A transparência pode ser imprudente, mas é isenta - I
O amor é cego, diz-se...
E é...
Angola continua a ter o mesmo pôr do sol com as cores mais belas do mundo, as mesmas praias imensas com água tépida, os mesmos rios com as quedas de água mais imponentes alguma vez vistas; tudo como revelam as saudades daqueles que há 30 anos retornaram a Portugal vindos das colónias em África.
Angola ganhou a sua independência e todos os que lutaram por ela gostamos de perceber o nosso país soberano. Mas, se os marinheiros são bons, o mesmo não se pode dizer dos timoneiros. E os grandes abutres à espreita, do lado de fora das nossas fronteiras, são mais que muitos.
Angola continua a ser o país dos sonhos de muitos: dos que nunca mais lá voltaram, dos que vivem à custa da corrupção e da extorsão... e de outros.
Mas em Angola existe uma camada que continua a acreditar em ideais de justiça. Entre esses estão os intelectuais. Mas os antigos, os meus mentores, que ainda andam a pé, que ainda escrevem, desenham e cantam melodias de revolta; que abandonam ou se abandonam ao país por não haver lugar para eles... Alguns ainda transportam a garrafa de gás pelas escadas acima até ao apartamento no 5º andar. Ainda há aqueles que, «no outro tempo» pertenciam à tal burguesia, mas optaram por ficar, por se entregar, por se esvaziar à procura da quimera e que, de repente, percebem que ninguém dá mais conta que eles existem. Desses, alguns «enfiam cervejas pela goela abaixo», mas para esquecer. Alguns estão doentes. Pobres amigos... Cirrose, dizem. Trombose também. E ainda assim, os nossos olhos brilham de esperança.















