Quinta-feira, Março 08, 2007

Angola. África. Dança Contemporânea.

É fácil, nos dias que correm, falar-se em Angola, em dança contemporânea e em profissionais de dança. Se, por um lado, podemos interpretar este dado pela positiva – “fala-se sobre, porque já se teve contacto com” – por outro, é infelizmente a evidência da falta de uma consciência e de um conhecimento profundo do que significa e quais são os fundamentos destes elementos que integram a chamada dança teatral.

A comprová-lo está a contaminação do já debilitado panorama da dança cénica em Angola, por uma sem número de manifestações e atitudes que, apesar de se insinuarem como tal - na tentativa de convencerem um público menos conhecedor desta nova corrente -, não possuem as características que lhes permitam integrar-se técnica, metodológica e esteticamente nas categorias em questão.

Falar da história da dança contemporânea obriga um recuo aos anos 70, ao coreógrafo americano Merce Cunningham e mesmo às manifestações performativas surgidas em meados do século XX.

Em África é incontornável o nome da franco-senegalesa Germaine Acogny, a primeira coreógrafa africana a defender uma formação em dança e a propôr que a dança africana ultrapassasse os moldes do tradicional para, em paralelo, acompanhar as correntes universais. Numa iniciativa conjunta com o coreógrafo belga Maurice Béjart, e sob os auspícios de Léopold Senghor, é criada em Dakar (1977) a “Moudra Afrique”, talvez a primeira escola de dança moderna no continente (exceptua-se a África do Sul e Angola) a qual, apesar da sua curta duração, alertou para a importância de uma abertura no plano da dança em África.

Mas o que é a dança contemporânea, afinal?


CDC Angola. Fotografia sobre tela pintada. Rui Tavares.

Vivemos num tempo em que a articulação da tradição (que não é uma exclusividade africana) com a actualidade é possível, em que as fronteiras territoriais e as linguagens se interceptam, em que a circulação e a comunicação acontecem a velocidades alucinantes.

De forma muito abreviada, podemos dizer que a dança contemporânea é uma corrente cujas origens se situam na segunda metade do séc. XX, e que parte das transformações formais e teóricas do Pós-Modernismo norte-americano e das inovações da chamada Nova Dança Europeia. Distanciando-se das gerações e dos géneros anteriores – clássico e moderno – , esta forma de dança não se encerra em métodos cristalizados ou técnicas sistematizadas e constitui uma forma mais abrangente e ecléctica, revelando-se mais permissiva e aberta ao diálogo.

Mais atenta à improvisação e à informalidade, esta corrente procura processos de construção distintos dos habituais. Temáticas ligadas às vivências, posturas e visões pessoais do coreógrafo e dos bailarinos, são normalmente preferidas nos processos de criação liderados pelo questionamento e pela experimentação. Outros elementos de confluência são a diversidade técnica e a interdisciplinaridade.

Ref.as: G-Marques, A.C. & Tavares, R. (2003). A Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Lisboa: Mukixe.

11 Comentários:

Blogger JotaCê Carranca disse...

Um grande abraço e muitas felicidades

08-03-2007 20:04  
Blogger daniel sant'iago disse...

O que eu aprendo contigo...
Beijo.

09-03-2007 19:06  
Blogger gaviao disse...

Phwo
É relativamente fácil, separar o trigo do joio. Apesar de tudo, aquilo que é bom e honesto, consegue ver-se.
Já várias vezes tenho entrado no site da companhia de dança contemporanea de Angola.
Infelizmente, diz muito pouco. Há mais algum site para consultar?
Um abraço
GED

10-03-2007 0:00  
Blogger Phwo disse...

Obrigada Carranca e Daniel.
Gavião: Há um livro ("A Companhia de Dança Contemporânea de Angola") que publiquei em conjunto com o meu amigo fotógrafo Rui Tavares e que foi apresentado, há algum tempo pela Paula Tavares na RDP África. Está à venda aqui em Angola e em Lisboa foi retirado para se mudar de distribuidora, mas será reposto em breve. Existe também um DVD ("Outras Frases") que está à venda na FNAC. Ambos falam da Companhia e do trabalho pioneiro que tem desenvolvido em Angola.
O livro foi também apresentado no Porto (na cooperativa artística Árvore, pelo Luandino Vieira) e em Coimbra (pelo também escritor angolano da minha geração Carlos Ferreira).
Aqui no meu blog, na coluna da direita, dá uma olhada onde diz: Livraria Mukixe Produções.
Um abraço.

10-03-2007 13:12  
Blogger inominável disse...

um post bastante didáctico... foi por te sentires narcisista? a pergunta é mesmo provocação... inspirada num artigo que dizia que os bloguers são narcisistas!!! ando a promover este debate no meu blogue... por narcisismo, talvez! sei lá! já não sei!

11-03-2007 21:04  
Blogger Phwo disse...

Olá Inominável.Gostei da provocação!
Assumida educada e não ofensiva.
A resposta à tua pergunta é: «Não, visto não estar a praticar o culto da minha própria pessoa. Digamos que... foi por me sentir "altruista". LOLLL.
Mais logo chegarei ao "ponto" de encontro, ou seja, de me "saturar" no teu blog.
;-)
Abraço.

12-03-2007 19:57  
Anonymous Rui Tavares disse...

Olá...
Já vi que continuas com a tua mania de pôr fotos cheias de rabiscos...
Danka.
Só para dizer que passei por aqui.
Beijinhos, abraços e,claro,essas coisas...

27-03-2007 23:17  
Blogger Phwo disse...

Olá... (Rui)
Pois é. Quem te manda ser o melhor fotógrafo de Angola e arredores?
Beijinhos... claro.
;-)

28-03-2007 13:42  
Blogger Phwo disse...

... e obrigada pela visita. (Rui)
LOLLL

28-03-2007 13:42  
Anonymous ana carolina wenceslau disse...

Olá!
Sou bailarina e pesquisadora em dança no Brasil e gostaria de indicações como sugerido no seu blog de Grupos e/ou Companhias de Dança Profissionais na Africa do Sul e/ou outros países da Africa. Grata. Ana (wenceslauana@yahoo.com)

17-05-2007 15:56  
Blogger Phwo disse...

Carolina,
Aqui tens alguns dados que te podem interessar.
Abraço.

CONTEMPORÂNEO AFRICANO (região Sub-sahariana)

- Germaine Acogny (Franco-senegalesa) – Projecto Mudra Afrique (1977 em Dakar) com o coreógrafo e bailarino belga Maurice Béjart.
É a primeira coreógrafa africana a defender uma formação em dança e a propor uma abertura para a dança africana para outras correntes. Este projecto foi apoiado por Leopold Senghor.

- Alphonse Tiérou (Cote d’Ivoire França) – Criador o projecto “Por uma dança contemporânea africana” (1995).

Coreógrafos e Companhias:
- Sylvia Glasser: Companhia “Mouving into Dance”, 1978 (Africado Sul)
- Koffi Kôkô: “Compagnie Koffi Kôkô”, anos 80 (França / Bénin)
- Irène Tassembedo: Companhia “Èbène”, 1988 (França / Bourkina Faso)
- Ana Clara G. Marques: “Companhia de Dança Contemporânea de Angola”, 1991 (Angola)
- Zab Maboungou: Companhia de dança “Nyata Nyata”, 1993 (Canadá)
- Vincent Mantsoe, 1995 (África do Sul)
- Salya Sanou e Seydu Boro: ”Compagnie Cie Salya ni Seydou”, 1996 ( ?) (Bourkina Faso)
- Projecto colectivo: Companhia de dança ”Gaara”, 1996 (Kénya)
- Projecto colectivo: Companhia de Dança Tche Tche, 1997 (Côte d’Ivoire)
- Mano Preto : “Companhia de Dança Contemporânea Raiz di Polon”, 1997 (Cabo Verde)
- Sylvain Zabli : “Compagnie Sylvain Zabli”, 1998 (Côte d’Ivoire)
- David Abílio Mondlane: Companhia Nacional de Canto e Dança, 2000 (Moçambique)

22-05-2007 18:30  

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