Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

Arte? A que preço?

Nkisi Kongo

Peças como esta, não pensadas para ser "arte" não o eram [arte], de facto, até há algumas dezenas de anos atrás. Para tal, tiveram de ser arrancadas das suas origens em processos que se distinguiram pela violência. Seguidamente, elas eram esvaziadas da sua essência ao serem-lhes tirados o seu nome, o seu significado original, a sua identidade e a sua função.
Identificadas como "fetiches", "objectos de fertilidade" ou "figuras de antepassados" passam a estar expostas em museus como representantes da genericamente intitulada "arte Africana".

Porque está relacionado com este assunto, não deixem de dar uma olhada à apresentação do filme "FANG: an Epic Journey" realizado por Susan Vogel.

Também podem ver o trailler do filme.

10 Comentários:

Blogger Paulo Raposo disse...

Impressionante e irónico.
Em tempos escrevi um artigo sobre esta temática da "arte primitiva" e dos seus destinos e representações no art world ocidental e na academia. Gostaria de te enviar um dia (mas n sei como te fazer chegar). Mas este filme deixou-me absolutamente deliciado com a sua eficácia narrativa. Uma vez mais obrigado.

24-02-2006 12:36  
Blogger CN disse...

toda a representação é arte. os utensílios utilizados por aqueles que invocavam deuses e forças ocultas, quer na magia, quer no tratamento de doenças, são arte nesse sentido de representação, de mediação entre o homem e entidades supremas. nesse sentido, sempre foram arte.

24-02-2006 13:15  
Blogger Phwo disse...

Apesar de ser nítido o investimento estético por parte dos autores destas peças, não terá o conceito de "Arte" sido uma invenção do ocidente?
Então, será que para serem constituidos arte, estes objectos africanos não terão de ser separados do seu significado original (essência) e do discurso antropológico?
Abraço

24-02-2006 22:59  
Blogger CN disse...

arte: aplicação do saber à obtenção de resultados práticos; conjunto de processos mais ou menos ordenados para atingir um fim; actividade que acrescenta algo à natureza; actividade de produção de coisas belas; ofício; profissão; habilidade; talento; técnica; dom; astúcia...
escolhe PWO, qual queres? qualquer uma destas definições se aplica aos artesãos que fabricaram os utensílios, as máscaras, as roupas de que falas. Não achas?

24-02-2006 23:57  
Blogger Phwo disse...

Carlos,
Excluindo "actividade de produção de coisas belas" e, talvez (com bastantes reservas) "dom", todas as outras "definições" se aplicariam a qualquer outra actividade humana e não exclusivamente à arte. Mas, ainda assim tenho dúvidas em relação a "coisas belas" pois, para além de poder não ser artista para as produzir, há a discussão à volta do que é... "o belo".
No entanto, a resposta à tua segunda pergunta é: sim, acho. (Mas teria sempre umas reticências para "negociar");-)
Bons interlocutores estimulam uma boa discussão, mas... eu tenho esta mania de estar sempre a questionar.
Não é por mal, é "feitio" mesmo. :-))
Abraço

25-02-2006 1:42  
Blogger Paulo Raposo disse...

Uma faísca mais para re-atear a fogueira.
Ceci n'est pas....
O paradoxo que a obra de Magritte introduz entre o modelo real e o "modelo reduzido" da pintura torna-se, em meu entender, paradigma na definição de objecto artístico, i.e., na delimitação da intenção estética que fornece a qualidade de conhecimento investida na obra de arte. Desta forma, e recolocando a cena no quadro da antropologia, o modo pelo qual a arte vulgo denominada, primitiva, foi, por assim dizer, "descoberta" - no sentido de reconhecida - pelo Ocidente, ou melhor, pelos artistas modernistas num primeiro momento, e só posteriormente pelos antropólogos, e de como esse processo se assemelhou, de uma forma particular, ao trajecto e às sequências interpretativas que o Ocidente fez das sociedades e da mentalidade primitiva, para usar a frágil terminologia de Lucien Lévi-Bruhl (1922), lança-nos definitivamente numa viagem que nos conduz do "Selvagem" ao "Bom Selvagem" e finalemente até ao "Belo Selvagem". Signe Howell (1991) dizia a esse propósito que "as ideias acerca do primitivo são produtos do pensamento ocidental, satisfazendo necessidades particulares da sua ideologia, (...) elas falam-nos mais sobre nós mesmos do que sobre as populações primitivas que supostamente se propõem explicar". Não será também esse o caso da Arte(primitiva)?

25-02-2006 2:13  
Blogger Phwo disse...

«"as ideias acerca do primitivo são produtos do pensamento ocidental, satisfazendo necessidades particulares da sua ideologia, (...) elas falam-nos mais sobre nós mesmos do que sobre as populações primitivas que supostamente se propõem explicar".

Não será também esse o caso da Arte(primitiva)?»

Paulo,
Para ti a resposta também é: sim, claro. (mas também com algumas "questõezinhas", pois esta é apenas a minha opinião). :-)
Felizmente na actual produção "científica" (académica)já se vai notando a atenção à interpretação dos fenómenos com base nos sistemas de valores e esquemas sociais dos grupos "em estudo".

Nota: Agora fiquei com mais interesse em ler o resto do teu artigo. Vou arranjar forma de o obter. ;-)

Obrigada pela "faísca", pois sem uma boa fogueira, não há uma boa prosa.

25-02-2006 3:10  
Anonymous Maimuna disse...

Sabendo a partida que não acrescentarei nada à vossa já terminada discussão, apeteceu-me deixar uma curta linha que reflicta a minha humilde opinião acerca da questão.
A magia e a arte não se cruzam; depois de estéril, qualquer estatua ou amuleto poderá ser identificado ou rotulado de arte. Porem, tal como para o peregrino, é no caminho que reside toda a realização espiritual (e não no local para o qual se dirigem), assim também na magia é no executar da peça que se manifesta e realiza a intenção.
Assim sendo não creio ser disparatado admirar essas peças em museus e até mesmo chamar-lhes arte, porém a sua essência e significado já ali nao habitam. São representações estéreis, "coisa de ocidental".
Concordo com o post da Sra. PWO.

25-02-2006 14:58  
Blogger Phwo disse...

Bem-vindo maimuna!
Há uma frase interessante que vou aqui deixar:
- Nem toda a arte é mágica, nem toda a magia é arte. (W. MacGaffey)

27-02-2006 7:37  
Blogger CN disse...

acho que uma discussão nunca está terminada... assim, deixem-me dizer que tenho em casa uma estatueta antiga, muito antiga, que trouxe do Congo, foi-me dada por um feiticeiro Azande. A estatueta representa uma mulher e julgo que era utilizada em rituais de fertilidade. Agora, ela só está "estéril", utilizando a palavra da Maimuna (sempre gostei deste nome...) porque eu não acredito nos poderes da boneca. Só por isso, caso contrário a boneca continuaria forte. Não é por estar em minha casa, ou na prateleira de um museu. É pelo modo como eu olho para ela. Isto é, sou eu que a torno ineficaz. Se, porventura, um dia a devolver ao antigo proprietário, a boneca voltaria à sua força.Porque voltariam a acreditar nela...

27-02-2006 13:12  

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