Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Um momento quase efémero

Então ela (a máscara) avançou para mim. Talvez a tivesse provocado com a minha câmara, apesar da situação de informalidade em que nos encontrávamos, os dois. Eu estava na roda. Ela (a máscara) movimentava-se no centro. Acho que, de repente, me percebeu. Eu era diferente de todos e o meu cabelo brilhava ao sol. Guardei a máquina e abandonei-me à sua reacção. Quando chegou perto, mas sem invadir o meu espaço pessoal, virou-se para o lado direito e continuou dançando, agora de costas para mim.
Não deixei de ficar aliviada pois, nunca é demais repetir que máscaras e mulheres raramente são compatíveis.
Decidi presenteá-la, como aprendi que se faz com os bailarinos mascarados que vivem da sua profissão. Aproveitaria a ocasião para a tocar, uma vontade reprimida durante anos, por proibição. Aquele era o momento do desafio (a mim própria).



Aproximei-me com o dinheiro dentro da minha mão que lhe estendi em gesto suave. O meu coração batia, mas batia muito.
... Ele agarrou a minha mão entre as suas, revestidas de duas meias pretas (nenhuma parte do corpo do mukixi pode ficar de fora).
O momento que se seguiu não sobrou para o poder reproduzir agora; Tão efémero e tão forte. Eu havia conseguido.
Recuei e ele seguiu-me, a minha mão ainda presa às suas. Depois, por breves momentos dançou só para mim.
Nunca lhe saberei o rosto, nem isso me deve preocupar. Para todos os efeitos dentro da máscara não há uma pessoa, pois ela representa o espírito de um antepassado.
E apesar da modernidade e de alguma desmistificação, como ainda é forte esse poder!

6 Comentários:

Anonymous Cangonja disse...

Mais uma vez, conseguiste que uma teimosa lágrima deslizasse pelo canto dos meus olhos!
Bjs

14-02-2006 15:27  
Anonymous Fifer disse...

Olha, não sei o que dizer. Talvez fique no meu canto a pensar e à espera de mais novidades. Um bj.

14-02-2006 20:09  
Blogger Paulo Raposo disse...

E pronto. Este foi o meu primeiro roubo virtual quase perfeito...está a flutuar no meu blog por detras da máscara (personare). até já.

14-02-2006 23:00  
Blogger Phwo disse...

Quase? Eu diria... um bom começo.
:-)

15-02-2006 3:28  
Blogger Nelsinho disse...

Tal como a Gonja, eu me emocionei,

Tal como o Fifer, não tenho palavras...

Vou então ficar em silêncio.

Te adoro Pwo

Nelsinho

16-02-2006 8:33  
Blogger Paulo Raposo disse...

Ainda sobre momentos efémeros e máscaras inesperadas...
acabei de ver as imagens de mwana pwo, agora a bailarina, estou enfeitiçado obviamente mas o que queria saber é mais complexo do que aparenta ser: como conseguiste usar uma máscara destas? ou esta máscara é feita especialmente para o espectáculo? imediatamente me veio à cabeça uma frase da Adriana Calcanhoto num dos seus concertos tocando um surdo (tambor) de uma escola de samba (mangueira salvo erro): provavelmente fiz este concerto apenas para poder tocar isto! (uma vez que os tambores são interditos a mulheres nas escolas de samba).
Como nasceu então mwana pwo?
talvez excessivo para uma pergunta virtual.

19-02-2006 22:47  

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