Sábado, Março 25, 2006

Hoje voltei ao Lwena

Sem perceber como, não tinha mais carga na minha máquina de filmar. Mordi-me por dentro, na raiva de ter falhado.
O chefe estava no chão, sentado. A kwita roncava à força dos seus músculos.
Num ataque daquele romantismo absolutamente dispensável nestas situações, quase acreditei que ele “não estava ali”; Os seus olhos pareciam parados, em êxtase.
O corpo, todo, estava envolvido naquela relação.
Lembrei-me que a máquina de fotografar também captava imagens em movimento.
David Mpwia, Jacinto e Francisco Gabela tomavam conta dos outros instrumentos: ngoma ya kasasulwilo, lundamba (uma espécie de dikanza, mas em metal) e os mikakaji (sing. mukakaji) para marcar o “contra tempo”.
Mas Maleka estava atento. Longe de estar “fora de si”, controlava os músicos, os bailarinos e os meus movimentos - que tanto tentei discretos.
Quando terminou, perguntou-me: Filmaste tudo?
Tinha-se apercebido de que, naquele momento, eu apenas me concentrara na performance dos músicos.
Hoje voltei ao Lwena. Tive saudades.
Enquanto lá estive choveu todos os dias e eu dancei com o grupo Kalofulofu Wino wa Matemba...
Foi bom.

[Clicar na foto]

19 Comentários:

Blogger JotaCê Carranca disse...

Gostei. Mais palavras para quÊ?
As máquinas deviam ter carga indefinida. Falham sempre nos momemntos cruciais.
Abraços

25-03-2006 19:27  
Anonymous carlosnarciso disse...

F a b u l o s o!!!

25-03-2006 20:18  
Blogger Denudado disse...

Faço minhas as palavras do orador precedente: F a b u l o s o!!!

Estas imagens fizeram-me recordar uma minha desastrada participação num batuque que nunca esquecerei.

26-03-2006 2:52  
Blogger Phwo disse...

Obrigada, amigos.
Conta, Denudado. Conta!
:D

26-03-2006 5:08  
Anonymous Pedro F. disse...

Ainda é possível gostar-se de Angola.
Ainda há quem esteja interessado em estudar e produzir conhecimento.
Ainda o povo canta e dança, guardando e defendendo assim o seu património.
Bem hajam, angolanos verdadeiros!
Obrigado Pwo, por este blog precioso.

26-03-2006 6:52  
Blogger Salucombo_Jr. disse...

se as maquinas fossem os nossos olhos tudo seria maquina.
se os nossos olhos fossem as maquinas jamais teriamos a chatice low battery.

26-03-2006 15:49  
Anonymous fifer disse...

Se há lição a retirar da História de África e, também de Angola, é que produzir grande arte não garante o respeito pelos nossos contemporâneos. É difícil acreditar que os exploradores tenham podido considerar os diversos povos de África uma raça inferior.
Um bj PWO por seres séria e culturalmente alinhada.

26-03-2006 18:04  
Blogger Denudado disse...

Que queres que te conte, Pwo? Fiz uma triste figura, mas foi um daqueles momentos em que eu, que sou branco e europeu, me senti negro e africano até à medula dos ossos.

Era uma vez um batuque que se realizava numa sanzala vizinha e cujo rufar dos tambores me impeliu a ir até lá. Já na noite anterior eu tinha lá estado, a assistir ao batuque das crianças. Desta vez, era o batuque dos adultos, um batuque "a sério".

Quando cheguei, pus-me a observá-lo um pouco de fora, enquanto trocava impressões com a pessoa que me acompanhava, que era um ganguela originário do Leste da Huíla chamado Domingos Dala, se não me falha a memória.

A noite era uma daquelas inesquecíveis noites africanas, quentes e banhadas por um luar como não há igual aqui na Europa. Os dançarinos cantavam e dançavam em volta de grandes fogueiras, enquanto os tocadores imprimiam um ritmo frenético aos seus tambores, que aqueciam periodicamente ao fogo, para retesarem ainda mais as peles que vibravam retumbantemente.

O meu acompanhante não se mostrava minimamente impressionado com o espectáculo que me empolgava. «Este batuque é bom», disse ele, «mas os da minha terra ainda são melhores». A seguir, acrescentou: «Na minha terra os tambores também são maiores do que estes». Olhei então para os tambores e reparei que, entre os seus tocadores, estava um habitante local que conhecia, chamado Sebastião (já não me lembro do resto do nome dele), que tocava o tambor mais pequeno de todos e com o ritmo mais rápido, com um frenesim verdadeiramente alucinante, enquanto rios de suor lhe escorriam pelo corpo.

Aproximei-me do Sebastião para o observar melhor e também para observar os próprios tambores, que eram maravilhosamente esculpidos e que os habitantes locais não vendiam por dinheiro nenhum deste mundo (os tambores que eles vendiam eram umas meras cópias de qualidade inferior).

Um grupo de dançarinos começou a fechar um pequeno círculo em torno de mim, pois um branco no meio de negros não deixa de ser notado. Dançaram e cantaram para mim e, a certa altura, convidaram-me a entrar no batuque. Aos berros, porque o ritmo dos tambores era ensurdecedor. Puseram-me, porém, uma condição, ou melhor, a condição não era deles, mas sim da própria tradição: para poder participar no batuque, eu teria que dançar sem calças e com um pano à cintura, tal como eles!

Perante a minha firme recusa em despir tão "importante" atributo da "civilização", eles acabaram por ir buscar um pano grande, que me enrolaram à cintura por cima das calças e que me chegava até aos pés, cobrindo as pernas completamente. As calças deixaram de se ver e assim eu já pude participar no batuque.

O resultado não podia ter sido mais desastroso. O pano estava sempre a enrodilhar-se-me nas calças e eu tropeçava constantemente. Quase não me atrevia a dançar, procurando abanar somente o rabo, mas os ajuntamentos e as rodas que os dançarinos faziam e desfaziam ao sabor dos ritmos e das canções obrigavam-me a deslocar-me com eles de um lado para o outro, sempre aos tropeções. Fiz uma completa figura de parvo, só porque não quis trocar as calças por uma tanga. Havia de ser agora!

Apesar da triste figura que fiz, nunca ninguém, em momento algum, se riu de mim. Fazendo jus à proverbial hospitalidade africana, aquele povo acolheu-me no seu seio de braços abertos e tratou-me exactamente como se eu fosse um seu membro. Enquanto "dancei", senti-me parte integrante daquele povo e daquela terra, como se tivesse ali nascido e sempre tivesse ali vivido, no meio daquela gente. Eu senti África, eu vivi África, eu vibrei África, eu fui África por uma noite.

Nunca mais me aproximei tanto de um batuque. Limitava-se a observar um pouco de longe, com receio de que me voltassem a convidar e que eu voltasse a fazer uma triste figura. Ora diz lá: sou mesmo parvo, não sou?

De resto, adormeci muitas vezes em Angola ao som dos tambores tocados num batuque a realizar-se algures. É claro que um batuque é o oposto de uma canção de embalar. Os seus ritmos nervosos não deixam uma pessoa dormir, mas eu gostava que eles não me deixassem dormir e ficava a ouvi-los pela noite fora, trazidos pelo vento à mistura com o canto das cigarras, até que o sono me vencia.

26-03-2006 22:34  
Blogger Phwo disse...

Pedro F.,
Sim, é possível gostar de Angola. O difícil é saber que parte do nosso coração lhe dedicar.
Obrigada pela visita.

Salucombo,
Tanto os olhos como as máquinas são falíveis, de facto. Mas, ainda assim, as máquinas permitem-nos esta partilha visual que os olhos apenas ajudariam a verbalizar ou a escrever.
(Não será um ataque de sono uma situação parecida com "low battery"?). Um abraço. Volta sempre.

Fifer,
Produzir "grande arte", significa perpetuar-se no tempo. Beijo para ti.

Denudado,
Obrigada por teres partilhado conosco tão belo relato.
Não, não fizeste nenhuma "figura triste". Se foste autêntico, foste tu. Assim mesmo, como a tua cultura te ensinou a fazer. E soubeste aceitar, o melhor que pudeste, o que te ofereciam. E fruiste! Foi gratificante; logo, o que importa se a roupa não era adequada se te pudeste sentir "possuído" pelo que te rodeava?

27-03-2006 10:21  
Anonymous Mazungue disse...

PWO, ainda bem que soubeste lidar com a situação da filmagem. Valeu bem a pena. Ficamos todos gratos pela partilha.
Thanks!
Mazungue

29-03-2006 17:51  
Blogger Phwo disse...

Mazungue,
Obrigada por me teres "emprestado" o teu servidor para alojar o clip.
;-)

29-03-2006 19:18  
Anonymous Mazungue disse...

Pwo, O prazer foi todo meu e o Mazungue estará sempre disponível para projectos desta importância. Essa foi a ideia quando o Site foi criado. Obrigado pela oportunidade. TA

31-03-2006 4:25  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

Só agora me apercebi do clip...
O QUE MAIS ME IMPRESSIONA É PERCEBER QUE AINDA HÁ 'DISTO'.

FABULOSO!

(Lwena-cidade?)

06-04-2006 18:51  
Blogger Phwo disse...

Apesar das transformações políticas, sociais e culturais verificadas em Angola, algumas estruturas da sociedade tradicional (a nível do meio rural) ainda se mantêm.
Nesses enquadramentos é possível encontrar-se determinadas manifestações culturais que conservam ainda padrões antigos.
Quanto ao Lwena, neste caso, sim; trata-se da cidade do Lwena. Mas poderia também ser povo lwena (ou luvale) ou o rio Lwena.

06-04-2006 20:28  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

Estiveste então lá... quem me dera!
"Conheci" o povo Luena e o rio. A cidade também; chamava-se Luso, como sabes.
De tudo isso guardo um chapéu que o soba ??? (miseravelmente, esqueci-me do nome) me deu, no dia seguinte à despedida, depois de me ter convidado a dormir em sua casa, numa aldeia perdida a sul de Léua.
Meu drama - DOIS!
1 não ter fruta para comer na manhã seguinte; só água e restos do frango 'de ontem'
2 a chegada inesperada, já dentro da noite, de uma rapariga que me pareceu, no semi-escuro do quarto de cama de paus, uma das suas quatro mulheres; a mando seu, decerto...
(ACHAS POSSÍVEL!?)
Dormi no chão, numa esteira; receando que fosse tido por ofensa se se soubesse...
Um 3º drama agendado não o foi - o interprete pisgou-se e eu passei cerca de uma hora a falar português com um homem com idade para ser meu pai e que só falava Lwena!
Coisas mágicas...

06-04-2006 22:39  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

( ... a rapariga dormiu na cama de paus e saiu, de madrugada. sem uma palavra.)
A dúvida restante é acerca do chapéu -alguém me disse que um soba (aqui umacerta imprecisão...) chokwe ou lwena aparecer 'em público' sem nada na cabeça equivaleria a "qualquer coisa como a rainha de Inglaterra aparecer na cerimónia de abertura do Parlamento em cuecas"!

06-04-2006 22:49  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

Seria?

06-04-2006 22:50  
Blogger Phwo disse...

Seria... chapéu ou cipangula?

07-04-2006 20:18  
Blogger -pirata-vermelho- disse...

Um chapéu de feltro cinzento, incaracterístico; com uma fita de couro à volta da base da copa e uma outra para passar por debaixo do queixo, também em couro.

07-04-2006 23:49  

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