Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

SAUDADES DAS VIDAS DE UM ANTIGAMENTE

NOTA: A série de textos que se segue é uma prova de que em alguns o colonialismo não deixou «saudades».

O «nosso tempo», o pós-dipanda, foi o tempo do partido único e dos cartões de abastecimento. E eramos felizes. Bué! Pois.... havia o sonho!...
Apeteceu-me, sei lá... tive mesmo saudades de Luanda antiga, de outros tempos. Daquela em que faltávamos às aulas para ir a praia. Ainda havia maximbombos e o bilhete era barato. Do Baleizão para a Ilha. E íamos ao cinema de tarde. Era a sessão das quinze. Ao Cine Estúdio. Ver filmes com o Alan Delon.
Lembram-se? Bué de miúdos que nós éramos, a trabalhar ao lado dos mais velhos a aprender como se fazia... Eles também a experimentarem...
Pequenas tarefas: agrafar folhetos para a alfabetização, participar nas campanhas do corte da cana-de-açúcar e de recolha do café; fazer ligaduras aos feridos que apareciam, vindos das "confrontações" entre os «Movimentos». Ficar no liceu sem estudar... Era bom. Ajudávamos a cuidar dos desalojados que enchiam parte das nossas escolas. Às vezes roubávamos uma laranja que descarregávamos das camionetes.
As campanhas de limpeza! Sábados Vermelhos! Fixe! A rua ficava a brilhar!
E no fim, sentada no muro, aproveitando o calor de encostar e sentir assim, na inocência, o pecado do corpo daquele colega que me mandava bilhetinhos. Era a sensação boa... da tarefa cumprida. E ia para casa, de vassoura na mão, a pensar nele que como eu e todos os outros, andavam empenhados na construção daquela Angola idealizada. Cresci assim e aprendi a namorar a causa, a responsabilidade, o sonho, enquanto aceitava, nas horas livres, um beijinho ou outro com sabor de sal, sem a minha mãe perceber.
Amadureci cedo nessa Angola, no meio de um bando de outros putos de várias origens, unidos por aquele projecto comum!
Tenho - mesmo - saudades de quando Angola ainda não era hoje.

1 Comentários:

Anonymous Sónia Guerra Marques disse...

«Um tempo que não havia de ter passado, tempo onde a infelicidade era a verdadeira felicidade e o passar do tempo não se notava. É...foi um tempo que não volta mais.»
Enviado por Sónia Guerra Marques em fevereiro 5, 2005 04:08 AM

01-03-2005 0:16  

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