04-2007 22:56  
Blogger Phwo disse...

Caro anónimo (quinta-feira, Abril 05, 2007 7:50:00 PM), AKA Vulto:

Tenho, até agora, tentado gerir as suas investidas ao meu blog com alguma tolerância, optando por não publicar os seus insistentes comentários de extrema agressividade e grosseria, apesar de não nos conhecermos.
No entanto, hoje excedeu-se; e porque o inexplicável e súbito rancor que me vem devotando se transformou em obsessão doentia e inesgotável, resolvi deixar de preservar a sua “identidade”, embora seja minha conterrânea. Declaro aqui ter a certeza de que se trata de Ana Paula Santana, animadora de um blog intitulado Koluki, o qual visitei as vezes suficientes para perceber quais as suas verdadeiras inquietações.
Só lamento que não faça do retrato da intelectual angolana, com que recebe os seus leitores, a sua conduta permanente, parecendo-me absolutamente insólitas as atitudes e a linguagem insultuosa que aqui vem utilizando.
Mas é bem verdade que, mesmo sem máscara, a “arte” de representar acontece.
Agradeço-lhe que não volte.

06-04-2007 1:02  
Blogger Nelsinho disse...

Adorei o poema e espero que o livro seja publicado em Pt...

Um beijo

Nelsinho

06-04-2007 22:57  
Anonymous Margarida Fortes disse...

Mas que disparate, essa história dos relatos "proibidos"! Variadíssimos são os livros e os documentários que se referem a rituais, a práticas religiosas, e outros acontecimentos sociais, relatando-os. E nem me estou a referir à antropologia antiga ou colonial. Falo de autores recentes e conceituados.
Os estudos académicos são feitos, em muitíssimas áreas, assuntos e temas, ficando à dispoisição do público nas Bibliotecas, ainda que não sejam publicados. E possuem anexos com imagens, entrevistas, testemunhos, etc.
Esta senhora deve ter algum problema que a rói, que a torna cega e, por consequência, disparatada.
Quanto à Paula Tavares, procurarei este livro dela aqui em Lisboa. Sou mais uma admiradora desta escritora angolana.

06-04-2007 23:13  
Anonymous Carlos Fonseca disse...

Se é denúncia, deve vir na primeira página, pois não existe classificação para actos de tamanha covardia.
A vergonha da «prevaricadora» deve ser a maior punição.
Saudações!
Carlos

07-04-2007 11:48  

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