Terça-feira, Janeiro 09, 2007

As "mamãs" do Wino wa Cikota


A foto não é do grupo em referência, mas de outro, presente no dia da chegada.
Como prometi há tempos, aqui, vou contar sobre o grupo de dança Wino wa Cikota.
Era o dia da partida: 11 horas da manhã, céu meio encoberto e o ar húmido. Atrasado, o avião que nos levaria de volta a Luanda só chegaria ao Lwena perto das 3 da tarde. O tempo sobrava.
Surgindo, por fim, a oportunidade que ele aguardava, Marquito, o motorista do “nosso” autocarro, dispôs-se a levar-me a passear. Mas uma contra ordem mandou-nos para o aeroporto buscar as senhoras do grupo de dança Wino wa Cikota que aguardavam, desde as 8 da manhã (!!!), pela partida da delegação do Ministério da Cultura para iniciarem a habitual performance de despedida.
Assim que entraram no autocarro o “chefe” do grupo que, sem eu saber, me conhecia de há muito, apresentou-me. Em saudação e por ser mulher (elas explicaram) cantaram para mim. Acompanhei com palmas e exibi o meu "- Nasakwila cinji". Os seus rostos mudaram; agora pertencíamos à mesma classe: mulheres bailarinas. Reparei nas escarificações que marcavam os rostos das mais idosas e fui dizendo, em voz baixa, o nome de cada um dos símbolos. Agradadas por eu saber sobre as marcas, insistiram para que eu lhes perguntasse segredos de mulheres. Não posso deixar de dizer da timidez “que fiquei com ela”.

E elas mandavam-me falar “- Hanjika!” e eu, devagar, perguntava. Até que uma delas afastou o pano que vestia e mostrou-me algumas das suas escarificações, sempre com cuidado para que os homens, sentados em mesa à parte, não lhe vissem o corpo. Falaram-me da wino wa kumenga, que é a dança que se dança com o marido na cama. Desafiaram-me, perguntando se eu queria fazer uma escarificação, advertindo-me que iria chorar muito de dor. Ensinaram-me, em voz sumida que dentro das máscaras afinal há um homem, ser humano, mesmo. Falavam muito, calmamente e sempre em ucokwe. Alguém traduzia quando eu não entendia. Faziam-me repetir as palavras e os verbos, tudo com a pronúncia e a forma gramatical certa. Senti que confiavam em mim. Não fotografei, nem filmei. Não estava programado e não quis profanar aquele momento de intimidade tão único.

Mas o maior desafio foi a dança.
Horas depois, enquanto a delegação se despedia com todas as formalidades e mesuras hierárquicas, como manda o protocolo, eu dançava a ciyanda com elas, descalça, na pista do aeroporto, com um pano que me haviam atado à cintura.
Os políticos aproximaram-se sem eu perceber e quando me voltei… quis sair da roda, mas a mais velha do grupo não me deixou, ordenando-me em tom autoritário que ficasse.
Sem saber gerir a situação fui fazendo a minha coreografia, de forma a retirar-me, discretamente.
Entrei para o avião atrasada. Chovia gotas mornas. Ao contrário do que esperava, não fui “ralhada” pelo Ministro da Cultura. Gostou e manifestou-o naquele momento para todos ouvirem.
Eu tentava calçar as sandálias e apertar o cinto de segurança, ao mesmo tempo. O avião corria já pela pista.
Olhando para baixo, ainda pude distinguir alguns pontos fazendo um círculo. Eram elas, as mamãs do grupo Wino wa Cikota que, em ucokwe quer dizer, dança da tradição – a primeira dança: ciyanda.

8 Comentários:

Blogger jawaa disse...

Descrição bela e sentida.
Vejo que estás verdadeiramente inserida no teu espaço, pela delicadeza com que partilhaste a intimidade das mulheres; és respeitada e estimada pelos teus pares.
Gostei muito de ler-te.
Quando puderes passa pelo meu lugar que escrevi para ti. A quadra que escolhi para mote veio a propósito.
Tens uma grande responsabilidade no teu país.

10-01-2007 0:56  
Anonymous Kátia Cristina disse...

Que lindo, Phwo!
E conhecendo-te, é fácil de imaginar a diferença que (não) faz ser branca e loira, como tu és.
Um beijo de agradecimento pela partilha.

10-01-2007 1:05  
Blogger inominável disse...

e ser mulher como tu e gostar...

10-01-2007 1:10  
Anonymous Cangonja disse...

Sempre que escreves em relação a este tema sinto que te transformas em kacokwe, guardiã de segredos aprendidos na "mukanda" da vida!
Mais uma vez a admiração que tenho por ti.
Bjsh

10-01-2007 18:24  
Anonymous Vulto disse...

Minha querida, as tuas boas intenções talvez até sejam inquestionáveis, mas deixo-te um conselho amigo: vê se estudas um pouco mais sobre o conceito de “vulturismo cultural”. Depois tenta ser tu própria e votos de bom proveito. E quanto às mamães do Lwena, não te preocupes que elas continuarão a ser iguais a si mesmas e fiéis à sua cultura original, mesmo que se enfeitem com, ou tentem esconder-se por detrás de, outras máscaras. É que a cultura étnica não se obtém, por maior acesso visual que se tenha aos segredos sob quaisquer panos: nasce-se e cresce-se com… Desculpa lá!

12-01-2007 13:41  
Blogger Nelsinho disse...

Adorei teu texto!!

Estou de volta

Um beijo!

Nelsinho

12-01-2007 20:07  
Blogger Phwo disse...

De vultos e sombras patéticas se faz um dos sete pecados capitais.
Capital é a obrigação de se perceber profundamente e de espírito aberto, sobre etnicidade e cultura, conceitos sempre em actualização (ai de nós se assim não fosse).
O que é uma cultura original? Qual a cultura que não provém de fusões e somatórios articulados de saberes, hábitos, procedimentos, crenças, etc., acumulados e adquiridos ao longo dos tempos e das geografias trilhadas pelos vários grupos sociais?
Não há guardiões culturais. A partilha e a apropriação são parte integrante de qualquer processo cultural e social.
Mas enfim... há quem tenha parado no tempo do colonial "Ultramar, sempre nosso", onde o "nativo" era exótico, puro e naif, sempre disponível no seu "habitat natural" de preferência eterno.
Impossível.
O estudo, justamente, o estudo e a actualização dos conceitos a que ele nos conduz, é fundamental para o aprimoramento da nossa inteligência entre outras potencialidades que, em princípio, todos temos.
Adeus e volta com o teu verdadeiro nome, pois é fácil reconhecer-te. Apareces sempre, covardemente (e qual abutre faminto), nas mesmas ocasiões, falando de mim como se me conhecesses, o que não é verdade.
Se isso te dá prazer, continua...
De ti, jamais falarei. Os vultos não existem.

16-01-2007 18:49  
Anonymous Francisco Borges disse...

O pecado mortal será a inveja ou a "gula"? Lol lol lol

17-01-2007 0:58  

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