Terça-feira, Janeiro 11, 2005

Café do desassossego 13 - Ah! O Amor

"Doutor", Tens mesmo razão de dizer que nunca mais vim ao café... e que nunca mais me sentei na tua mesa (embora passe sempre a porta). Mas tu ja sabes que eu não gosto muito de cafés. Depois, fiquei assim... meio triste quando soube que tu não ias mais aparecer durante um tempo... Mas porque afinal sempre vais passando por aqui, aproveito hoje que estás, para falar de amor (porque não?). Longe de santos e de pecadores. Afinal é o amor que comanda o mundo.Senão, vê lá o que diz este texto que me enviou um Amigo meu, a propósito de um filme do mestre Luis Buñuel:
"O ciúme é uma das facetas mais tenebrosas e fascinantes do complexo mundo do amor. Por ciúme, homens e mulheres assassinam, suicidam-se, enlouquecem. Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em assumir o ciúme. Porque o ciúme denuncia-nos o medo, a insegurança, a tal sensação de poder que advém do facto de ansiarmos um certo domínio sobre o outro. A psicanálise ensinou-nos que, em determinados casos, o amor confunde-se com a posse do outro. Dessa possessividade surte uma certa ilusão de poder que muitas vezes serve para dissimular um íntimo, não admitido, sentimento de desamparo. O melhor filme sobre o ciúme que tive oportunidade de ver até hoje é de Luis Buñuel e intitula-se «El». Conta a história de um aristocrata espanhol, caído numa espiral de desconfiança e ciúme pela sua jovem mulher. Buñuel sintetiza nesse filme, de forma magistral, toda uma série de questões sobre a problemática do ciúme. Dos mitos do amor ao mito da família, passando pelo peso das convenções religiosas sobre o assunto; a subjugação a que a mulher se vê obrigada, até ao limite suportável da loucura de um marido violentamente paranóico; o próprio auto-desprezo intrínseco no ciúme, como luta inconsciente entre a opressão das normas e um desejo emergente de ruptura com a normalidade. Tudo isso e muito mais será o ciúme. Na verdade, julgo que não há ciúme sem amor. Talvez o ciúme já não seja amor, talvez seja o amor transformado em obsessão, doença, pretexto até de uma necessidade de dominação. Talvez o ciúme seja a ponte que liga o amor ao poder. Mas dificilmente o conseguimos conceber sem amor."
... Desculpa, estive para aqui a desconversar e deixei arrefecer o chá de Kaxinde que pediste para mim. Vou beber na mesma enquanto, por detrás da chávena, adivinho o que estas a pensar.

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