Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

“Vulto said...”

"Já que comecei… só mais 2 ou 3 coisinhas, para te entreteres enquanto viajas: não te esqueças que estavas numa comitiva ministerial, logo de poder, e a relação entre as comunidades étnicas e culturais e o poder, sobretudo no interior de Angola, particularmente naquela região que foi tão profundamente afectada pela guerra que lá teve o desfecho que teve, é travestida de rituais que não acontecem necessáriamente em situações normais… tenta imaginar como seriam as coisas se aparecesses lá sózinha, por tua conta e risco e sem quaisquer referências, guarda-costas ou “guias de marcha”. Tenta também considerar se a tua “diferença” em relação ao grupo não jogou qualquer papel na forma como ele se relacionou contigo… E, fundamentalmente, tenta compreender que uma coisa é o domínio técnico das formas de expressão cultural de um particular grupo etno-linguístico, que fazes bem em tentar incorporar na tua dança, outra coisa é tentares apropriar-te da identidade do teu objecto de estudo… porque é isso que, consciente ou inconscientemente andas a tentar fazer. Será isso éticamente aceitável? Culturalmente legítimo? Intelectualmente honesto? E, neste particular, um áparte: porquê que as “regras de transcrição fonética” no teu site Tucokwe não são vocalizadas por alguém que pertença genuinamente àquele grupo étnico? E, já agora, “não gravaste nem filmaste porque não querias profanar aquele momento de intimidade tão único”…mas não te coibiste de o reproduzir aqui em detalhe, num espaço aberto ao mundo… será que as “mamãs” que tanta questão faziam que os homens “não vissem” não se importarão agora que qualquer homem no mundo as possa ver através dos teus olhos e comentar sobre o que viu?! Mas tu não tens culpa, és apenas o produto de um sistema político de apropriação cultural, também conhecido como “vulturismo cultural”, muito mal gerido ao longo destes 30 anos do pós-independência por elementos de um grupo social muito bem definido em Angola… e esse fenómeno há muito vem sendo estudado e debatido com muita seriedade, sobretudo fora do mundo lusófono. Mas, cedo ou tarde, esses debates e suas consequências chegarão a Angola… E aí talvez se tenham que rever os critérios de atribuição de alguns prêmios culturais nacionais… Mas, se bem te conheço a partir do que vou lendo neste teu blogue, com um ágil passo de dança e sob o aplauso da tua corte de admiradores, vais varrer tudo isto para debaixo do teu tapete vermelho como “ignorância” ou “inveja” e continuarás certamente a identificar-te arrogantemente como Phwo (não será, simplesmente, Pwo?) e a tentar virar “kacockwe”… qualquer dia…"

[comentário encontrado num dos meus últimos posts e recuperado para a primeira página por constituir “documento” de análise ;-) ]

A blogosfera tem destas coisas. À democracia manifesta na possibilidade de todos poderem ter um, dois ou mais blogs e de todos poderem expressar livremente as suas opiniões, juntam-se outros “direitos” parasitários como o de se ser inconveniente, racista, debochado, agressivo, etc.... e covarde, claro. Esta, a covardia, é uma das atitudes preferidas por aqueles indivíduos que, na falta de capacidade para assumir a sua insegurança, não só se escondem atrás do anonimato (ou “pseudónimos”) – ao qual recorrem para os seus “raids terroristas” – como, através dele, selam a sua insignificância.

É o que se passa com este “vulto”, comicamente triste no seu rol de disparates, recalcamentos, raivas e, o que é mais grave ainda, ignorância cega.

Esta resposta será, na opinião de muitos, um atribuir-lhe alguma importância (até porque vultos não existem ou são a “sombra” de alguém). Eu prefiro transformá-la num simples motivo para uma discussão sobre conceitos e valores. Vamos a “ela” (à discussão, claro!)?

Antes porém, uma ressalva: o meu objecto de estudo são as máscaras e não o grupo social. A olhos leigos, pode não parecer relevante, mas do ponto de vista de estruturação metodológica de um trabalho académico faz toda a diferença. Assim como faria diferença se este comentário tivesse sido escrito por alguém que dominasse bem e com abertura, os conceitos etic e emic.

Abstendo-nos de considerar a mesquinhez dos ataques pessoais e dos vaticínios ridículos e próprios de quem não conhece a pessoa sobre a qual se permite atrevidamente falar, poderíamos talvez principiar por reflectir sobre esta ideia bizarra, mas interessante, de “apropriação de identidade cultural”. Muitas discussões existem à volta do conceito de identidade e as opiniões são variadíssimas. Há, no entanto, algo que me parece fundamental referir: a identidade não é inata, mas sim algo que se vai construindo num processo dinâmico de incorporações e apropriações que pode durar a vida inteira. Pressupostos culturais, sociais e identitários de um grupo podem ser transmitidos desde cedo, mas a possibilidade de a estes se juntarem elementos de modernidade (ou o contrário) ou de outras culturas é uma realidade.

Sobre a legitimidade cultural e ética... não foi ético e muito menos legítimo os primeiros exploradores expropriarem violentamente objectos e peças de culto (entre outras) das mãos dos povos que decidiram colonizar, sob a alegação de se tratar de objectos de “feitiço” incompatíveis com os princípios da igreja católica, a “ideal”.

Não foi ético, encerrar essas peças em museus na Europa, com a agravante de não existir qualquer referência ao contexto, à verdadeira função da peça e ao seu autor. “Fétiche”, “feitiço” e outras palavras foram durante muito tempo (e infelizmente ainda o são) as preferidas para rotular os objectos saídos dos grupos de “nativos atrasados”.

A expropriação é crime.

Mas é ético o estabelecimento de protocolos em situação de estudo, assim como o é a negociação (para os menos informados não se trata de “negócio”, mas de um termo usado em antropologia) entre as partes, com o compromisso do respeito mútuo.

Um terceiro ponto de discussão poderia partir da visão distorcida sobre a dinâmica das sociedades ditas tradicionais. Realmente, esses grupos sociais não constituem sociedades museu ou estanques, como o ocidente, ainda hoje, pretende. Os processos de transformação, mais ou menos lentos, são inevitáveis. O contacto de umas comunidades com outras ou com distintas realidades acontece. Há cada vez menos grupos fechados. No meio de uma aldeia pode haver uma revista a cores, um frasco de gel de banho, um aparelho de rádio, um televisor; como também apareceram as missangas, as moedas, as faixas de pano vermelho ou os espelhos, trazidos pelos colonizadores. E esses elementos foram e são apropriados e incorporados. É lícito; é uma atitude progressista. O contrário, é igualmente legítimo. Quantos artistas ocidentais se “apaixonam” pelas esculturas ou pelos ritmos africanos e orientais e os adoptam? Quantas mulheres brancas vi eu de panos e penteados africanos na Holanda, por exemplo?

O importante é as pessoas não serem complexadas, nem retrógradas nos seus olhares. O que é meu pode perfeitamente ser tomado por ti, desde que o sintas teu, também.

Mas há ainda o sentir, a vivência, a proximidade com outras culturas. Há ainda a aceitação e a validação da nossa presença ou da nossa pessoa por parte dos indivíduos de um determinado grupo. Quando os resultados das provas que somos obrigados a prestar são positivos, então “a minha cultura é a tua cultura”.

Mas isto só pode ser entendido ou por quem estuda, ou por quem não sofre de complexos e constrangimentos, ou então por quem vive (ou viveu) situações similares e conhece bem este tipo de processos.

Eu não falaria em apropriação, mas sim em integração e partilha. Mas isso sou eu, que estou realmente “dentro”.

17 Comentários:

Anonymous Cangonja disse...

Tens razão, Phwo.
A identidade é algo que se vai formando ao longo do tempo, através de processos inconscientes e não algo inato, e está sempre incompleta. Talvez se falássemos em "identificação", o termo fosse mais correcto porque significa um processo que está em movimento.

Mas isso... sou eu a pensar! E estou "fora"... ;-)
Bjs

20-01-2007 0:21  
Blogger Francis*PAC disse...

(Alem de tudo. Nao faço parte do debate)...

Nao posso crer. Espaço rico de reflexoes que tocam Angola. Estamos de parabens.
Continua que estamos a ler. No's vamos voltar mais vezes.
Aquele abraço.

Cordialmente
www.angolaxyami.com

20-01-2007 10:28  
Anonymous Rui Tavira disse...

Eh,pá! Curti à brava essa dica do "vulturismo cultural". Será alguma corrente inventada por esse vulto, só para aparecer? Ehehehehhe. Talvez não, pois já se viu que a dessa personagem imaterial é mais a onda do "voyieurismo blogal". Sempre à coca, mas atrás da moita, "(es)fumada", não vá ser reconhecida.
Fui.

20-01-2007 16:15  
Anonymous Diamantino Cunha disse...

Os vultos anónimos usam o anonimato porque a coragem não lhe cabe no corpo!

Ah!...e por trás do anonimato qualquer cobarde ( ou covarde, escolham...)é herói!

Viva Angola...e os angolanos (obviamente)

20-01-2007 17:06  
Anonymous Mister K disse...

Hum! Isto cheira-me a inspiração tipo "WC"!

20-01-2007 20:46  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

Mwana Phwo
sabe bem a consideração que tenho por si, pelo pouco que entrevi do seu trabalho e perfil, o que me torna insuspeito a seus olhos(julgo) se vier aqui sublinhar algumas das afirmações-dúvida postas pelo 'vulto' ( a questão do anonimato parece-me superflua uma vez que os nomes aqui exibidos são pseudónimos) e que bem poderiam ter tidouma explicação dirigida da sua parte.
As querelas e invectivas de natureza dita racista, (neo)colonialista e de outras formas em 'ismo' aparecem recorrentemente de parte a parte e tÊm etiologia conhecida; de pouco serve denegá-las - bem maisútil seria evitá-las ou denunciá-las.

Bem entendo que se tenha sentido melindrada mas melhor entenderia que tivesse usado o seu vasto saber para elucidar, aqui, acerca daqueles termos do 'vulto', todo o leigo interessado que 'lê' Angola e o os angolanos.

(Perdoe se pareço sucinto. É a natureza deste espaço...)

21-01-2007 1:18  
Blogger JotaCê Carranca disse...

Mais um texto teu brilhante para um comentário que para além de pouco inteligente demonstra a cobardia de quem apenas usa a net como forma de conhecer.

21-01-2007 19:43  
Anonymous Cangonja disse...

Caro Pirata
O que me parece é que a Phwo não respondeu propositadamente e isso é explícito na introdução do seu texto.
De facto, com certas questões não vale a pena perder tempo e penso que ela não terá considerado todas as questões como questões de "vulto".
Sempre a considerá-lo

21-01-2007 23:33  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

Se assim foi, cangonja...
obrigado.
Perde-se todavia uma ilustração possível, não acha?

22-01-2007 0:03  
Anonymous Diamante disse...

"Vulturismo, Niilismo e Ressaibos histórico-genéticos"


Após passar por este blogue, lembrei-me ( vejam lá para o que me havia de dar!...) de tecer alguns comentários sobre "vulturismo", mas também sobre "niilismo", assim como a respeito de certos "ressaibos-rançosos", rançosos e, parece que genéticos ou históricos, ou sei lá bem o que é, embora haja quem lhe chame "dor-de-corno!", nome feio, convenhamos, conquanto existam também mentalidades duras como korno.(Lembrei-me do korno de Kronos)

Eu escrevi: mentalidades? Retiro o que disse. Em lugar de mentalidades, leia-se: "Complexos de Édipo Invertidos", onde o "falo" é substituído por um cérebro raquítico em forma de pua, embora lasso, lasso e flácido, cujos protozoários são incapazes, por impotentes, de atingir os embriões da nossa inteligência.

Como o tema é complexo (nada de confusões com o de "Édipo"), voltarei mais tarde ao referido tema, sem que antes deixe de registar certas observações:


1- Vulturismo: de Vultur= "Abutre", símbolo da rapacidade. ( do latim Voltur, ou Vultur), etc.

2-Niilismo: redução ao nada; aniquilamento; não-existência

2.1- Ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência.

3- Total e absoluto espírito destrutivo em relação ao mundo circundante e ao próprio eu.

4- Rubrica: filosofia.
Para o filósofo escocês William Hamilton (1788-1856), doutrina que nega a existência de qualquer substância, ou realidade permanente, na constituição do universo.

5-
No nietzschianismo, negação, declínio ou recusa, em curso na história humana e especialmente na modernidade ocidental, de crenças e convicções - com seus respectivos valores morais, estéticos ou políticos - que ofereçam um sentido consistente e positivo para a experiência imediata da vida.

6 - Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia.
No heideggerianismo, agravamento final do esquecimento originário do ser, o que implica a prevalência de uma realidade dominada pela técnica.

7 - Rejeição radical às leis e às instituições formais.

8 - Rubrica: história, política.
Ideologia de um grupo revolucionário russo da segunda metade do século XIX, militante em prol da destruição das instituições políticas e sociais, para abrir caminho a uma nova sociedade, e favorável ao emprego de medidas extremas, inclusive terrorismo e assassínios

9 - Ressaibo

9- 1- Mau sabor; ranço
9- 2- Sentimento de decepção, de desagrado; ressentimento. ( mau-perder)
9-3- Manha (de besta)

Voltarei ao tema. Até mais ver.

22-01-2007 0:53  
Anonymous Diamante disse...

Ao ler o que o "Vulto" escreveu - ou será Vultur?- pus-me a pensar no "rapace" "Monti" ao apropriar-se das "Czardas" e da cultura húngara. Do Borodin no concernente às "Danças Polovtzianas" de "O Príncipe Igor". Em Lopes Graça e Michel Jacometti quanto á música portuguesa. Em José Redinha, etc, todos eles umas autênticas aves-de-rapina, uns empedernidos "Vulturistas".

À atenção do senhor "Vultur", não se escreve: "áparte", "prêmios", "éticamente", "porquê que" "necessáriamente" "sózinha". Escreva-se: aparte, prémios, eticamente,porque é que?, necessariamente, sozinha.
Quanto àquele (E aí talvez se tenham que rever...)francamente!... ( E aí talvez se tenha que rever) (alguém, indeterminado...)

Afinal, o Vultur pariu um rato. Por outro lado, apetecia-me colocar aqui um excerto de José Redinha, do livro "Distribuição Étnica de Angola" dos anos 70.

Fica para outra vez. Que a Phwo me perdoe por não me haver contido perante tal "vulto", mas o dito faz cada afirmação, que não há pachorra para ler e ficar calado. Então aquela de o "Mundo" ler através dos olhos da Phwo!...Perdoai-lhe, meu pai!

22-01-2007 1:24  
Blogger Phwo disse...

Caros amigos,
Aqui estou para me desculpar, se vos ofendi ao ser áspera para com aqueles que se escondem por detrás de um nick.
Para que me entendam, e porque vocês merecem, aqui vos deixo a justificação que eu queria evitar: eu sei quem aqui veio como "vulto" e sei porque o faz desta forma que insisto ser covarde.
Mas isso não deve constituir motivo de conversa, pois seria perder tempo com "petits riens".
Que a discussão continue, mesmo que a minha presença não possa, por estes dias, ser tão efectiva.
Um abraço.

22-01-2007 17:03  
Blogger daniel sant'iago disse...

Este "ambiente" não me interessa mesmo nada!
Preferi ler-te nos olhos o amor por Angola!
A 15... até às tantas!
Até sempre, "Phwo"!

23-01-2007 13:39  
Blogger inominável disse...

tens aqui um post brilhante... estas aleivadas ouvimos, infelizmente, nos mais diversos contextos e por bocas que, muitas vezes, têm responsabilidades educativas... o pior de muitos discursos racistas ou de segregação são muitas vezes o de esconderem-se atrás de uma retórica pseudo-anti-racista... é como negar que o racismo existe... é desconhecer que as palavras têm peso e medida...

23-01-2007 20:35  
Blogger Salucombo_Jr. disse...

o que é um anónimo?

"(...)Mas isto só pode ser entendido ou por quem estuda, ou por quem não sofre de complexos e constrangimentos, ou então por quem vive (ou viveu) situações similares e conhece bem este tipo de processos.(...)" - copy/paste

tenho um amigo que diz sempre, eu sou Brasileiro Angolano e vice-versa, a ordem depende da tua escolha de quem lhe ouve, que um dia disse-me o seguinte:
meu puto, eu nasci em Macau, mas se um dia encontrares um angolano/brasileiro que consiga provar-me que é mais angolano/brasileiro que eu, então voltarei para "minha terra".

31-01-2007 14:41  
Anonymous Caça Fantasmas disse...

E o vulto levou de volta!
Rarefez-se. Rareou-se. Ralou-se e foi engolido com spagetti.
Foi!
Fui!

09-02-2007 20:16  
Blogger Elcio disse...

Querida amiga, Mwana Pwo, antes de tudo,perdoa meu português pois já vâo 14 anos somente falando/escrevendo espanhol...
Quando vi o tal vulto, ou seja, o vômito do tal, primeiro pensei que êle nâo te conhecia, mas depois, relendo, da pra ver que o tal gajo anda por aí pertinho...mas tâo longe...
Nâo tem a mais mínima condiçâo de entender nem a ti nem ao teu trabalho. Eu também tenho passado por situaçôes muito parecidas, somadas a que nasci em outro país e me naturalizei no que vivo agora.
Sâo casos em que "os olhos nâo podem ver" por que nâo estâo aptos para a luz.
Siga seu caminho. Os vultos nâo fazem sombra.

24-02-2007 21:45  

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