Era Abril de 2005
Ía todos os dias ao Museu Nacional de Antropologia, em Luanda. Lá trabalha o David. Nasceu Cokwe . É mais velho mas respeita muito o meu trabalho. Acredita em mim e confia-me os segredos da Mukanda. Acha graça quando eu o surpreendo com «coisas que aprendi nos livros» e com as palavras e nomes que tento pronunciar,
o melhor que sei, na língua dele.
Yá... é ele, o Mwa Mudiandu, que me conduz pela galeria das máscaras falando-me delas, da simbologia, das cores, das formas, dos materiais, das texturas e mostrando-me com orgulho as inscrições que ditou para as placas de identificação. É ele que me conta sobre as verdades, as mentiras, os medos; sobre o feiticeiro - nganga , o adivinho - tahi e o curandeiro - sambuki . É ele que, com
a sua simplicidade, me ensina sem mo dizer, que a minha graduação seria impossível sem ele, sem o Kavula, sem o Kwononoka... sem todos aqueles que sabem por viver ou ter vivido, de verdade, aquilo que nós, os das Universidades, queremos provar em teses e artigos científicos, verdadeiros amontoados de letras em palavras rebuscadas.

Absorvo cada palavra, cada gesto dele, o gravador ligado com a pequena cassete que nem reparo quando o estalido assinala o fim da fita. E assim... a tarde fica escura. Já são seis e meia.
Um dia disseram-me para não apertar a mão a ninguém. «Por precaução, nunca se sabe!... O vírus Marburg é mortal. É melhor usares alcoól para desinfectar.»
Naquela tarde, quando cheguei ao Museu, o David esperava-me no pátio. Estendeu-me as duas mãos, uma sobre a outra em posição perpendicular (sem se tocarem no espaço reservado à minha mão que ele nem repara diferente); o seu gesto habitual de respeito aprendido na tradição. Não tive coragem de pensar no vírus. Deixei-me cumprimentar, como habitualmente, pelo meu amigo de há muito tempo. Não limpei as mãos com álcool.
Sobre os Tucokwe , ele sabe (quase) tudo.
Sobre o vírus, apenas sabemos que mata.
o melhor que sei, na língua dele.
Yá... é ele, o Mwa Mudiandu, que me conduz pela galeria das máscaras falando-me delas, da simbologia, das cores, das formas, dos materiais, das texturas e mostrando-me com orgulho as inscrições que ditou para as placas de identificação. É ele que me conta sobre as verdades, as mentiras, os medos; sobre o feiticeiro - nganga , o adivinho - tahi e o curandeiro - sambuki . É ele que, com
a sua simplicidade, me ensina sem mo dizer, que a minha graduação seria impossível sem ele, sem o Kavula, sem o Kwononoka... sem todos aqueles que sabem por viver ou ter vivido, de verdade, aquilo que nós, os das Universidades, queremos provar em teses e artigos científicos, verdadeiros amontoados de letras em palavras rebuscadas.

Absorvo cada palavra, cada gesto dele, o gravador ligado com a pequena cassete que nem reparo quando o estalido assinala o fim da fita. E assim... a tarde fica escura. Já são seis e meia.
Um dia disseram-me para não apertar a mão a ninguém. «Por precaução, nunca se sabe!... O vírus Marburg é mortal. É melhor usares alcoól para desinfectar.»
Naquela tarde, quando cheguei ao Museu, o David esperava-me no pátio. Estendeu-me as duas mãos, uma sobre a outra em posição perpendicular (sem se tocarem no espaço reservado à minha mão que ele nem repara diferente); o seu gesto habitual de respeito aprendido na tradição. Não tive coragem de pensar no vírus. Deixei-me cumprimentar, como habitualmente, pelo meu amigo de há muito tempo. Não limpei as mãos com álcool.
Sobre os Tucokwe , ele sabe (quase) tudo.
Sobre o vírus, apenas sabemos que mata.





3 Comentários:
Como tu mexes connosco, jovem (mwana) mulher (pwo).
Como nos abanas com as tuas palavras e a tua forma de ser que aos poucos vais desvelando através das palavras que te fluem naturalmente organizadas mas cuidadosamente escolhidas.
Obrigado.
pensaste sim... ou não terias escrito este belo conto. pensaste, mas tiveste pudor em ofender o mais velho. e fizeste bem... muito bem. beijos.
Pensei sim, senhor; de contrário não teria dito (escrito) "não tive coragem de pensar...", mas tavez: "Não pensei" ou "nem me lembrei de pensar" ou qualquer outra mentira descarada.
Bjs p ti tb.
:-)
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