Quarta-feira, Julho 05, 2006

(ainda) a mulher


Será importante explicar o valor da palavra «phwo»?
Talvez (não)...
Contrariando-me, falo então... de phwo; de mulher corpo, mulher objecto esculpido, mulher representada pelo homem que a dança em homenagem, mulher que planta mandioca na lavra com o filho nas costas, mulher máscara, mulher Lweji – a rainha, mulher que entrega os relevos da sua pele à curiosidade e ao desejo do homem que a preferiu.
Ao raiar do dia – hora de fazer amor (como aprendeu na Mukanda) – ele procura. Sob os dedos que a percorrem, phwo não sente o medo da rejeição. É mulher; phwo mesmo, porque no lugar onde termina o ventre que transportará os filhos que um dia ela «vai nascer», ensina ao companheiro as mikonda, com que lhe provoca na vontade dele.
Nesse momento, ela não lembra mais as dores da lâmina afiada que abriu cada uma das incisões obrigatórias e estrategicamente desenhadas no seu corpo.
É assim ser mulher entre os Tucokwe; é quase assim ser-se Phwo.

9 Comentários:

Anonymous O'Sanji disse...

Phwo,
"ainda" bem que resolveste transportar este belíssimo texto para o teu blog.
:)

05-07-2006 11:56  
Anonymous fifer disse...

Lindo pra morrer. Um beijo de agradecimento.
Fifer

05-07-2006 22:46  
Blogger Denudado disse...

Phwo, desculpa este meu pequeno reparo a esta tua afirmação:

(...)
mulher que planta mandioca na lavra com o filho nas costas
(...)


É praticamente um ex-libris de África a imagem da mulher carregando um filho às costas. No entanto, não é muito frequente verem-se mulheres a trabalhar nas lavras, curvadas, de enxada ou catana nas mãos e mantendo os filhos nas suas costas. Como facilmente se imagina, com os movimentos que o trabalho exige da mulher, o filho que està às suas costas tem tendência a escorregar por um ou por outro lado do seu corpo curvado. Assim, normalmente, as camponesas angolanas pousam os seus filhos no chão, perto de si, juntamente com as roupas e outros adereços que elas também tiram antes de começarem a trabalhar, para não lhes tolherem os movimentos (elas costumam trabalhar nas lavras quase integralmente nuas). Os filhos só estão às suas costas quando elas pretendem adormecê-los, embalando-os com os movimentos repetidos do trabalho. Logo que os filhos adormeçam, pousam-nos no chão. Pelo menos, foi assim que eu vi fazer no Norte de Angola.

Não nego, portanto, que se possam ver mulheres plantando mandioca com os filhos nas costas. O que afirmo é que não as vi fazerem isso com muita frequência.

05-07-2006 23:40  
Blogger Phwo disse...

Obrigada, Denudado. É sempre um prazer ver-te aqui e ler o que tens para ensinar.
De facto, eu vivi e vivo mais a Angola desde a independência até aos dias de hoje. E vi e vejo, durante as minhas “saídas de campo” as mamãs nas lavras, vestidas e com os seus filhos bem amarrados (como só elas sabem) nas costas, os quais, como tu próprio dizes, adormecem com o ritmo do trabalho.
Por outro lado, quando eu digo que me "(des)organizo em palavras", está implícito um certo (re)organizar do que vejo, do que sinto. De facto, não há “mulher máscara”; mas há máscara de phwo. Poderia não existir mulher “que planta mandioca na lavra com o filho nas costas”, mas existiria sempre a mãe angolana que, incansável e sem ter onde deixar o filho, o leva com ela para todo o lado; e isso (também) a faz Mulher/phwo. Conta a imagem, a mensagem; a (re)leitura do texto. É a minha pretensão a escritora de blog, se quiseres... Mas é, sobretudo, a minha interpretação da realidade a que assisto e cuja essência mantenho sempre. O resto... deixo para a imaginação de cada um.
Um abraço e volta sempre.

06-07-2006 5:14  
Blogger Phwo disse...

Fifer, O'Sanji:
Gosto sempre de vos ver aqui.
Obrigada por (às vezes) me perdoarem alguns silêncios em resposta às vossas visitas.
Bjs.

06-07-2006 5:25  
Anonymous carlos meira disse...

Gostei muito do seu blogue e deste estupendo texto.
Se bem entendi phwo quer dizer mulher numa língua angolana, qual? E só queria saber o que são mikonda.
Obrigado.

06-07-2006 5:44  
Anonymous carlos meira disse...

Gostei muito do seu blogue e deste estupendo texto.
Se bem entendi phwo quer dizer mulher numa língua angolana, qual? E só queria saber o que são mikonda e mukanda?
Obrigado.

06-07-2006 5:45  
Blogger Denudado disse...

Phwo, não me sentiria bem comigo próprio se não acrescentasse que o teu belíssimo texto e o teu comentário são um excelente retrato da condição feminina na sociedade tradicional angolana. Como nos mostraste, essa condição não é nada brilhante.

No entanto e apesar de tudo, a condição da mulher angolana não é tão má como algumas pessoas poderão ser levadas a pensar. Por um lado, em Angola não se pratica a excisão feminina. Por outro lado, o facto de a sucessão ser matrilinear confere à mulher uma importância na estrutura familiar angolana muito maior do que a que ela tem na estrutura familiar europeia, que é patriarcal.

Não se comete nenhum exagero se se disser que a mulher é a coluna vertebral da sociedade tradicional angolana. É mesmo. Ainda assim, a sua condição não é nada brilhante.

P.S. - Tens toda a razão, quando dizes que vês as camponesas a trabalhar vestidas e com os filhos nas costas. É assim que toda a gente as vê quando passa na estrada, por ex. Com efeito, em lavras que estão muito expostas ou próximas de locais muito movimentados, as mulheres não se sentem suficientemente seguras e à vontade para pousarem os seus filhos e tirarem as suas roupas. Só o fazem em lavras mais resguardadas e atravessadas por trilhos do mato apenas. As minhas desculpas por não ter sido suficientemente explícito.

06-07-2006 11:30  
Blogger Phwo disse...

Olá Carlos Meira,
Aqui estão alguns dados para te ajudar a esclarecer as dúvidas:

- Mikonda (sing. mukonda) - Série de três ou mais escarificações, em forma de meia lua, dispostas na zona púbica das mulheres cokwe, com a finalidade de estimular o prazer sexual. As mulheres que não possuem estas incisões não são aceites pelos homens deste povo.

- Mukanda - Instituição de iniciação masculina entre os Tucokwe e povos aparentados. Os rapazes retiram-se durante um período que varia entre os seis e os dezoito meses, para uma aprendizagem que lhes permite tornarem-se membros de pleno direito na sociedade cokwe.
Um dos primeiros rituais aí observados é a operação da circuncisão.

06-07-2006 22:20  

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