Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

Ilha de Luanda

Ilha de Luanda
Nas calmas...
Sem kalemas ...
mas sempre sem calar!
Sonhar é preciso. É mal?
Não. É mar!...
(Dahhh aaah)

Expressões 2

Kilha, t'enkontrei... não xtavas!... ; - )
E estas?
Lamento : - Se é a problema ki xtamus ku ele, vamos fazer mais como, então?
Evidência : - 'Tá ver kamarada da TPA? 'Tá sair Cerelac, mas estamos na falta do leite. Anssim, não vai dar, já ke as papas trabalham kom a leite.
Discurso : "- Em Angola, dos kuatro tipo de avião ke temos, konkomitantemente são três: os de karga e os de passajêru!"
Aviso : - Batas à porta na janela!
Cumprimento : Kom'é, 'tás ótimo?

... Desculpem lá ("qualquer coisinha"), mas só mesmo o mwangolê...
Na tuga 'tão a desconseguir de nos "abrilhantar" com esta fluidez verbal...

Expressões

E esta versão?:
Mãããã si deu, embora brincadeira... não si chora!

Ou então a resposta ao pedido de desculpas:
- Desculpa...
- Msht (mxoxu), desculpa não cura ferida!

Domingo, Janeiro 30, 2005

Lembram-se?

(Em jeito de resumo - me mandaram na net...)
1. De cantar o hino nacional na entrada da escola?
2. Daquelas pastilhas do Lobito que tinham papelinhos com figuras de carros?
3. De nos dias de chuva, ir a escola e não encontrar ninguém?
4. Das BMX? e Caloi?
5. De tomar chá com açúcar castanho?
6. De ficar a ver carros bonitos a passar e gritar, "meu, meu! " ?
7. De assistir filmes dos trapalhões no cinema (quando eles ainda eram 4) ?
8. Do Zeca Diabo da novela Bem Amado?
9. E do Odorico e do sô Dirceu?
10. Do "Peça que nós transmitimos"?
11. Das gajajas e maçã da índia compradas a frente da escola?
12. De subir no pau para tirar mangas/figos da índia?
13. De sentar com os colegas no muro da escola?
14. De tomar banho na chuva?
15. Da banana que ficou amassada na pasta da escola?
16. Das músicas do ManBorró?
17. E do António Paulino?
18. Das bichas do pão?
19. Dos filmes de Ninjas e Bruce Lee?
20. Do Sítio do Pica-Pau Amarelo?
21. Do filme "A Grande Desforra"?
22. Do balão mágico?
23. De forrar os cadernos e livros?
24. Do Trinitá?
25. Da doçura do Xarope para a tosse?
26. Do programa piô piô?
27. De imitar o 'andar para trás' do Michael Jackson (quando ainda era negro)?
28. Das jajas, zolas e fisgas?
29. Do Kissuco saboroso?
30. Dos bonecos animados do Gustavo?
(Tem mais...)

E também...

31. Maria, ele gostou! Gostou, é?
32. Dos exames da Quarta classe?
33. Dos concursos de dança?
34. De ler "Quem me dera ser onda"?
e mais ....
35. Das revistas do homem Aranha?
36. Das trotinetes?
37. Do circo?
38. Da paracuca e gelado dividido com os colegas?
39. Das aulas de educação física?
40. Do programa "Prelúdio" da TPA?
41. Do fardamento da OPA?
42. Dos livros da Anita?
43. Do Aplauso Show?
44. Dos Machimbombos?
45. Das tele-estórias?
46. Da Isaura e o cão tinhoso?
47. Das festas nos quintais?
48. Mama muchacha...
49. "Xê Mulato Canga Massa vô ti firi";
50. Da caçumbula
51. Do estica, do pé de moleque, doce de coco
52. 31 de Janeiro
53. Estátua, ninguém se mexe
54. Pisa pé
55. Barra do lenço e ringue
56. Quem não leu "Bom dia Flor"
57. E "Meu amor da Rua 11"
58. Do bang bang de comer
59. De comer pão com quiteta?
60. De brincar as escondidas, garrafinha?
61. De fugir da festa para ir namorar as escondidas atrás da árvore?
62. De jogar 35 vitória
63. De gritar " meteu dibengo cor ... com atacador cor...?
64. De fazer xixi na cama?
65. De fazer birra por tudo e por nada?
66. Dos bonecos do Lobo Pateta. (esta é para o Kilha)
(ainda não acabou...)

E mais...

67. Do programa futuro da nação, onde o hoje Nuno Barriga era parte da apresentação do programa
68. Dos Chocolates (grupo de dança)
69. Do vinho Mosteiro que os Kotas chamaram Morteiro
70. Dos micates e galetes
71. Jogar leitinho
72. Chupar pirolito
73. Fugar a escola na sexta feira para não fazer limpeza
74. De fugir para não tomar Óleo de fígado de bacalhau e a mãe ficar desesperada a tentar convencer que era DOCE
75. De ter a minha casa de índios em cima de uma Laranjeira (?????)
76. De jogar ao berlinde para ganhar rebuçados e chupas
77. De ir para a capoeira ajudar as galinhas a chocar os ovos
78. De por pionéses na cadeira da professora que tinha 65 anos ( 3ª e 4ª classe)
79. Da caçumbula que gerava confusão.
80. De atirar ovos podres para não haver aulas?
81. Dos desafio de break na rua ?
82. Pôr elásticos nas pernas das calças ?
83. Fazer uma assinatura falsa nos justificativo de faltas e nas negativas ?
84. As calças de bolsos?
85. Das conversas nos muros até tarde ?
86. Brincar de pai e mãe ?
87. E cabocla, e gabriela, malu mulher, roque santeiro ?
88. De fugir do control do recolher obrigatório, quando se saía da farra antes das 5 da manhã.
89. De varrer a parada dos Mártires de Kapolo, quando se tinha o azar de ser apanhado pelo recolher.

Sigaaaaa!

Fomos mesmo felizes!!!!!
90. Do "restaurante" de fundo de quintal onde se comia um bom cacusso com feijão de óleo de palma ou churrasco de galinha
91. De dizer chuinga em vez de pastilha
92. Das chuingas "Bazooka"
93. Dos tempos da greve dos estudantes
94. Das confrontações
95. Dos sábados vermelhos
96. Das campanhas de limpeza na escola
97. Do cartão de abastecimento
98. Dos professores cubanos e soviéticos
99. Das músicas de dança "arrasta-pé"
100. Das farras de carnaval e fim d'ano da Sproft (Kilha )
101. Da TPA a preto e branco
102. Dos filmes de guerra soviéticos
103. Do Kudibanguela!!!! Na rádio
104. Do paralelo 2000106. Dos bonecos da "JIBOIA, JIBOIAAAA?, sssstou aqui, dessssscansandooo."

Estamos mesmo a ficar kotas... digam lá se não sentem saudades destes tempos?
A maior parte dos ndengues de hoje não sabe o que é isto. O irónico é que muitas dessas coisas ainda fazemos até hoje. Isso é bom?...

Quinta-feira, Janeiro 27, 2005

Matadidi Mário

Então e o meu episódio com o músico Matadidi?
Vou contar.
Um dia, ao fim da tarde, vinha eu a descer as escadas da Academia de Musica onde funcionava a Escola de Dança e... dou de caras com o próprio que vinha acompanhado de imponente senhora de bubu e tranças a sair de debaixo de um majestoso turbante.
"- Camarrrada prrrofesorrra", começou ele por me dizer."
- Vim aqui no sentido de verrr se a camarrrada prrrofessorrra, podia me darrr umas aulas de dança...
"Ia-me "passando"!!!"
- 'Tá a verrr...", continuou, "- eu na minha condição de arrrtista do palco necessitava incrrrementarrr a minha forrrma física..."
(Lá estava a tal preocupação com a condição física)
Eu nunca lhe tinha achado nenhuma graça. Nem a ele, nem aos espectáculos que fazia, que eu tinha como quase impossíveis de acontecer.
Mas naquele momento, mudei a minha opinião sobre ele (mantendo, para sempre a anterior, em relação às suas actuações).
Naquela época em que alguns artistas se começavam a convencer que o talento era nato, bastante para a sua "consagração" e que a formação artística era absolutamente dispensável, aquele homem (não muito jovem) vinha pedir-me para o ajudar a melhorar a sua carreira.
"Dei graças a Lenine" (naquele tempo não se podia falar em deus) por a vocação da Escola ser apenas o ensino da dança a crianças.
Ele ficou desolado, mas compreendeu.
Eu, passei a ter mais respeito pelo Matadidi Mário.

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

E assim falou... Kajibanga

Praia Morena-Benguela

Mano Kaji,
Deixa-me colocar aqui o teu escrito de quando estávamos sentados naquele muro da Praia Morena da tua Benguela. Beijo para ti. Estamos juntos! Sempre.

F A D A

Dizem que as fadas só existem nos sonhos, mas a minha é real.
Talvez seja irmã da sereia... Mas não pode ser, porque não a conheci ao lado do mar.
Ela veio do céu tal como o fazem os Anjos e não sei se as fadas e os Anjos não têm a mesma origem genealógica.
Mas... Pronto! Ela é a minha FADA.

A que me dá força na perseguição daquilo que gosto de fazer, que afinal é o fim do meu viver.

Ela é o verde esperança, daquelas esperanças que não envelhecem e nunca morrem; que obrigam sempre, sempre, mas sempre a sonhar, para que a existência não seja apenas existência, mas também...

Vida!


(Toy Kajibanga
Praia Morena, 23.6.95)

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

Cenário vivo... (sempre) Presente!

Xicala 2 Luanda Luanda, o cenário que viu passar todos estes episódios - e tantos mais -, através desses «tempos» tão perto e tão longe dos outros

O Fabuloso Banho de Kaneka!

Agora vou ensinar sobre o banho de caneca.
Naquela época, não havia tanques de reserva nem moto-bombas nas casas. Porque, nem sequer agua nas torneiras. Saía ar...
Assim, as banheiras enchiam-se na hora em que a agua lhe apetecia vir. Primeiro, deixava-se correr aquela agua vermelha de barro. Depois, quando já estava assim amarelo claro, já dava para reservar e enchia-se a banheira e os baldes e os bidons e às vezes aquelas panelas que já não se usavam por serem muito grandes e feitas para confeccionar bué de comida. O resto assentava depois no fundo e a agua ficava transparente e quieta. Então, o banho de caneca processava-se do seguinte modo: Com uma pequena toalha que se mergulhava na caneca, humedecia-se o corpo. Em seguida ensaboava-se normalmente (aí, actuava o tal sabonete vermelho que na minha casa também dava para lavar os cães). Escorria-se a espuma com as mãos, aproveitando para uma massagem. Depois, lá vinha outra vez a pequena toalha húmida a passar pelo corpo. Espremia-se. Outra vez, passar, espremer. Várias vezes. Por fim, aquele cochito de água que ficava ainda no fundo da caneca atirava-se para cima para dar a ideia da chuveirada final.
Era uma arte, pois primeiro que aprendêssemos, muitas canecas se desperdiçavam e muita espuma sobrava para limpar mesmo assim.
No fim... o tal "Bien Être".

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

Cinturão das FÁPULA

Para fazer concorrência a tasca ali do lado hoje vou "abrilhantar" com uns pitéus que tínhamos mesmo que pankar para não "parar" com a fome.
Pensando bem, até nem há muito a dizer, pois durante anos e anos era sempre: «cinturão das Fápula» com arroz branco ou o próprio arroz branco com «cinturão das Fápula» frito.
"Tão a ver quem é esse cinturão, né? Yá, é esse mesmo, o «mais afamado» peixe espada. Era de tal maneira divulgado, que não se comia outra coisa. Estava na moda! Como prato de carne, havia mais variedade.
Fiambre em lata, daquele que na tuga barram com mel e põe no forno. Esse mesmo. Cor de rosa, triangular com os cantos arredondados. Esse fiambre, assim, também sofria nas mãos das cozinheiras que, mais criativas, não podiam ser. Bifes de fiambre, fiambre no forno com óleo (azeite, já era), fiambre com espaguete e ainda... fiambre guisado com?... arroz branco, é claro!Agora que estou a descrever as ementas, até parece que as saudades me estão a trazer o (mau) gosto de uma merendinha que saía nas lojas do povo, dentro de umas latinhas com quadradinhos azuis claros e brancos. Estão a ver essa? Yá, essa então também deslizava em bifes, no forno, com espaguete e guisada. Sempre com o tal arroz! (Às vezes também avançava com mandioca).
Por fim (seria imperdoável esquecer-me) vou lembrar aqueles frangos moles que vinham numas latas cilíndricas. Parecia comida de criança. Eram tão moles que até se comiam os ossos. Esses eram "malaike". Não dava para inventar; ficavam em papa por tudo e por nada. Era só por no forno, bem quente, para ganhar lá um bocado de consistência tipo torrado.
Quem não gostasse, ia comer arroz com arroz na casa do vizinho, porque o acompanhamento era, certamente, o tal cinturão... das Fá?... Fá-pu-las!

Refeição

Nesses tempos, em que rareava quase tudo menos o entusiasmo sustentado pela decisão de mudar aquela Angola...
De manhã, como todos os dias, o meu avô, saiu e desceu a rua assobiando, com as mãos atrás das costas. Nunca se esquecia do boné.
Fui à escola. Voltei. Quando entrei em casa, admirei-me com a minha poderosa memória olfactiva e com a minha imaginação, pois fui capaz de reconstituir o cheiro a bifes, daqueles que comíamos quando íamos de férias. Fantástico, pensei. Até o peixe já me cheira a carne. Entrei na cozinha. A kota Francisca estava lá, em frente da frigideira reluzente. Hoje ela estava contente. Percebi porquê.
Sentámo-nos à mesa, não rezámos e o pankê chegou. Servimo-nos. Primeiro, a minha mãe, depois o avô, a seguir o meu pai... e os kandengues com a gula, à espera, no fim da vez.
A comida era mesmo diferente. Estava boa. Bála bála! A kuiar!
Só tinha uns ossinhos que sobravam teimosos na boca depois de engolir cada garfada.
Ossinhos?! Então era mesmo... Era carne de verdade sem ser em lata!
Só quando já estávamos a comer uma manga é que percebemos que o meu avô - a quem tinham sobrado uns kambas da «Metrópole», donos de armazéns e de mercearias - nessa manhã saiu para trazer aquela carne triturada com ossos e tudo, que no «tempo anterior» se comprava para dar aos cães.
(E desta, lembravas-te Kilha? Também pitaste, né? E não estamos aqui?...)

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

Pessoas com sacos azuis e brancos

pessoas com sacos azuis e brancos Sacos às riscas para trazer as compras; Também dão para levar o lixo, transportar kumbu, guardar a roupa, ir ao pão... enfim, bué de mambos!
Quem disse que Angola não kuia?!

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

As Bichas ou Convívios ao Fim da Tarde

E o tempo de esperar nas bichas?
Naquele dia, era fim de tarde. Fomos ficar na bicha daquele supermercado na Maianga... daquele branco, o Cardoso que depois foi kangado no processo da kamanga (mas já saiu e continua lá na sua loja). As bichas não eram sempre lugar de makas, empurrões e barulho. Eram locais de convívio. Cá não havia essas revistas cor de nome de flor. Então, nas bichas ouviam-se as novidades sociais que, à época, não eram bizarras. Mas também ficávamos a saber como ia a guerra. Se a UNITA tinha avançado; Se tinha «comido»; Se os karkamanos sul africanos tinham morto quantos FAPLAs... Era assim, nas bichas.
Havia os profissionais das pedrinhas. Iam cedo, ainda o dia estava a acordar, assim lilás, e eles já tinham madrugado; bué de pedras em cima de cartões. Quem quisesse, podia comprar lugar. Como no cinema: mais atrás, mais à frente, centrais. E conforme o tempo que querias ficar lá a conviver.
Mas nesse fim de tarde, entrarmos no Cardoso, de cartões preparados para as cruzinhas: 2kg de «assucar» mulato, 5 latas de «xalxixas», 3 pacotes de «kissuku», 2 tubos de «pepsodente», 1 pacote de Modess, 4 sabotenes Lifeboy (beck!)... e o empregado ia verificando e anotando. Chegou a altura do arroz com gorgulho e o meu kota perguntou: "- Então, esse arroz, assim com bicho é mais caro, não?" Ao que o empregado, muito à vontade e sem hesitar respondeu simplesmente: "- Não, o preço é o mesmo".
Dúvida: teria ele o sentido de humor mais apurado que o do meu pai?
Eu gostava de ficar nas bichas ao fim do dia. Era tão... (des) stressante, depois de um dia de trabalho.

Bellos Tempos!...

Nesses tempos, ainda acreditávamos. Não nos corria mal a vida, não nos lamentávamos. O que era isso? Tínhamos aprendido que esse era o caminho para a quimera.
E tudo o que hoje retiro da estante das recordações, tem sabor a graça, a alegria. E nunca a "pão que o diabo amassou".
A alegria que sinto em ter tido sempre a capacidade e a lucidez de nem me lembrar que era infeliz por comer carne para cão ou usar a água da banheira até acabar a reserva (e o banho de caneca?). Isso era "normal" e tinha adquirido o estatuto de "somenos importante". Usar a roupa que saía nas lojas e chegar à faculdade e estar tudo vestido com o mesmo, desde o professor até aos empregados de limpeza. Lembram-se desta? Mas, o que importava o "embrulho"?
E lá íamos nós, convictos, para as manifestações que desembocavam quase sempre no largo 1º de Maio onde a "actividade" prosseguia com um discurso de 1, 2, 3 e mais horas em que, de vez em quando, lá levantávamos o braço e gritávamos aquelas palavras de ordem com que animavam (ou entretinham, como preferirem) as "massas". Nós não tínhamos opção. Íamos com os kotas e ponto final. O do Fidel foi o mais cruel para nos, os kandengues, que estávamos a ver a hora da praia basar na fala daquele homem que nem parava para beber água. Mas era um grande homem. Era o nosso exemplo, e depois?
Épocas, homens, mentalidades e saudades. Não do futuro, mas da esperança e daquela inocência mais ou menos colectiva (ainda) em acreditar que seria possível.
Se voltasse atrás, faria tudo de novo. Apenas me recusaria... a tomar banho com Lifeboy!

Domingo, Janeiro 16, 2005

Areia... para os olhos!

Xicala Luanda

Sábado, Janeiro 15, 2005

Textos que Sobraram 4 - Dipanda

Neste dia, lembro-me sempre do meu avô, o Kota Bailundo, um colono português que, vindo da "Metrópole" para tentar a sorte em "África", acumulou posses e fazendas e rendeu-se, colaborando sem medo, à força do inevitável: a independência de Angola. O meu avô... Sentado numa cadeira de balanço a pedir-nos que não tivéssemos medo dos rebentamentos e dos tiros, pois eram... foguetes (ele dizia).
Angola, o meu, o dele, o nosso país. O chão de todos os angolanos e não angolanos que o quiseram adoptar. A terra sofrida e massacrada pelos inimigos de ontem e amigos de hoje ou pelos amigos de ontem e inimigos de hoje, internos, externos e até extraterrestres, à falta de outras categorias para acusar. Angola é tudo isto; felizes, infelizes, ricos, pobres, honestos, corruptos, tudo o que se diz e desdiz nesta colecção de fios onde "todos ralham... quantas vezes sem razão".
Aqui, no terreno, não aceito as feridas, deliberadamente, mantidas abertas, sou contra o poder corrupto, contra o esbanjamento e a ostentação. É preciso saber dar a mão à palmatória. Mas aqui, sou feliz por ter (sobre) vivido após a dipanda, no exercício diário de aprender e reaprender os lados da luta, as faces do sonho... Esses, pelos quais somos, tantas vezes, humilhados, mas de que nos orgulhamos tanto!...
No entanto há, sem dúvida, uma alegria abrangente: Angola é independente! E isso é muito importante! Os erros (quem não os comete?), nós vamos tentando denunciar e corrigir, sem desmoralizar, sem desistir, sem esperar que outros o venham fazer.

Textos que Sobraram 3 - Possa!...

«Possa, estás muito melancólica hoje!...»
Yá, foi o que me disse naquele dia, tendo eu sorrido, como a minha mãe me ensinou. Baixei os olhos e retorqui: É isso... Gosto de escrever quando estou triste. «Mas as alegrias também se escrevem. Quantas vezes escrevi as nossas alegrias!». Nunca tinha reclamado dos meus registos. Foi o primeiro dia em que senti a tempestade que se aproximava...
O vento soprou forte e trouxe o silêncio surdo de doer o pensamento. Então a chuva desaguou, escura e fria sem perceber que as minhas lágrimas erravam já sem encontrar o caminho dos olhos. A desordem chegara mesmo; estúpida e sem ser encomendada; surpreendente, sem se perceber escusada.
Atrevi-me... e com as pernas dormentes tentei dançar. Dançar transparentemente livre na vontade de me saber Mulher. Os braços, os ombros, os pés, o corpo quase todo... encheram-se de mim e, de sensibilidades adormecidas, dancei a liberdade do encantamento; daquela alforria que só eu sabia de cor. O piano, os pianos todos da minha vida inteira souberam como me transportar para aquela imensidão de margens enleadas, mas decifráveis. Escolhi deixar-me abraçar e desaparecer. «Tudo para te recuperar, Amiga!» Sorri de novo, na mágoa, os sentidos reconquistados, a raiva a crescer fora do coração
... Esta minha mania de gostar... bué!...

Textos que Sobraram 2 - Para o Rui (Kapofy)

Imagina...
Saíres de manhã e encontrares o cacimbo sozinho, já atrevido à tua espera lá fora, a esconder a cor do carro, assim... tapando a curiosidade de espreitar pelos vidros. Tu, com aquela irresistível vontade de ndengue para escrever o nome ou uma asneira no «capô».
O kawélo a dar feio e os ossos a fazerem barulho lá dentro do corpo, zangados. Já estás dentro do puro pululu e quando dás ao arranque... Uá! Não pega! É do frio mesmo.
Mas a raiva desconsegue só de vingar, «kunforme» chegas ali, à rua da Robert Hudsson, e adivinhas que, naquele dia, o nevoeiro cinzento escondeu a baía e a ilha... Adivinhaste mesmo! Inspiras... e, no coração, recuperas o desenho bem feito daquela paisagem que viste desde kandengue e que não queremos ver modificada por prédios e casas e mais ilhas para os pobres de espírito que nunca, por nunca, repararam que, quando o cacimbo bazar , o sol vai passear outra vez as «nossas vistas» por aquela janela da Luanda de todas as gerações!

Textos que Sobraram 1 - Cantigas no Pátio

Eu andava na escola primária. Era miúda e o tempo era quase cacimbo colonial. Por impossível que possa parecer, a filha do Sr. Eng. e da Sra. Dra era uma das cerca de dez crianças brancas dentre os trinta alunos que formavam aquela turma da Escola 83, na Vilalice. Sim, essa escola sem reboco, nem pintura, os tijolos a aparecerem e com um pátio sem cimento, ou seja, daquela terra que quando chovia virava mesmo poça de lama onde nós experimentávamos o prazer de brincar de sujar as batas, só para dar trabalho às mães e às lavadeiras. E foi mesmo aí, nesse pátio que um dia a professora nos começou a ensaiar algumas canções, porque ia chegar um senhor muito importante da Metrópole. Uma das canções, a mais importante - dizia ela - repetíamos sempre ao sábado de manhã e tínhamos de cantar de pé, ao lado da carteira.
Na véspera da chegada do senhor muito importante, todo o asfalto se preparava para a recepção. Os "bairros" também estavam mobilizados.
Na escola a professora deu-nos umas bandeirinhas verdes e vermelhas com uma bolinha amarela no meio, coladas nuns pauzinho brancos; com cola Ponal, parece (disso é que não me recordo bem...). O director que batia com aquela palmatória redonda de cinco buraquinhos, veio e avisou que todos deviam ir com os pais ou então podiam concentrar-se na escola para ir de maximbombo (acho que ele falou autocarro e estava a pensar nos colegas cujos pais não tinham automóvel).
Cheguei a casa contente com a minha bandeira verde e vermelha na mão para não amachucar dentro da pasta para onde eu atirava os livros escolares e o estojo de lapis de cor (o caderno ficava na escola dentro de um saco plástico no armário do fundo). Ia a cantarolar a cantiga principal: "... nooobre-pooovo-nação- valeeente...". Mas a minha alegria durou pouco. Antes que eu lhe perguntasse a que horas íamos para o aeroporto receber a tal visita muito importante no dia seguinte, o meu pai pediu-me a bandeirinha e disse que "nós não vamos". Retorqui-lhe que "então eu vou no maximbombo que vai estar na escola".... Então, pacientemente, o meu pai sentou-me a sua frente e explicou-me o que era o colonialismo. Eu era feliz naquela escola, mas acho que a minha felicidade aumentou, pois compreendi também porque é que eu não andava em Colégios como os filhos dos amigos dele e da minha mãe.

«Histórias de Encantar» VIII - A Liga que te (pro)meti.

... E eles, os convidados em uníssono, gritavam, já algo «avinhatados», o nome da noiva. Ela, a noiva, sem se descompor e com o olhar no chão, erguia, no entanto o sobrolho direito varrendo a plateia com um olhar transverso e avaliador. É agora..., pensava ela para com os seus atilhos (que os botões dão muito trabalho depois com as pressas!) - já aliviados - do corpete de tafetá.
Então, para surpresa de todos «la voila», qual Liza Minelli naquele filme cujo nome não se pode pronunciar diante de tantas donzelas casadoiras, subindo arrojadamente para cima de uma das cadeiras de ferro forradas com um cetim já meio «coçado». Os amigos dão uma ajudinha, não fosse ela cometer um deslize durante a subida para a mesa.
A mãe perguntando às amigas que linda está a minha filhinha não está? As amigas da mãe acenando as cabeças, e de mãos agarrando com força as carteiras atulhadas de croquetes, rissóis e umas fatias de carne assada que dão sempre imenso jeito para o almoço do dia seguinte, entressonham um casamento igual para as suas cachopas. O pai, já arroxeado e tentando equilibrar-se junto ao guitarrista do conjunto, depois de lhe ter puxado várias vezes o paletó azul de lantejoulas, hesita entre uma zurrapa (o branco) e outra (o tinto).
As amigas dos vestidinhos de chita «tão mimosos» e «folhosos», com um cândido sorriso nos lábios e olhar deslumbrado, a desejarem intimamente que a sua melhor amiga caísse ruidosamente (que reles-zinhas que elas são!).
E começa o leilão.
Ela, a noiva, mostra o tornozelo grosso a sair de dentro dos sapatos onde o pé já tinha posto «o feitio» de joanete. Os amigos exclamam... ah! Todos e todas aplaudem!
A noiva levanta mais um pouco da encardida bainha do vestido, um exclama mil; Outro mil e cinco! Todos aplaudem! Muitos exclamam... ahhhhh! E a pobre e recatada moça lá vai subindo a saia pondo a descoberto uma leitosa e grossa perna... de rapariga trabalhadeira, pois então! A mãe, agora com falta de ar (pró que lh’havia de dar!), junta-se às avós que alternam ruidosos «arfanços» com uns gemidos tipo ai Jesus! O pai já vê a filha a dobrar e parece-lhe estar perante uma aranha gigante. E a saia sobe sempre, para aumentar a parada. Vinte mil! As mulheres dos amigos, já com o baton derretido a escorregar pelos cantos da boca gritam de buço arreganhado, esbracejam e desajeitam os decotes para atrair a atenção dos seus maridos. Eles, os maridos concentram-se alarvemente naquela perna peluda, vítima de uma depilação esquecida. Com o suor a escorregar pela testa, vão tirando dos bolsos das calças (aproveitam para verificar o fecho éclair), amarrotados lenços daqueles que se compram em lotes de seis, um de cada cor e são tão jeitosos, não são? Ganem... ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!... e levam o lenço à boca para limpar a baba (é possível consertar-se este computador que não escreveu o erre?) e continuam a desejar (é sinónimo de olhar, não é?) o tal pernil e a prometer, com as pernas bambas, o dinheiro poupado para a compra do carrinho (até já têm a garagem construída) e para pagar os estudos do filho mais velho na capital. Ela, a noiva, já com o vestido a meio da coxa, o cabelo em deslinho e os olhos revirados em quebranto, deixa finalmente à vista a tão cobiçada liga. Ninguém dá mais!?...O silêncio percorre a sala e os «ânimos» arrefecem (Ufa! Finalmente). Apenas uma avó, agora em tom mais debilitado, insiste num gemido ai Jesus, balbuciando em seguida um... que pouca vergonha, este violentamente calado por uma pisadela da mãe, coitadita, a disfarçar o embaraço. Enfim...
No fim...
A liga, era afinal um belo suporte em couro, com respectiva faca, brilhando e constrangendo (também ficava bem, encantando...) familiares, convidados, empregados e...
A noiva era afinal eu, mas com o aspecto da Lara Croft, claro (a) está e...
Acordei...

Moral da História: Devemos sempre sentir-nos envergonhados e arrependidos por nos acharmos parecidos com a Angelina Jolie.

«Histórias de Encantar» VII - Mea Culpa

Pois eu confesso ter andado a fixar atentamente o corpinho de cristo, pensando seriamente se o poderia contratar ou não para a minha Companhia. Estava eu “piamente” ajoelhada no altar a pensar nos testes de aptidão física a que o haveria de submeter antes da admissão, quando dei por uma serie de devotas frequentadoras do local percorrendo-o de cima a baixo com olhares languidos e ávidos - e muito mais a baixo - para o paninho que cobria o meu futuro bailarino. Confesso ainda ter imediatamente sido assolada pelas palavras: êxtase, santinhas, cobiça, dissolutas, concupiscência, desfalecer e libidinosamente.
Detestando estar a pôr o dedo nas chagas (até porque sem luvas é cada vez mais perigoso), temo, no entanto vir a ser excomungada por querer contratar o próprio representante do Senhor, apenas para tentar minorar o pecado de uma profissão em que o corpo é usado inadvertidamente e sem tabus.
Achando que a minha expulsão, só por estas ninharias, seria verdadeiramente injusta, vou continuar a abrir audições em todas as praças, na esperança de encontrar os melhores bailarinos, cantores, comediantes e artistas em geral, como convém a um coreógrafo contemporâneo.

Moral da História:Amén, digo, A mim (esses génios do espectáculo)!

Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

«Histórias de Encantar» VI - Maçã envenenada em banho Maria

«(...) A malvada bruxa, não se fez esperar.Através do seu espelho mágico soube que Branca de Neve era ainda a mulher mais bonita do Mundo e blá, blá, blá...
Desvairada de fúria decidiu acabar, ela própria, com a vida da princesa. Então, com a ajuda de um líquido, envenenou uma maçã. Quando Branca de Neve a mordesse cairia de sono, como morta. Só poderia despertar se blá, blá, blá...
Assim, a rainha má foi até à kubata dos anões, determinada a acercar-se de Branca de Neve quando os seus amigos anõezinhos fossem trabalhar. Quando os viu partir, aproximou-se da princesinha sob o pretexto de lhe pedir um copo de água. Depois, blá, blá, blá, ofereceu-lhe a maçã envenenada. (...) A madrasta, para se escapulir dos seus perseguidores, galgou um alto penhasco. Foi a sua perdição, pois escorregou e tombou no abismo onde encontrou o seu fim. Justo castigo para as suas enormes patifarias (...)»

Moral da história: Blá! Blá! Blá!

«Histórias de Encantar» V - O lago dos cisnes reais e a podre pata choca

O Lago dos Cisnes - «Balé» em quatro actos

No dia do aniversário do Príncipe Siegfern, os amigos reúnem-se, nos jardins do palácio, para o felicitar. Alegres, dançam, destacando-se o solo do Bobo da Corte. Entretanto, chega a Rainha que presenteia o filho com uma besta. Lembrando-o das suas responsabilidades, por atingir a maioridade, diz-lhe que deve escolher uma noiva. Antes de se retirar, a Rainha anuncia um baile, para a noite seguinte, no qual o Príncipe apresentará sua eleita. Ao cair da noite Siegfern sai com os amigos para uma caçada, chegando às margens de um lago iluminado pelo luar.

Siegfern vai à frente e pede que o deixem sozinho. Subitamente aproxima-se dele um belo Cisne Branco. Ele ergue a besta e faz pontaria mas, para sua surpresa, a ave transforma-se numa bela e distinta jovem de pescoço alto e porte real que se apresenta como a Princesa Polette. Com a sua voz doce conta-lhe como ela e suas amigas foram vítimas do encantamento do feiticeiro Roth O Bart, que as transformou em cisnes e que apenas à noite elas podem assumir a forma humana. Polette diz ao Príncipe que o feitiço só poderá ser quebrado por um rapaz que nunca tenha sido comprometido e que lhe jure eterno amor. Apaixonado, Siegfern ergue os dedos e, olhando-a com os seus ternos olhos cor de céu... faz a jura. Amá-la-á eternamente!Quando Roth O Bart aparece, Polette implora-lhe que não faça mal ao seu Príncipe e lembra a Siegfern que, no baile do dia seguinte, o feiticeiro tudo tentará para fazê-lo quebrar o juramento. O Príncipe tranquiliza-a e os cisnes partem olhando com elegância inigualável para todos os lados. Siegfern fica só e perdidamente apaixonado...

Na noite do baile, todos aguardam o momento em que o Príncipe escolherá sua noiva. De todas as partes do mundo, chegam os convidados e as princesas pretendentes, com as quais o Príncipe dança. No entanto, o seu coração está distante... Inesperadamente, irrompem pelo baile Roth O Bart, disfarçado de nobre e Kadille, uma loira oxigenada, mascarada de princesa. Enfeitiçando o Príncipe, Roth O Bart faz com que ele confunda a bela jovem com sua amada - Polette. No famoso pas de deux do Cisne Negro, Kadille deixa perceber a sua inabilidade para a dança. Prejudicada pelos modelitos masculinos que traz nos disformes pés, pisa vezes sem conta Siegfern que quase desconfia da sua ascendência. Mas o hediondo Roth O Bart consegue fazer com que ele jure e declare o seu amor pela impostora. Subitamente... surge uma visão de Polette e Siegfern percebe que foi enganado. Desesperado, corre em busca da sua verdadeira Princesa.

No lago os jovens cisnes sob encanto dançam tristemente. Abatida, Polette prepara-se para enfrentar a morte. Siegfern tenta explicar-lhe o engano, rogando-lhe o seu perdão. Roth O Bart surge, tempestuosamente, assustando as belas jovens. Siegfern protege Polette e, olhando-a apaixonadamente, diz-lhe da sua decisão de morrer com ela. A entrega pura do Príncipe quebra o sortilégio. Siegfern e Roth O Bart lutam e, enfraquecido, o feiticeiro morre. Desponta a aurora. As jovens, livres do encantamento, deixam de ser cisnes.

Moral da história :
1 - Há que desconfiar das juras de amor, pois quem desdenha, quer SEMPRE comprar.
2 - Quem com fogo, aliás, com cisnes brinca... sai rôti

«Histórias de Encantar» IV - RE: Desencanto: The show must go on...

Pois é... Neste país também é assim. Os miúdos de rua brincam como podem enquanto que uma mãe qualquer busca outro filho qualquer, talvez morto antes de nascer; entretanto, alguém vai correndo desesperadamente fugindo de todos os medos.
Três dos inumeráveis "solos" que se repetem cá e em todos os outros "lás" para a vergonha de ninguém...
Olhem p'ra nós! Até parece que dançamos!...Sim...dançamos. Todos.
Uma música triste; a música que tirou a cor ao nosso destino.
E para aqui andamos, brincando, correndo, e (re) buscando, tentando (sobre) viver acima da vida.
Quanto a ele... pronto! Não tem um bocado de perna, mas conserva os olhos, com os quais assistirá... a um espectáculo qualquer.

Moral da historia: Se não fosse a guerra... Éramos todos (a) normais

«Histórias de Encantar» III - O Gajo das Botas

Era uma data de vezes e ele não descalçava as botas, nem por nada.
É que aquilo de andar no líquido escuro não era fácil... de largar. E aquelas botinhas ficavam-lhe mesmo a matar, tantos eram os sustos que apanhava e calaquentes que sentia.
Não! Era uma vez... que foi de vez. Foi quando a sexy madrasta, cassumbulou a Cinderella. Aliás, meteu-a num chinelinho de cristal.
- Olha, tu nunca, mas nunca terias sorte com o principe. Pudera! Com essa abóbora em que te deslocas. Ainda se fosse um avião...
- Mas... madrasta, ele prometeu amar-me para sempre...
- Isso foi o que disse o Albrecht ao cisne branco, mas quando viu a outra... aquela... mais «morena»... Foi a morte do primeiro!
- Mas então... se tu ficas com o gajo das botas, eu perco a hipótese de me transformar em Gata Roubalheira? (Pronto... Escolho o Ali Babá...)
- Yá, minha (a madrasta está a mascar aquele tabaco que vai cuspindo para dentro de uma lata de Fanta. Vê-se que está com... esperanças). Mas com sorte ele pode sempre fazer de ti gato sapato! Ahahahahahahah! (aquela gargalhada das madrastas más). E não te esqueças que esse Ali tem uma série de amiguinhos... hã?
Era então uma vez (ou outras) que o tal que andava no líquido escuro e viscoso que se lhe colava aos bolsos, visitava as princesas de todas as estorietas infantis para adultos. E não deixava nenhuma folha para trás! Devorava os livros...
Era irresistível, cheirando a Drak'ouro Negro, com gravata e boxers daquele tecido verde com motivos de Washington com peruca.
Era mesmo um engatatão. Enganador... Mas um gato. Um gatão!
- Ó lacaio, traz ainda os despachos para eu escolher umas luvas a condizer com as minhas botas!
Foi assim que ele ficou rico e viveu feliz para ... Enfim, viveu feliz até ver.
(Já estão à porta do palácio os caçadores que mataram o lobo mau...)

Moral da história: Em casa do Ferreira, espeta-lhe (mesmo) o pau! (a ver se ele bate as... botas)

«Histórias de Encantar» II - Estória de amor (de)cantado

Por falar em homens e mulheres, ainda ha amores "à moda do antigamente": Romeu e Julieta (Um episódio doméstico)

Então ela disse: - Já experimentei. A receita é boa.
E ele: - Quantas vezes já te comprei panelas de esmalte?
Então ela disse: - Sim, várias vezes tentei sair mas tenho de ficar em casa com as crianças; já sabes, tenho que fazer o doce preferido dele
Ele: - Eh, pá! Logo? Claro que posso. Aliás, um homem pode sempre. À porta do hotel, o.k?
Então ela disse: - As minhas amigas todas têm autorização para ir trabalhar... E ele: - Claro, o que é que querias! Elas usam sapatos de salto e perfume! Uma luxúria!
Então ela disse: - Bem, nesse caso vou ao cabeleireiro...
Ele: - Se te queres divertir, o melhor é ires ao óbito do amigo da nossa vizinha. Põe aquele vestido preto que só usas em casa.
Então ela disse: -'tá bem, mas queria que me desses um carro como deste aquela outra...
E ele: - Claro, como não me lembrei disso antes? Tenho uma reunião importante.
Então ela disse: - Há dias sonhei que era secretária executiva de uma empresa estrangeira... Até ganhava em dólares!...
E ele: - Sim, dinheiro e mulheres, é o que não me falta. Dá aí o jornal para ler a página desportiva.
Então ela disse: - Ainda bem, assim já não tenho de depender de ti para dar de comer aos nossos cinco filhos.
E ele: - Claro! E não te esqueças que agora és uma mulher feliz. Já te comprei um jogo de panelas de esmalte.
Então ela disse: - Pois... Assim já não poderei sair, nem para as ir pedir à vizinha da frente.
E ele: - Dessa forma não atravessarás a rua, pois é perigoso. Pois é perigoso...

Moral da história: Mais vale uma panela na mão do que dois sapatos a atravessar a rua.

«Histórias de Encantar» I - Estória de Encarnar

Se excluirmos o lado do encantamento e do imaginário, o que resta nas histórias infantis para além da violência e da repressão dissimuladas?
Esta é a minha versão, em que a perversidade é assumida e pronto!
Onde! Está! A... vítima?!
Era uma vez... um Chapeuzinho vermelho!
- "Chapeuzinhooooo!?"
- "Mamããã!?"
Era uma vez um Chapeuzinho vermelho que vivia: com a mamã e com o papá... Não!... Com o papá não!?... Com a mamããã... Ou com a mamã e com o papá? Bom...
Era uma vez... um Chapeuzinho vermelho que era muito, muuuuito boa menina.
Então, o Chapeuzinho foi pela estrada do rio e comeu o lobo mau e comeu a avó!
Depois, a avó, pôs os óculos do lobo e disse: "Vovó!... Que gira! Bála bála! E... p'ra que são esses óculos tão grandes?!?
- São para melhor comer os bolinhos...
Era uma vez... o Chapéuzinho vermelho que ganhou a corrida ao cágado, que foi ao baile do príncipe, que comeu a maçã envenenada...
Um Chapeuzinho que comeu o lobo, a avó, a mamã, o lobo, a mamã, a avó... o Chapeuzinho que comeu: a estrada do rio, os docinhos, a maçã, o rio, o rio... o rio... o rio... o rio... o rio...
- Ai é?! E depois?
- Depois, o Chapeuzinho comeu as bolachas e comeu a avó.
- E depois?
- Ficou com os dentes cheios de sangue!!!
- E a avó?
- Toda esmagada!...
- Porrrra! Com os miolos à mostra?
- Siiiim, com os miolos à mostra!
- E o Chapeuzinho?
- Chorava...: Vovóóó, vovózinha! Coragem!
- Ai é? E a avó?
- Aiiiiiiiii, Chapeuzinho, não me comas os pés...
- Mas ela não parava de a mastigar, n'é?!!
- Siiiim...
- Uaaau! O sangue a escorrer!...
- Yá, bem fixe! Ela toda estragada!!!
- E a mãe do Chapeuzinho?
- A mãe? Aaaah, a mãe era assim: "- Vá... já chega de brincadeiras com a avó... Vem para casa que já é tarde . Sim, continuas a tingir a a tua capinha... amanhã."

Moral da história: Nunca brinques com a avó, pois podes tingir-te.

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

Um Café na Esplanada 11 - Adeus (?)

Hoje saio para a esplanada. Olho em volta e sento-me a ver o mar. Um avião cruza o céu e eu entro. Olho para baixo e lembro-me da história do príncipe Shah Jahan e da sua amada Arjumand Begum. Endireito as costas da cadeira e aperto o cinto de segurança.
Acordo! Com um lenço de linho indiano limpo dos olhos a imagem do Taj Mahal. O mar não é mais um espelho. Está na hora!
Cinco anos passados, o pano abre-se novamente para o escuro de uma plateia longínqua.
Ajusto a minha máscara ao rosto e o palco é de novo meu, da Rossana, da Paulina, do Carlos, da Joana e da Marlene.
Afinal... Esqueci-me de beber o copo de água. Faço-o quando regressar.
Já tenho saudades...

Um Café na Esplanada 10 - O «Fio»

Um dia, desci à vila» e passei à porta de uma loja que vendia lembranças. Não era uma loja qualquer. Vendia coisas com pedrinhas, madeiras e bambu. Eram objectos meio artesanais. Delicados... Atraentes.
Comprei uma pulseira para uma amiga e olhei para uns fios pendurados num canto. Gostei das cores das pedras e aproximei-me. Não pensei em nada. Gostei, mas sentia que não era para mim. Cada pedra correspondia a um signo.
Saí de regresso a casa.
Nessa noite dormi como em todas as outras, mas, no dia seguinte passei de novo em frente à loja, embora esse não fosse o meu caminho.
Entrei. Com ansiedade procurei os fios que tinham mudado de lugar. Perto da porta, à luz do sol, as pedras eram mais bonitas!... Procurei a pedra de um signo... Em seguida a de outro, e de outro mais. O teu aniversário havia já passado. Dar-te-ia algo que te lembrasse de mim. Foi quando li o texto no papelzinho de um dos «fios». Realmente, e como sempre, estava certo.
Resolvi comprar, respondendo a alguém que era para... guardar e lembrar mais tarde. De regresso, marquei o cartão com a minha letra e pensei que não gostavas de fios. Mas eu sabia-o e não desejei que o usasses. Apenas que o guardasses junto ao teu coração, no lugar para ter os amigos. Ias ficar contente, tinha a certeza. Acreditei até que, de vez em quando, fecharias a pequena pedra que dele pendia na tua mão, imaginando o meu sorriso. (Eu sou mesmo assim...)
Com cuidado e alguma emoção embrulhei-o. Queria mesmo agradar-te. Eras bué importante para mim.
Chegada à beira do «lago», menti-te. Para não parecer muito «def»estando a dar um presente a quem me tinha «voltado as costas», disse-te que já o tinha há tempos. Lembras-te?... Yá... Disse-te ainda que hesitei em to dar e perguntei-te se o havia de fazer. «- Claro que sim!», balbuciaste salamurdio.
Agradeceste-me a oferta, atabalhoadamente, e deixei-te, estrategicamente, para trás esperando que me viesses dizer que tinhas gostado...
Só o vim a saber muito depois... Agora.
Fiquei amuada... Reparaste de que tamanho era o «fio» e que cor tinha a pedra?
Eu não vou desistir! Que idiotice «pegada»!

Um Café na Esplanada 9 - O Cão I

Doutor,
Que bom teres voltado.
Por tudo o que se passa na Sanzala, neste momento só me apetece deixar-te aqui a história do cão que inventei há 10 anos. Estava na ilha de Luanda...

O cão
Ouvi passos.
À minha frenteos olhos de um cão sarnento
mendigavam uma mação azul

Um Café na Esplanada 8 - Não vou aparecer

... Subitamente, sem saber bem porquê, lembrei-me deste fragmento do poema de Miguel Torga... «Desfecho».
Sento-me de costas para o mar e vejo o espelho que segue a minha respiração. Aos poucos, os meus gestos vão desaparecendo. Fecho os olhos e tenho a certeza de que oiço aquela voz muda e escondida:

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fico incomodada... desisto de abrir a minha janela. Só para não aparecer.

Um Café na Esplanada 7 - Do outro lado

Atrevendo-me a pensar que Wim Mertens a compôs para mim, passo-me para «Au delà du fleuve».
Em posição vertical, flutuo no brilho do sol queimando razões, e a minha vontade de sorrir pensamentos que se «catadupam», sem fim, pelas tranças dos meu dias.
Aqui e agora revejo o tudo e o penso invenção. Incolor. De música em música adolesci de novo e me deixei prender aos olhos da diferença, ao cérebro inventado, à alma gémea... Simulacro quase perfeito.
Mas aqui e agora, não te elejo sentido. Não és sinfonia para os meus dedos, não és sobressalto ao levantar. Neste momento, não és íman para a minha voz. Não és dança para o meu corpo.
Na cartografia da minha desordem, hoje és, ao longe! Sem motivo para aportar no mar que inunda a minha esplanada.
Tenho pena de ti, de ambos... O que esperas, para resgatar quem, de tanto te sonhar livre, de tanto te gostar sem malícia, de tanto te engendrar sedutor... te quer sereno e presente, pleno e distinto?
O que te leva, Meu País, à humilhação da covardia, à vergonha da desfaçatez?
Em posição horizontal, flutuo no brilho da lua arrefecendo razões, e a minha vontade de chorar pensamentos que se desbotam, assim, pela pulseira vermelha e preta que, maquinalmente, afago todas as noites.

Um Café na Esplanada 6 - Ainda o Mar...

Às vezes penso que nenhum lugar é suficientemente bom para ninguém. Às vezes...Às vezes acho que ninguém é suficientemente útil para um lugar... Às vezes. Mas às vezes, acredito que a cor azul é assim, poderosamente dominadora e nos faz desmaiar de vontade. Assim... de lhe querer agarrar num abraço de fazer enrolar as pernas numa pirueta vertiginosa.
A tua amada, a verdadeira, Doutor, é também de outros. Deixa lá... quantas vezes nós somos de tantos outros também. Mas ela pode... E como ela, mais nenhuma tem esse direito.
Quando a vir, num Dezembro perto e laranja cor de sol maduro, vou contar-lhe quanto a desejas. Eu sei que no fundo, ela também te gosta bué... Acredito que nem sentirás o seu apelo ainda debilitado pelo tanto mal que sofreu.
Yá... e quando acordares do devaneio que acreditas gelado, na tua cerveja, que bebes tanto assim, só de birra, mesmo, já o deserto estará próximo e o cheiro a mangas sumarentas vem com a certeza da Caotinha, onde o mar só é frio na corrente mesmo que tem nome da terra. Sim, dessa que estás a pensar...
Não fiques triste, amigo. Eu vou partir. Se quiseres, levo a tua mukanda para ela... mas para aquela que nunca morre e que, de tão jovem, nos viu nascer. Essa, a verdadeira, ela está à tua espera, sim!

Um Café na Esplanada 5 - Strip Tease

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.
Sophia A.

Em frente ao mar... caminho. O meu vestido, grávido de cinco meses é longo e pesado, apesar da transparência. Mas... para trás fica o teu olhar, perdido nos meus olhos, fazendo-me juras de amigo. Os teus olhos querendo ver-me sempre, percebendo-me frágil, dizendo-me tão perto.
Para trás, a sombra do teu sorriso. O sorriso mais bonito que colhi da última lua cheia. E os teus lábios... cantando-me versos de outros, por ti pensados para mim. A tua boca repetindo o teu medo de me desiludires, de me perderes... o teu orgulho de me saberes tua amiga. O teu sorriso, que eu imaginei incapaz de me falar mais alto que o sussurro das ondas pequeninas.
Para trás, os teus dedos grossos enleados nos meus, finos, ficaram sem se tocar. Os teus dedos parados de juntar letras nas palavras mais bonitas, tacteando o mais profundo do meu coração. Os mesmos dedos que folheiam livros sem fim e que agora não sinto mais desenharem a forma do meu rosto.
Vou-me despindo para o mar... deixando os papelinhos de nós conversando com o sol que começa a pintar de azul um céu sem nuvens.
Soletro os dois poemas da Sophia que tu me ensinaste, de uma vez só, a redescobrir assim:

És tu a Primavera que eu esperava / A vida multiplicada e brilhante / Em que é pleno e perfeito cada instante.
Pudesse eu não ter laços nem limites / Ó vida de mil faces transbordantes / Para poder responder aos teus convites / Suspensos na surpresa dos instantes!


(Lembras-te? O meu sorriso é rasgado)
Com a água acariciando-me os tornozelos, reparo então que a sétima onda nunca chegou. O mar está quieto. Tu ficaste para trás, mas em mim, esperando.
E de novo, as palavras dos outros que eu própria escolho para dizer:

De todos os cantos do mundo / Amo com um amor mais forte e mais profundo / Aquela praia extasiada e nua / Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Como o vento, estás parado. Eternamente e sem ternura, a tua inesperada rudeza junta o mar aos meus olhos, agora esverdeados e fundos de tristezas que não sei explicar.
Quero desistir! Enganei-me... A minha lua não é aquela que fugiu para tão longe! A minha parecia boa e amiga, suave e quente, presente e sincera. E fazia-me sorrir, acreditar. Dançar!...A minha lua nunca se esconderia. Vinha ver-me sempre e jurava para sempre! Era linda e eu adorava-a, porque me prometia colo e o abraço eterno!
Amigo:Deixa-me falar-te com a Sophia A. Só... uma vez mais:

Dei-te a solidão do dia inteiro / Na praia deserta, brincando com a areia, / No silêncio que apenas quebrava a maré cheia / A gritar o seu eterno insulto, / Longamente esperei que o teu vulto / Rompesse o nevoeiro.

RE: Um Café na Esplanada 5 - Strip Tease

Citação:«Dei-te a solidão do dia inteiro / Na praia deserta, brincando com a areia, / No silêncio que apenas quebrava a maré cheia / A gritar o seu eterno insulto, / Longamente esperei que o teu vulto / Rompesse o nevoeiro»

Ouço-te cantarolar com voz meiga, doce e atrevo a dizer-me também triste. Aproveito para beber uma especial gelada, e daqui da esplanada vou-te admirando. Ver-te caminhar sobre a água em passos de dança perfeitos. De tão leves não vislumbro as marcas deixadas na superficie aquosa deste mar, que está sereno. Talvez hoje esteja mais salgado do que é habito. Completando o cenário lá está a lua cheia exactamente por trás de ti. Vejo o teu corpo, adivinho a gravidez desejada. Não distingo o teu rosto na perfeição, não sei se choras se sorris. Danças e sei que não é para mim. Bebo e penso como seria a vida se não houvesse quem utiliza o corpo na perfeição da sensibilidade sem tremores, hesitações e exigências sobre-humanas.
Bebo com vontade de saltar da esplanada e percorrer todo o caminho directo a ti. Receio que os meus pés de chumbo e a desarmonia do meu corpo me levassem para as profundesas deste mar e eu jamais voltaria a ver o início deste mar zulmarinho.
Bebo pensando porque e por quem choras.
Bebo porque não sei usar o equilíbrio musical do gesto feito dança. Bebo porque não sei usar as palavras certas nos momentos que devem ser usadas. Bebo simplesmente porque não quero despertar desta imagem: a lua e tu!
__________________
Carlos C.

Um Café na Esplanada 4 - Porque se fala ao pôr do Sol

«Prolonga um pouco mais a tua melodia!
Espera!
Suspende-a por instantes,
que eu estou por perto! »
(R. Marks)
Hoje estou assim. De novo. Para usar as palavras dos outros. Aceitas, Doutor?

Um Café na Esplanada 3 - Sonhar...

Hoje fiquei muito tempo sozinha. Pensei em ti. Acabamos sempre a pensar em quem gostamos quando ficamos sózinhos.Mas tu... não «aparecias». Ouvi Chopin, Bach, Lizt e Haendel (embora não seja natal). Os discos de Mozart, deixei-os de lado.O sol apareceu timidamente à tardinha e convidou-me a um passeio que se fez longo... e belo.
Levei comigo a possibilidade de vires ao meu encontro... Mas não acreditei. Ainda assim, fui esperando e gastando os olhos em tudo o que na cidade não vejo.
Por fim, sentei-me e estavas ao meu lado. Também olhavas o rio cor de prata e não me deixaste ter frio.
A tua voz não era tão forte e eu dei-te um beijinho no rosto, igual ao meu: laranja pálido da cor do sol que desaparecia. Quando olhei para o lado, já não estavas. Apenas o teu sorriso...
Em cima da mesa da biblioteca estava um livro com este poema:

O sorriso , de Eugénio de Andrade

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

... e guardei-o para te dar. Espero que gostes.

Achei-o «bem», para contrastar com tudo de feio que se tem passado na Sanzala.

Um Café na Esplanada 2 - De sol a sol

Quase de sol a sol... um dia, dois. Muitos mais que três. A conversa teimosa de não morrer, e os olhos de sono sem querer dormir. Os pensamentos iam mais depressa que os dedos e o coração saía da boca do estômago, assim, de vontade de desaguar em torrente. As madrugadas não eram de noite e o corpo imaginava-se sem cabeça, livre para absorver devagar o calor quente das mãos que falavam versos antigos. Fingíamos saber ler tudo mas, de repente, em voz baixa, o fim que tardava... chegou evidentemente discutido. Na conclusão resta o princípio de outra melodia, tristemente bonita. Aquela do nascer de outro sol. O sol de cacimbo... Morno, só.

Um café na Esplanada 1 - Esplanada

Entro para a esplanada (ou será que saio?). O corpo é mais que uma máquina. Mas o meu não bebe «Imperiais» (porque será que nunca faço o que normalmente é prática nestes espaços sociais?). O calor não me aperta, não me molesta, mas também não solta o que de mais espectacular há em mim: a preguiça. No entanto não vou à praia. Horas em filas de carros cheios de pessoas estufadas, com os vidros fechados para fingir o ar condicionado; multidões de todos os tons de branco (desde o transparente osga, ao castanho sucedâneo de chocolate) vestidas de cores «alegres», pirosas, bonés de propaganda imperialista, lambendo alarvemente gelados que escorrem pelos pulsos acima, arrastando cadeiras de plástico e sombrinhas desbotadas. E lá vão eles de ténis e peúgas de turco (vejam lá!) e toalha ao ombro pela praia fora, mais dez minutos até chegar perto de um mar estupidamente gelado.
Da esplanada, recrio cenários mentais que me transportam para outro azul. Revejo o Mussulo, mas sem as casas com ar condicionado dos mwatas, dos idiotas e dos novos ricos, aquele Mussulo ainda com os coqueiros todos, ainda com os acessos à contracosta sem os arames farpados e os condomínios com piscina de água doce da HP.
Pois, o Mussulo ao fim da tarde... A lua a espreitar... O Mussulo de 1980 e não outro...
Doutor, ainda estás aí? Acho que, por querer, também estive na sombra das pálpebras a fingir que pensava.
Não quero que o verão passe, nunca mais!

Terça-feira, Janeiro 11, 2005

«INSTRUÇÕES» (Não Obrigatórias)

Embora independentes uns dos outros, os 17 textos que se seguem foram aqui inseridos pela ordem em que foram escritos (entre 11.02 e 29.05 de 2004).
Para a sua leitura talvez fosse interessante seguir, por essa «cronologia», as minhas visitas ao «Café do Desassossego» (Site Sanzalangola) na altura em que eu ainda usava máscara.
Obrigada

Café do desassossego 1 - Cafés

O café, para mim, é sempre um «desassossego». É talvez da cafeína... Mas o chá é a mesma coisa... Ao contrário do meu kota, nunca consegui estudar em nenhum café. Não sei... é perturbador. É talvez do barulho da loiça... Mas não posso deixar de reparar na forma como as pessoas se movimentam no seu sentar, usar o guardanapo, levantar, encomendar, ir à toilette, ajeitar... o chapéu. Sinceramente, aqui me confesso, que nunca gostei muito de cafés. Acho que é por causa do fumo. Isso mesmo é do fumo! Odeio fumo! Incomoda-nos, não se vê bem. Ou talvez... Do cheiro dos panos com que os empregados limpam as mesas? Nauseabundos, às vezes, não? Paninhos malvados! Mas, pensando bem, rendo-me à cumplicidade que percebo entre as pessoas, entre os amantes, entre as amigas e os amiguinhos. E os cães à porta?! Definitivamente não gosto de c