Domingo, Março 18, 2007

O Anarco-defecalismo

Gosto de ler o Agualusa. Nas crónicas, gosto do humor corrosivo, da ironia, do sentido de oportunidade. Gosto dele porque não deixa a faca perder o fio.
Engraçado... Há dias, escrevia eu por aqui mesmo: "Yá, é que aqui [em Angola] as pessoas são livres de, em qualquer espaço público ao ar livre, desanuviarem as entranhas."
Hoje, li este texto dele no semanário angolano "A Capital". Que coincidência!
Como eu, ele está sempre atento; a "única" diferença é que este meu amigo ESCREVE e eu... apenas penso em "voz escrita".


Foto tirada numa praia em Luanda

BREVE INTRODUÇÃO AO ANARCO-DEFECALISMO
Por: José Eduardo Agualusa

Visitei recentemente a província de Benguela na companhia de um jovem dinamarquês, Christian (vou chamá-lo assim) representante de um conhecido movimento ecologista europeu.


Enquanto atravessávamos a custo as ruas lamacentas, passando por bairros abandonados, respeitáveis casarões em ruínas, bandos de mendigos em andrajos, o jovem dinamarquês não conseguia ocultar a indignação. A extrema miséria da população, num país produtor de petróleo e diamantes, horrorizava-o. Em determinada altura, ao passarmos defronte ao Cemitério da Catumbela, demos com um grupo de cinco ou seis pessoas agachadas de encontro ao muro.

Envergonhado, tentei distraí-lo, chamando-lhe a atenção para uma rixa que ocorria do outro lado. Não consegui.
– Aquelas pessoas estão...
Achei que era demais. O meu brio nacionalista veio ao de cima:
– Não, não! – Retorqui. – Aquilo não é o que parece. Trata-se na verdade de uma acção política.
– Acção política?
– Exactamente. Aquelas pessoas fazem parte de um movimento anarquista radical. Chamam-se a si mesmo anarco-defecalistas. Reúnem-se todos os dias, a determinadas horas, junto de instituições ligadas ao poder político ou religioso, para expressar a sua rejeição. Expressam-na desta forma.

Christian voltou-se para mim, maravilhado:
– Fantástico! Brilhante! Caramba, uma acção como essa está a anos luz do que nós fazemos lá na Europa. Ocupar casas velhas, pintar paredes, incendiar carros, acções assim parecem-me agora falhas de imaginação, até infantis, uma coisa de meninos de coro. E como reage o poder? Os manifestantes são presos?

Disse-lhe que na nossa democracia avançada, tão avançada que, inclusive, prescinde da farsa burguesa das eleições, não existem – não podem existir – constrangimentos à liberdade de expressão. As pessoas são livres de defecar onde bem quiserem. E fazem-no, na verdade, com extraordinária competência e determinação. Christian abanou a cabeça, incrédulo. Viera a Angola na disposição de formar combatentes contra a globalização e o imperialismo, contra o capitalismo e o consumismo, e descobria que era ele, afinal, quem precisava de receber lições.

Perguntou-me se poderia formar uma secção do movimento anarco-defecalista na Dinamarca. Disse-lhe que sim, é claro, disse-lhe que os camaradas angolanos teriam certamente muito gosto em lhe ministrar um curso intensivo sobre os princípios e as técnicas do movimento. Abraçou-me, entusiasmado, agradecido, quase em lágrimas. Felizmente adoeceu nessa mesma tarde, com uma violenta crise de malária, e no dia seguinte seguiu para Luanda. Creio que já terá regressado, entretanto, ao seu país.


2 Comentários:

Blogger inominável disse...

olha, depois de ler a placa, achei que nada poderia ser mais engraçado... estava quase a desistir de ler o texto, mas... rendi-me...

19-03-2007 17:05  
Blogger alice disse...

um dos mais interessantes posts que li nos últimos tempos. obrigada

29-03-2007 14:50  

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