"Impressões de Luanda 2"
Já que estou em maré de "dissecação", vou continuar, hoje com uma "puxada" e ligação directa (bem ao nosso jeito), de um texto do meu colega "colibri ecológico" (lol) Álvaro Pereira. E vou mais longe ainda; sem pagar direitos de autor, faço minhas as suas palavras.
Tomo algumas destas notas ainda em Luanda, numa sexta-feira pastosa que invade a cidade e de um cheiro que quase nunca é bom, mas podemos imaginar como poderia ser florido e fresco, sobretudo à noite…
Noite, como muitas vezes falta a luz àquela hora. Arrancam os geradores num barulho que sufoca o ar. Quantos geradores estão trabalhar esta noite e a queimar não sei quantas toneladas de combustível? O que pensam os países viciados numa economia de guerra, alimentada pelo petróleo?
Impera o desperdício: da água que enche tanques e vaza, dos milhares de carros lavados todas as manhas, dos ares que nunca se desligam, das luzes que nunca se apagam.
Consta que ¾ população vive com 15/20 litros de água por dia, numa correria entre bidons amarelos e o processo 500. Para quantos pneus chegam 15 litros?
Claro que o mundo não é só injusto em Luanda, mas tudo se torna mais insuportável quando o confronto é a mais descarada opulência, mal formada, e a exibição atrevida da vacuidade num clima de orgia permanente. Mesmo que antes seja necessário atravessar o inferno pestilento da Samba até chegar ao “embarcadouro”.
Hoje finalmente faltou água em casa, os tanques esvaziaram sem que se soubesse que há dias faltava na cidade. Como se sabe em Luanda não fica bem ver a TPA e por enquanto as TVs brasileiras e a “SIC 10 horas” ainda não dão notícias sobre a falta de água em Luanda. É uma azáfama e uma fonte de receita para a casa da esquina que tem um poço.
Luanda surge como um imenso bairro de lata… intercalada por pequenos oásis e por um subúrbio novo, rico, fechado e árido que foge para sul. Choveu e as inundações sobressaem. Estradas que são lagos de chuva, lixo e esgotos.
Fervilha uma actividade construtiva e de serviços, de negócios e de oportunidades. Chineses, brasileiros, portugueses, indianos e claro angolanos antigos e recentes. Uma ponte, uma escola, duas fábricas e três estruturas metálicas. Ganha quem tem mais força? quem chega primeiro? quem conhece melhor os meandros da “gasosa”? Ganham, para já, todos... incluindo-se naturalmente os luandenses que podem, pelo menos, deslumbrar-se com os primeiros sobressaltos de uma sociedade de consumo e respirar um ambiente menos claustrofóbico.
A nova moda e ícone de sucesso é a segurança privada, a esturricar sentados em cadeiras de plástico e a fazer candonga com o estacionamento. Parece que a eficácia em termos de segurança é duvidosa. “Por vezes estão feitos com os bandidos ou são os primeiros a ser amarrados e a levar umas chapadas”.
Em Luanda como se sabe há muitos “Jeeps” grandes, mas encontrei um que exibia um grande ícone revolucionário e vi rituais que engasgam o mais passivo dos seres. O nosso revolucionário, o do Jeep, atravessa em pontas o charco que envolve a viatura após a barrela matinal e num saltinho pesado atinge o assento, as pernas ficam bamboleantes à espera....que o “moço” que lava o carro lhe limpe as solas!
Felizmente Luanda não é só isto. Há o Minho do meu avô africano, lá onde se reinventa o Kwanza, ritmos que caiem sobre rios de liberdade…, a Barra do Dande e gente que ama e estuda o deserto.
Tomo algumas destas notas ainda em Luanda, numa sexta-feira pastosa que invade a cidade e de um cheiro que quase nunca é bom, mas podemos imaginar como poderia ser florido e fresco, sobretudo à noite…
Noite, como muitas vezes falta a luz àquela hora. Arrancam os geradores num barulho que sufoca o ar. Quantos geradores estão trabalhar esta noite e a queimar não sei quantas toneladas de combustível? O que pensam os países viciados numa economia de guerra, alimentada pelo petróleo?
Impera o desperdício: da água que enche tanques e vaza, dos milhares de carros lavados todas as manhas, dos ares que nunca se desligam, das luzes que nunca se apagam.
Consta que ¾ população vive com 15/20 litros de água por dia, numa correria entre bidons amarelos e o processo 500. Para quantos pneus chegam 15 litros?
Claro que o mundo não é só injusto em Luanda, mas tudo se torna mais insuportável quando o confronto é a mais descarada opulência, mal formada, e a exibição atrevida da vacuidade num clima de orgia permanente. Mesmo que antes seja necessário atravessar o inferno pestilento da Samba até chegar ao “embarcadouro”.
Hoje finalmente faltou água em casa, os tanques esvaziaram sem que se soubesse que há dias faltava na cidade. Como se sabe em Luanda não fica bem ver a TPA e por enquanto as TVs brasileiras e a “SIC 10 horas” ainda não dão notícias sobre a falta de água em Luanda. É uma azáfama e uma fonte de receita para a casa da esquina que tem um poço.
Luanda surge como um imenso bairro de lata… intercalada por pequenos oásis e por um subúrbio novo, rico, fechado e árido que foge para sul. Choveu e as inundações sobressaem. Estradas que são lagos de chuva, lixo e esgotos.
Fervilha uma actividade construtiva e de serviços, de negócios e de oportunidades. Chineses, brasileiros, portugueses, indianos e claro angolanos antigos e recentes. Uma ponte, uma escola, duas fábricas e três estruturas metálicas. Ganha quem tem mais força? quem chega primeiro? quem conhece melhor os meandros da “gasosa”? Ganham, para já, todos... incluindo-se naturalmente os luandenses que podem, pelo menos, deslumbrar-se com os primeiros sobressaltos de uma sociedade de consumo e respirar um ambiente menos claustrofóbico.
A nova moda e ícone de sucesso é a segurança privada, a esturricar sentados em cadeiras de plástico e a fazer candonga com o estacionamento. Parece que a eficácia em termos de segurança é duvidosa. “Por vezes estão feitos com os bandidos ou são os primeiros a ser amarrados e a levar umas chapadas”.
Em Luanda como se sabe há muitos “Jeeps” grandes, mas encontrei um que exibia um grande ícone revolucionário e vi rituais que engasgam o mais passivo dos seres. O nosso revolucionário, o do Jeep, atravessa em pontas o charco que envolve a viatura após a barrela matinal e num saltinho pesado atinge o assento, as pernas ficam bamboleantes à espera....que o “moço” que lava o carro lhe limpe as solas!
Felizmente Luanda não é só isto. Há o Minho do meu avô africano, lá onde se reinventa o Kwanza, ritmos que caiem sobre rios de liberdade…, a Barra do Dande e gente que ama e estuda o deserto.





8 Comentários:
Infelizmente, Luanda é muito pior que 'isto'!
E nem a Barra de todos os Dandes de Angola lhe podem valer; nos próximos vinte ou trinta anos....
Pois... Luanda é assim e pior também, de vez em quando alguém fala/diz/escreve.
Mas Angola não é só Luanda e eu não nasci em Luanda (eu seou do Puerto, meneina!).
O que há para além de Luuanda?
Um abraço e obrigada pela ligação directa. Já tentei e consegui pôr o carro a trabalhar, só que já não tenho combustível...
Jawaa,
Obrigada pelas visitas que me tens feito.
Para além de Lwanda há o país inteiro ligado por estradas prometidas, onde quase metade da população (a outra metade está nos suburbios da capital) vive como pode: sem escolas, sem hospitais, com fome e com os campos ocupados pelos novos fazendeiros ou as lavras ainda minadas.
Fora de Luanda há praias, planalto, chana, deserto, rios bonitos como a Europa nunca viu. Há pessoas empreendedoras, muito poucas, a tentar reconstruir a sua terra. Há optimismo, não chegam os jornais nem as revistas cor-de-rosa (sim, temos pelo menos três ou quatro), há Sobas (autoridades tradicionais, herdeiras de poderes ancestrais e descendentes de linhagens aristocráticas) a quem a miséria tirou a dignidade. Mas há sobretudo uma massa imensa de famílias "anónimas" dizimadas pela guerra; orfãos, viúvas, mutilados a tentar sobreviver num país onde o poder do dinheiro violenta, todos os dias, os direitos humanos; os nossos direitos de cidadãos livres.
olá!
isto não é um comentário ao teu post, mas uma forma de agradecer a forma como me tens tornado atenta a Angola, em particular, e África, num geral avassalador...
visitei um museu magnífico aqui em Berlin (Dahlem) e, na secção performance, encontrei máscaras maravilhosas (quer como a que tens na tua foto, quer dos selos que noutro post comentaste) e senti-me verdadeiramente grata... sem ti não teria passado tanto tempo a analisar os rituais, as danças, os materiais, os símbolos gravados, a comparar máscaras angolanas com outras...
força aí... parece que os últimos posts têm andado um pouco desencantados... espero que o vermelho do chão do teu país te inspire e reflicta o céu...
Inominável,
De facto, (des)escrever Angola é para mim um exercício de emotividade.
Quando falo das minhas coisas, estou nas nuvens. Quando caio ao chão, esborracho-me contra a realidade e soltam-se as cobras.
É assim; o meu jogo de sobrevivência ao qual acrescento o humor que não me deixa sucumbir.
Sou feliz! (Mas de olhos bem abertos, porque o sonho foi-se com a revolução)
Um abraço e conta-me do Museu e das peças angolanas, quase de certeza cokwe.
Pirata,
Infelizmente, talvez...
Mas há esperança (ou não?).
Pois, como adivinhaste, muitas máscaras Cokwe... duas bastante parecidas com os selos que comentaste, uma mesmo muito semelhante à que apresentas como foto no teu perfil, com a mesma simbologia... (mas para leigos, como eu, as semelhanças podem ser maiores do que na realidade)...
Tive também a sorte de poder assistir a excertos de performances com as máscaras, nomeadamente Phwo, que é de ficar deslumbrada...
Bem sei que ver tudo isto num museu em Berlin não é o mesmo que ver ao vivo e a cores e a cheiros, mas é o melhor que se consegue daqui... e é um bom museu... Se passares por cá, levo-te lá... aprenderei mais, com certeza...
Interessante relato, embora um pouco púdico. A realidade é bem mais pornográfica...
A minha cunhada veio passar duas semanas de férias a Lisboa. Antes de vir, comprou kg de carne e peixe para os irmãos e a mãe comerem. Encheu a geleira... como, entretanto, faltou a energia no Bairro Azul durante uma data de dias seguidos, a comida estragou-se toda.
É que essa coisa dos geradores não é para todos. É só para quem pode.
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