Traço a traço

Quando nasceu, o seu corpo parecia nu, mas carregava já um futuro de transformações adivinhadas.
Depois de "fazer" Ukule, a menina mudou de estatuto, e ficou mulher, e mudou de nome e as suas costas começaram a contar uma história. Uma das histórias de um povo que se marca para que a sua nudez seja distinta das demais.
Traço a traço, ferida a ferida.





10 Comentários:
Que marcas nas costas são essas que contam uma história que marca?
E que história contam?
daniel
Escarificações, Senhor (Daniel)! São escarificações; em língua cokwe diz-se Cato [tchato] ou yitoma.
Contam a história de um povo, a história do género, a história das diversas mortes e renascimentos para novas etapas da vida.
Contam a história dos símbolos e contam-na através desses símbolos com poderes.
Estas marcas enfeitam, decoram o corpo, contam a história de uma identidade. São essa identidade.
São a prova da coragem e da resistência à dor exigidas para se pertencer, de facto, a uma comunidade, a um povo que se orgulha dessas marcas que contam uma história marcada por várias estórias.
Obrigada por me teres feito "discursar" sobre o que mais gosto.
:-)
Sabes (Posso?), "phwo"... ignorante que sou da vossa cultura, deixaram-me marcas a "ferida a ferida" com que terminas o texto... E, daí, as perguntas para poder perceber. Obrigado pela resposta! Fiquei mais rico!
E... isto de "deixar marcas" não tem, muitas vezes, nada a ver com a identidade do povo que adoras... Por aqui... muitas vezes, "deixar marcas"... dói muito.
Aquele "Senhor" fica a matar(-me)!
Um sorriso...
daniel
as escarificações são comuns a muitos povos africanos. penso que é uma tradição que tende a cair em desuso... a tradição já não é o que era. eu acho bem, que se acabe com isso, que deixe de ser uma necessidade. acho bem. até porque as mulheres não deveriam ter de sofrer dessa maneira para serem pertença de qualquer comunidade. deveria ser suficiente serem mulheres, mães, fonte, elo.
Olá, Carlos.
Gosto de te tornar a ver por aqui.
De facto, ao contrário do que muita gente pensa, a tradição não é uma guardiã estática de culturas museu. Ela é, antes pelo contrário, uma realidade porosa; transforma-se, assimila novos elementos, adapta-se a novos contextos, mantendo, no entanto, os mecanismos das estruturas fundamentais sempre prontos a funcionar.
Sobre as escarificações, estão, de facto, a cair em desuso. Declarar aqui ser contra ou a favor, levaria algum "texto" e poderia tornar-me fastidiosa.
A minha intenção foi mostrar que as culturas são diferentes e com elas os valores, os conceitos e as "marcas".
Um abraço.
o teu post é muito bom. é leve, denso. incisivo. leva-nos aonde tem de nos levar. levei as imagens e fiz um link para o respirar. é muito bom vir aqui.
JPN,
... e é bom perceber a tua presença por aqui.
Volta sempre e 'respira' o que quiseres.
Querida phwo
Voltei e adorei aqui vir!...
Voltarei e adorarei.
Beijos
Nelsinho
E serás sempre recebido como mereces!... Bjs.
Phwo, por um caminho tortuoso, cheguei até a tua casa, passei a tarde aqui a visitar teus (des)cons(c)ertos...
Que grande, menina que tu és! Como é delicioso lê-la, que grata surpresa encontrar densidade e leveza, assim, caminhando juntas, sem se chocarem.
Tu provocas o tempo todo um deslocamento saudável e generoso em nosso olhar.
Meu desejo, nesta tarde que fujo à pesquisa e aos cronogramas burocráticos é ficar aqui por muito tempo a me deixar surpreender e me enriquecer.
Espero muito trocar muitas figurinhas.
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