Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

Obrigada, Maleka!

... No dia em que cheguei, alguém me apresentou o Maleka José: "- Este homem é que sabe das danças daqui. Domina tudo." Olhei para ele, pouco mais alto que eu; trazia um chapéu de palha, embora o tempo ameaçasse chuva. Cumprimentei-o e prometeu-me que me levaria onde eu quisesse para encontrar o que eu procurava. No trajecto para o almoço perdi-o e, quando lhe ligava para o telemóvel, ouvi do outro lado: "- Estou aqui."
(Noutras ocasiões comprovei a sua capacidade de aparecer sempre que era preciso, mas sempre sem se fazer notar. Aprendera na Mukanda a andar sem fazer barulho para não assustar a caça.)
Maleka era um homem atraente pelo que sabia e pela forma como se impunha no grupo. Dançava bem e tocava kuíta. "- Passei 1 ano e meio na tradição!" dizia-me, orgulhoso, sempre que me sentia alguma desconfiança. Um verdadeiro chefe tradicional, sem o ser, de facto.
Maleka
Pela sua mão fui integrada no grupo Kalofulofu Wino wa Matemba. Naquela tarde chovia. Muito. Fora e dentro do Cine Lwena. Mas nada impediu a sessão. A sala apresentava-se desoladora. As escassas cadeiras que haviam resistido estavam desventradas, com o recheio amarelo a aparecer, esfarelado pelo tempo e pelos maus tratos. As placas do tecto balançavam com o vento, embora logo tenha esquecido o medo de me cairem em cima.
Do écran, apenas sobrara a estrutura metálica; das colunas, apenas as enormes caixas de madeira restavam, por onde a chuva escorria agora em cascata. Mas sem inundar o palco, pois deslizava mansa e obediente pelas escadas laterais vermelhas, de cimento.
Segui o cheiro a fumo. Lourenço estava a aquecer os tambores enquanto o resto do grupo se vestia e fazia as pinturas no corpo, para que eu os visse no seu melhor.
"- Assim... 'tás a aquecer os batuques p'ra quê?" perguntei, sabendo de antemão a resposta. "- Ca Kwimba!...", respondeu-me.
De repente, esqueci-me do meu trabalho de "investigadora". A frieza de estar num teatro convencional acabara também. Rapidamente o palco se transformou no lwanzo da aldeia. Tudo à volta desapareceu. Só a chuva permanecia, morna.
Maleka mandou que me "ataviassem" e dois homens abeiraram-se de mim colocando-me a mulamba e o muyia. Ordenou ainda que me pusessem o cinto (muyia) maior, para que eu sentisse o peso daquele adereço fundamental da dança Ciyanda. Todos acharam que me iria aleijar, mas eu fiz questão de aceitar o desafio.
Os tambores estavam prontos. David colocou o seu muiya e posicionou-se do meu lado direito.
Começámos. Maleka, em tom determinado, dava as Mianda (sing. Mwanda) ou as ordens obrigatórias. O grupo acompanhava cantando e batendo palmas. Sorriam, num misto de curiosidade e satisfação.
Não parei de dançar, seguindo sempre o David que, atento aos meus movimentos, atendia também aos akwa ngoma (tocadores de tambor) os quais, por sua vez, ouviam o "chefe".

... Quando tive coragem de perguntar como me tinha saído, olhei atentamente para os olhos de Maleka José, para o ouvir melhor: "- Você foi bem, sim senhora. Já és quase uma kacokwe!" O sorriso dele era bonito.

Foi o momento mais feliz da minha estadia pelas terras do Moxico, antes de encontrar, no último dia, a cumplicidade das "mamãs" do grupo Wino wa Cikota.
(Talvez vos venha a contar...)

8 Comentários:

Anonymous fifer disse...

Aiué. Conta mana Pwo. Conta. E eu que vivi quase 2 anos nesse lindo Moxico, no Luau, e nunca me contaram essas histórias lindas. Será que havia uma bailarina tão bela como tu?

07-02-2006 20:50  
Anonymous Cangonja disse...

Tocada pelo respeito carinhoso! Poderia também dizer que estás a tornar-te kacokwe?
Bjs, Mwana Pwo!

08-02-2006 2:24  
Blogger Phwo disse...

Como gostaria, querida Cangonja. Sinto-me perto. Um dia, quem sabe...
Bj.

08-02-2006 2:24  
Blogger Phwo disse...

Que sei eu, Fifer!
Bj.

08-02-2006 2:26  
Anonymous Armanda disse...

Pwo

Sabe tão bem ler o que aqui deixas...despertas o carinho e orgulho pela nossa cultura que alguns de nós tão pouco conhecemos ficando-nos por estes momentos de prazer.
Bigada por esse despertar
Beijo
Armanda

08-02-2006 11:19  
Blogger Phwo disse...

Armanda: Gostei que tenhas gostado. Bj.

08-02-2006 12:19  
Blogger Nelsinho disse...

...E sorriso de Kacokwe, mesmo com os dentes afiados em ponta, é bonito!...

Te ado mana Pwo!

Nelsinho

11-02-2006 20:54  
Blogger Phwo disse...

Obrigada, Nelsinho, por desviares sempre a rota do teu peixe de aço, conduzindo-o até aqui.

16-02-2006 5:21  

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