Domingo, Fevereiro 27, 2005

Textos que Sobraram 8 - A Propósito de «Perfeição

Mutilado Miúdo de rua
Foto de Rui Tavares ©

Existem pessoas perfeitas? Par mim, sim.
São aquelas que eu gosto, mas que gosto bué. E não tem nada a ver com aquela «dika» do Quem feio ama bonito lhe parece. Nada! É que a perfeição, assim como tudo, não existe de forma absoluta. Portanto, cada um a inventa com o coração de ver aqueles que gosta. E é lícito.
Desejamos pobres, ricos, delinquentes, inocentes, novos, velhos e mais ou menos. Amamos os «reaças», os progressistas, os chorões, os radicais, os modernassos... os do «Eme» ou os do «nosso galo voa».
Tenho amigos perfeitos, porque os atinjo e me atingem a mim. Porque os elegi a eles e não a outros.
Porque têm a capacidade de mudar em mim e dão-me a oportunidade de mudar neles.
Será que todos somos perfeitos, então?
Neste prisma, yá; pois quantas vezes os valores dependem não de padrões pré-definidos, mas dos olhos que nos sentem e das mãos que tacteiam o nosso íntimo?

Am I right? (Para mim, sim.)

Sábado, Fevereiro 26, 2005

Lá está ela outra vez...

Yá, porque ela é feita de fogo de vulcão e de pele.
Não de neve e de rusticidade recôndita.
Ela é delicada...
Ele faz questão de ser imoderado.
Assim se defende. Assim se escusa; Na «bestialidade».
Assim é feliz... O calhau.
Não sabe arriscar e só sonha quando come.
No essencial..., age como um temente a Deus
No resto... Manobra de forma atabalhoada e sub-reptícia. Mente.
Coitado: o calhau vai-se revelando em cada lua que passa.
Cuidado, pá! Resvalas sem retorno.

Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

Diálogo (ao pôr do sol) sobre um pequeno grande nada

Fortaleza em Luanda

- Estúpido, o homem dos óculos não tem escrúpulos. É egoísta e descuidado nas palavras. Não pede desculpas, o «orgulhoso».
- Orgulhoso? Mas... de quê? De ser triste por não saber reconhecer quando erra?
- Sim...
- Mas então devia ser... «tótó»!
- Yá!... E faz sentido. Muitas vezes é tótó e «dahhhh», também.

- Gosto do pôr do sol na fortaleza... Olha para o mar e esquece o homem feio.
- Está bem... vou afogá-lo no mar.

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005

Textos que Sobraram 7 - Branco, cinzento e amarelo

Hoje madruguei. Estava incompleta. Pensava em alguém que há muito não via.
Deambulei a água pelo rosto e salpiquei o espelho de vontade de me sentar nos seus joelhos a ouvir aquelas estórias sobre a estrada das estrelas... Ou outras quaisquer.
Rapidamente - tanto quanto me é permitido a esta hora - olhei para a porta e pensei premir o botão de abrir. Esperaria alguns segundos e olharia de novo para o relógio.
...Estava em branco... O tempo tinha sido desviado pelo mar.
Escutei o ranger da porta virtual e o cinzento desceu. Havia nevoeiro e uma cortina de palidez passeou-se pelos meus ombros.
Eu.
Levava flores... Para quê? Preferi não acreditar na resposta.
De dentro do meu avesso saiu o medo de que o dia seguinte não quisesse encontrar novamente aquele passado, tão próximo agora.
Avancei, carregando noutra tecla. Vazio, o estojo de cumprimentos. Olhei as pétalas de dedos espalhadas no teclado. Eram amarelas... Como aqueles sorrires de ocasião.
Fechei a preocupação sob as minhas pálpebras e apertei, um por um, os botões da minha vontade.
Fui deitar-me de novo.
Hoje é mesmo outro dia...
Será?... Ou apenas mais um para estrear?

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Anónimo 4

Imagem_Movimento
Foto de Rui Tavares ©

No teu corpo peguei,
transformei em tela,
pincelei,
criei em cores garridas,
cores de África,
paisagem rica,
desertos,
longes e pertos
pintei.

Num ápice tudo apaguei,
o teu corpo ficou a descoberto.
Simplesmente corpo
Divinamente ele mesmo

(Post by Carlos C. - 24.10.2004)

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

Verde Escuro

Hoje voltei.
Hoje (re)voltei-me para o nada e projectei-me de cabeça, aos pés da cor imperatriz - o azul.
Azul de sangue, azul de vinho, azul de penas, azul de caminhos percorridos levianamente por terrenos ladrilhados com gentes de todas as formas.
Formas de guerra, formas de agiotas, formas ideais, formas de ditador, formas e mais formas de beatas, ateus e cépticos.
Dentro dos porões de vidro, o estilhaçar de mentes aguadas dá ao silêncio uma pureza única. Ideal... (Idílica?)
No quadro de cortiça a fotografia irritante de um sobrevivente de Dachau. O cabelo às mechas espreitando numa cabeça branca com peladas e os olhos vazios e escuros, de fome, aumentam a feiura agressiva de um rosto antecipadamente envelhecido. Porque não passar-lhe um pó de arroz? Ou mesmo uma borracha... pelas ventas?
Já agora, só faltava ser esquelético e não ter força num bracito!!!
De imagens miseráveis estamos todos cansados, não é?!!!
... Azul de ricos, azul de petróleo, azul de idiotas, azul de misses... divinas criaturas em forma de barbies para todas as fantasias e de todas as cores. Menos de azul, que é a cor dos mortos e dos cabelos de uma mulher que vi na televisão.
E eu que gostava tanto da cor azul...

Anónimo 3

Modelo

Corpo escultural.
Corpo em forma.
Forma de corpo.

Corpo esguío.
Corpo parado.
Corpo em movimento.
Obesamente corpo.
Abulimiamente corpo.
Corpo tatuado
Corpo despido
Corpo.

Simplesmente corpo!

(Posted by Carlos C. - 14.10.2004)

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

Textos que Sobraram 6 - Ainda as Misses - Resposta

Cheguei há pouco tempo, mas já me pude aperceber que, frequentemente, as repostas entre os membros deste site são inspiradas por um "rancorzinho" e uma necessidade de "atacar", mesmo que não tenha havido provocação. Sinto-o quase como uma espécie de reacção instintiva vinda de quem se vê necessariamente "atingido" e obrigado a responder "à letra".
Aliás, já reparei nas chamadas de atenção, nos apelos à tolerância e mesmo o encerramento de alguns fios. (Não havia mesmo "nexexidade"...).
Apesar de às vezes se ensaiar alguma diplomacia, deixa-se sempre escapar um "rabo escaldado", quantas vezes por pura sugestão.
Mas a impossibilidade de estarmos a falar ao vivo tem estas coisas: não podemos interromper-nos para aclarar os nossos pontos de vista, não podemos controlar as nossas e as reacções dos nossos interlocutores, não podemos ter a resposta imediata antes de retorquir e, principalmente, não nos conhecemos, de facto. Por isso... tudo bem .

É verdade que não podemos preocupar-nos apenas com a desgraça e com os que sofrem; e é verdade que o país não pode parar ou/e entregar-se ao desalento. Mas podemos pensar no progresso, no lazer, na nossa inclusão no mundo, sem ofender aqueles que realmente em Angola sofrem.
Porque não um maior investimento em actividades desportivas, recreativas, artísticas ou culturais, por exemplo (excluo à partida os concursos de "meninas").
Porque não direccionar essas verbas para o incentivo de músicos, actores, escritores ou bailarinos que, também mediáticos, têm acesso à imprensa para colaborar em todas as campanhas necessárias. E estes, certamente mais inteligentes e com objectivos de vida mais consistentes que as "meninas" que não são, insisto, representantes da mulher angolana, sobretudo no que toca à inteligência.
Falando com conhecimento de causa, gostaria de vos revelar que as respostas "inteligentes" às questões que lhes são postas em público, são previamente decoradas, cabendo-lhes apenas o "grande esforço" de se lembrarem das correspondências (o que no último concurso, por exemplo, falhou com uma ou duas, perante os olhares atónitos da assistência, que não queria acreditar na falta de "cultura geral" da candidata, tão flagrante que foi o "engano"). Para não falar nas entrevistas à imprensa em que a vencedora se afirma uma mulher realizada por poder "aparecer na televisão, nas festas e tornar-se uma figura pública".
É muito pouco, para se ser Mulher! Mas, e porque já nos desviámos mesmo da nossa linha (ou fio), percebo que embora haja fome, não deixamos de comer (é uma necessidade biológica e um instinto de sobrevivência). Percebo também que da sua vida, do seu dinheiro cada um faz o que quer.
Mas assistir à cumplicidade e apoio institucional a eventos que não acrescentam nada (yá..., para que serve uma miss?), em vez de se aplicar, como acima referi em realizações que elevem e beneficiem realmente as pessoas, isso, em minha opinião, continua a parecer-me "um bocadinho mal".
Sobre a visibilidade... em Angola, essas mulheres vítimas da guerra, SÃO visíveis. É verdade, que o seu lugar deveria ser "na consciência iluminada, esta sim, muito iluminada, das pessoas atentas e preocupadas com os devaneios e egoísmos da Humanidade". Mas cá, elas deambulam pelas ruas, pedem nos semáforos segurando o filho com o braço que lhe restou, arrastam-se mesmo ali no passeio onde só um cego não notaria a falta das suas duas pernas (que imperfeitinha, que ela é!).
Cá, essa consciência parece demorar e, para mim, é um devaneio e um egoísmo investir-se em concursos dessa índole...
Já temos o Prémio Nacional de Artes, vários Prémios de Artes Plásticas e de Literatura. Mas não chega. São precisos concertos ao vivo, recuperar os Centros de Rebita e de Recreação nos bairros, promover actividades lúdicas nos campos de refugiados...
Realmente..., onde estaria eu com a cabeça quando sugeri o tal par de óculos?

Textos que Sobraram 5 - Miss Angola

Uma verdadeira perda de tempo, esta "temátika".
Mulheres!!!! Dirão os homens...Pois...
Bem entendendo que, sendo daquelas coisas que nos países ditos "desenvolvidos" até faz parte da engrenagem, em Angola parece um "bocadinho" mal, não?
Para além de nunca ser eleita a verdadeira (e ela existe?) representante da beleza, da inteligência e de todas as outras qualidades com que se tenta "vestir" as "meninas", há sempre outras misses em quem reparar; aquelas que a guerra deixou mais "imperfeitas" e que poderiam voltar a ver-se ao espelho sem se acharem "incompletas, se os "investimentos monetários" não se esbanjassem em futilidades.
Essas sim! Essas são, senão as grandes, uma importante parcela das verdadeiras representantes da mulher angolana.
Exageros!!! Dirão...
Pois... Simples pontos de vista.
Um par daqueles óculos especiais para todos

Domingo, Fevereiro 13, 2005

Anónimo 2

Gaara - Kenya

DANÇA

Céu estrelado
Lua cheia
penumbra num palco vazio.

Musica acústica
ritmo quente
num balanceado que se espraia.

Três corpos
semivestidos
dançam como se fossem vento.

Braços
corposmovimentos assimétricos
enlouquecedores
tórridos
sensuais
Dança!

(Posted by Carlos C. - 04.02.05)

Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

Anónimo 1

De Costas

Sigo o curso do corpo
forma de rio
suave

Danço
pareço morto
no voo duma ave

Sem peso
mas com forma
levito

Tremulo de frio
danço
no corpo de
um rio
manso.

(Posted by Carlos C. - 26.01.05)

SAUDADES DAS VIDAS DE UM ANTIGAMENTE

NOTA: A série de textos que se segue é uma prova de que em alguns o colonialismo não deixou «saudades».

O «nosso tempo», o pós-dipanda, foi o tempo do partido único e dos cartões de abastecimento. E eramos felizes. Bué! Pois.... havia o sonho!...
Apeteceu-me, sei lá... tive mesmo saudades de Luanda antiga, de outros tempos. Daquela em que faltávamos às aulas para ir a praia. Ainda havia maximbombos e o bilhete era barato. Do Baleizão para a Ilha. E íamos ao cinema de tarde. Era a sessão das quinze. Ao Cine Estúdio. Ver filmes com o Alan Delon.
Lembram-se? Bué de miúdos que nós éramos, a trabalhar ao lado dos mais velhos a aprender como se fazia... Eles também a experimentarem...
Pequenas tarefas: agrafar folhetos para a alfabetização, participar nas campanhas do corte da cana-de-açúcar e de recolha do café; fazer ligaduras aos feridos que apareciam, vindos das "confrontações" entre os «Movimentos». Ficar no liceu sem estudar... Era bom. Ajudávamos a cuidar dos desalojados que enchiam parte das nossas escolas. Às vezes roubávamos uma laranja que descarregávamos das camionetes.
As campanhas de limpeza! Sábados Vermelhos! Fixe! A rua ficava a brilhar!
E no fim, sentada no muro, aproveitando o calor de encostar e sentir assim, na inocência, o pecado do corpo daquele colega que me mandava bilhetinhos. Era a sensação boa... da tarefa cumprida. E ia para casa, de vassoura na mão, a pensar nele que como eu e todos os outros, andavam empenhados na construção daquela Angola idealizada. Cresci assim e aprendi a namorar a causa, a responsabilidade, o sonho, enquanto aceitava, nas horas livres, um beijinho ou outro com sabor de sal, sem a minha mãe perceber.
Amadureci cedo nessa Angola, no meio de um bando de outros putos de várias origens, unidos por aquele projecto comum!
Tenho - mesmo - saudades de quando Angola ainda não era hoje.

Bronzeador

Quando se aproxima a época balnear, lembro-me sempre de um bronzeador que fabricávamos nessa altura em que o stock de níveas, ambre solairesé bronzalines (lembram-se deste?) já se havia esgotado.
A receita era assim: o frasco até metade, azeite (havia que "furtar" na cozinha e sair de kaxexe), metade perfume (podia ser qualquer... também, não havia escolha) e raspas de takula (para dar a cor).
Kilha, lembras-te do Valério atormentado só com a ideia do azeite? Eram épokas!!!! Angola pós-dipanda.

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

«No meio de uma maka»... sobre as nossas recordações. A lata de leite cadeira.

Leite Nido Leite klim

Prima Mafalda,
Kunforme xegamus, xtamus!!!!!!
Antão iam-nos metere fora através de ke argumentu???
Tamus mbora s'ekilibrare bem. Senão, vejas lá: a sua irmão Kilhas s'arrebenta nas maka poilitico-social e fica ainda a esparatar.
A sua prima Pwo mete lá mbora água no frevura ku ele. Vucê, nossa caçula, vais lá trazere sangue novo.
P’ra começar conta lá mbora a tua vida xcolare, sentada na lata de lete Nido, Klim ou até Plenolac.
Kontes os seus mambu pra confirmare ke passamus male, male, male, mas até kuiava na comparação com mesmo é os dias ke estamos ku ele presentemente.
Tu dô lá muxoxu ou "ósculo" de kimbundu

Desenhos animados

Teka,
De repente só me lembro do Gustavo.
E do "Stripie", lembras-te? Era aquele bicho com nariz de buzina e um companheiro gordo e "bigodudo" que, estando deitado ou de pé, as riscas estavam sempre na horizontal.

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

Koniek Filma

E os filmes da Sovexport film?
Filmes de guerra soviéticos, a preto e branco. Os vermelhos contra os brancos. Os bolcheviques contra os "mencheviques". Bué de cavalos a correr e a cair no chão. Bué de homens aos gritos e com barbas.
Lembras-te Kilha, no sofá da nossa casa, os putos todos alinhados e a Aida Freudenthal a dar-nos lições de historia depois do dito visionamento?
Eram fakatus! Embora ke não exakatos, mas eram fakatus!...
Koniek Filma.
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