Sexta-feira, Setembro 29, 2006

Em 1878, a dança do soba Mavanda



Abstraindo-nos de uma linguagem característica da época e de uma geração de exploradores, importa constatar, através deste texto, o lugar nobre reservado à dança (e à máscara), entre os povos de origem bantu ("Ngangela", neste caso).

«Pelas 8 horas chegaram os batuques e juntou-se grande concurso de povo.
Meia hora depois apareceu o soba, com a cabeça metida em uma cabaça pintada de branco e preto, e o enorme corpo aumentado por uma armação de varas de varas coberta de liconde, igualmente pintado de preto e branco. Um saio de clinas e caudas de animais completavam o trajo.
Logo que ele chegou, os homens formaram em linha, com os batuques atrás, e as mulheres e rapazes desviaram-se para longe. Começaram os batuques e os homens, imóveis do corpo, cantando as suas monótonas toadas e batendo as palmas.
O soba foi colocar-se a uns trinta passos em frente da linha e começou uma brutesca dança, em que parecia fera enraivecida; conquistando os maiores aplausos da sua e da minha gente.»
(Serpa Pinto, 1881/1999: 201)

2 Comentários:

Blogger Denudado disse...

Cara amiga, se puderes, não deixes de consultar a obra do capitão Henrique de Carvalho sobre o reino da Lunda. São vários e grossos volumes publicados ainda no séc. XIX e, tanto quanto me apercebi ao folheá-los, a sua qualidade e profundidade deixam a perder de vista as obras dos outros exploradores.

Quero também chamar a tua atenção para dois blogs que me parecem ser muito interessantes. Não sei se os conheces; chamam-se Détours des Mondes e Os Dois Pilares da Criação.

30-09-2006 0:54  
Blogger Phwo disse...

Denudado,
Obrigada pelas "dicas". De facto, conheço esse conjunto de livros de H. Dias de Carvalho, sob o título genérico "Expedição Portugueza ao Muatiânvua". Tenho, inclusivamente, dois desses volumes: "Ethnografia e história tradicional dos povos da Lunda" e "Méthodo Pratico para fallar a língua da Lunda", ambos em edições originais de 1890 (comprados em alfarrabistas, claro!). É, de facto, uma obra de enorme interesse, embora a continue a posicionar, do ponto de vista etnográfico, em paralelo com os relatos dos seus contemporâneos Cappelo e Ivens; Silva Porto ou Serpa Pinto, por exemplo.
Quanto aos blogs, apenas conhecia o primeiro; no segundo fui surpreendida com uma referência à Companhia de Dança Contemporânea de Angola.
Muito obrigada pelas tuas contribuições, que são sempre muitíssimo bem vindas.
Um abraço

30-09-2006 15:58  

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