Quinta-feira, Março 02, 2006

Era Abril de 2005

Ía todos os dias ao Museu Nacional de Antropologia, em Luanda. Lá trabalha o David. Nasceu Cokwe . É mais velho mas respeita muito o meu trabalho. Acredita em mim e confia-me os segredos da Mukanda. Acha graça quando eu o surpreendo com «coisas que aprendi nos livros» e com as palavras e nomes que tento pronunciar,
o melhor que sei, na língua dele.
Yá... é ele, o Mwa Mudiandu, que me conduz pela galeria das máscaras falando-me delas, da simbologia, das cores, das formas, dos materiais, das texturas e mostrando-me com orgulho as inscrições que ditou para as placas de identificação. É ele que me conta sobre as verdades, as mentiras, os medos; sobre o feiticeiro - nganga , o adivinho - tahi e o curandeiro - sambuki . É ele que, com
a sua simplicidade, me ensina sem mo dizer, que a minha graduação seria impossível sem ele, sem o Kavula, sem o Kwononoka... sem todos aqueles que sabem por viver ou ter vivido, de verdade, aquilo que nós, os das Universidades, queremos provar em teses e artigos científicos, verdadeiros amontoados de letras em palavras rebuscadas.

Absorvo cada palavra, cada gesto dele, o gravador ligado com a pequena cassete que nem reparo quando o estalido assinala o fim da fita. E assim... a tarde fica escura. Já são seis e meia.
Um dia disseram-me para não apertar a mão a ninguém. «Por precaução, nunca se sabe!... O vírus Marburg é mortal. É melhor usares alcoól para desinfectar.»
Naquela tarde, quando cheguei ao Museu, o David esperava-me no pátio. Estendeu-me as duas mãos, uma sobre a outra em posição perpendicular (sem se tocarem no espaço reservado à minha mão que ele nem repara diferente); o seu gesto habitual de respeito aprendido na tradição. Não tive coragem de pensar no vírus. Deixei-me cumprimentar, como habitualmente, pelo meu amigo de há muito tempo. Não limpei as mãos com álcool.
Sobre os Tucokwe , ele sabe (quase) tudo.
Sobre o vírus, apenas sabemos que mata.

3 Comentários:

Anonymous Bruno disse...

Como tu mexes connosco, jovem (mwana) mulher (pwo).
Como nos abanas com as tuas palavras e a tua forma de ser que aos poucos vais desvelando através das palavras que te fluem naturalmente organizadas mas cuidadosamente escolhidas.
Obrigado.

02-03-2006 7:52  
Blogger CN disse...

pensaste sim... ou não terias escrito este belo conto. pensaste, mas tiveste pudor em ofender o mais velho. e fizeste bem... muito bem. beijos.

03-03-2006 15:56  
Blogger Phwo disse...

Pensei sim, senhor; de contrário não teria dito (escrito) "não tive coragem de pensar...", mas tavez: "Não pensei" ou "nem me lembrei de pensar" ou qualquer outra mentira descarada.
Bjs p ti tb.
:-)

03-03-2006 23:59  

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