Terça-feira, Janeiro 11, 2005

Café do desassossego 8 - O Velho e o... Vento

Entrei. Cumprimentei. E sentei-me. Hoje não vou pedir nada. Vou apenas recordar em voz alta umas coisas, da infância. Maconge, chega-te para aqui. Põe a flor dentro deste copo. Tem gasosa, mas não faz mal.
«Era uma vez o homem que se fez vento...»
É engraçado!... Isto fez-me mesmo lembrar... Quando era miúda e a minha irmã também era, a Albertina era a nossa empregada. Quando nos ia deitar, queria sempre obrigar-nos a rezar o terço, mas nós não gostávamos. Primeiro: não sabíamos os versos; segundo: demorava muito tempo; terceiro: era sempre igual. Púnhamos no pescoço, tipo colar, e já estava! Então, no seu português de Trás-os-Montes, a Albertina contava-nos histórias, se calhar da infância dela. Como todas as histórias para ndengues, ou quase todas, esta trazia-nos bué de "sonhos maus". Era a de um velho que vinha à noite buscar os filhos da lua. Também se vestia andrajosamente (imaginava-o eu) e também tinha cabelos grisalhos que eram compridos. Usava um chapéu e vinha sempre com um saco as costas para levar os filhos da lua. Mas não devia ser asseado, pois era mau. E feio. Quando aparecia, o ar condicionado até parecia vento dentro do quarto; e eu e a minha irmã, que também era pequena, aterradas e enterradas nos lençóis, pedíamos a ela que continuasse. Não me lembro bem... mas o homem, em cólera, procurava em baixo da cama e em toda a casa e nunca encontrava os filhos da lua. Um dia, a lua cansada, engoliu-o. "- E é por isso que hoje olhamos para a lua e lá esta o vulto do velho", terminava, para depois nos deixar entregues ao escuro do quarto. Enquanto fui pequena e a minha irmã também foi, nos dias de lua cheia olhávamos e víamos o velho com o saco as costas. E aí, aparecia sempre um ventinho a pentear-me o cabelo. Hoje, que já somos as duas crescidas, eu ainda olho para a lua e ainda vejo o mesmo velho (não sei se ela também vê). E ainda sinto o mesmo vento. Daqui a uns dias, quando estiver lua gravida, vamos até a esplanada olhar para a lua cheia do homem que às vezes também se desfaz em... Palavras.
Querem? É que eu tenho-me esquecido de reparar se ele ainda usa o mesmo chapéu...

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