Sábado, Janeiro 15, 2005

Textos que Sobraram 3 - Possa!...

«Possa, estás muito melancólica hoje!...»
Yá, foi o que me disse naquele dia, tendo eu sorrido, como a minha mãe me ensinou. Baixei os olhos e retorqui: É isso... Gosto de escrever quando estou triste. «Mas as alegrias também se escrevem. Quantas vezes escrevi as nossas alegrias!». Nunca tinha reclamado dos meus registos. Foi o primeiro dia em que senti a tempestade que se aproximava...
O vento soprou forte e trouxe o silêncio surdo de doer o pensamento. Então a chuva desaguou, escura e fria sem perceber que as minhas lágrimas erravam já sem encontrar o caminho dos olhos. A desordem chegara mesmo; estúpida e sem ser encomendada; surpreendente, sem se perceber escusada.
Atrevi-me... e com as pernas dormentes tentei dançar. Dançar transparentemente livre na vontade de me saber Mulher. Os braços, os ombros, os pés, o corpo quase todo... encheram-se de mim e, de sensibilidades adormecidas, dancei a liberdade do encantamento; daquela alforria que só eu sabia de cor. O piano, os pianos todos da minha vida inteira souberam como me transportar para aquela imensidão de margens enleadas, mas decifráveis. Escolhi deixar-me abraçar e desaparecer. «Tudo para te recuperar, Amiga!» Sorri de novo, na mágoa, os sentidos reconquistados, a raiva a crescer fora do coração
... Esta minha mania de gostar... bué!...

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